Por Hylda Cavalcanti
Do jornal O Poder
O Brasil perdeu ontem (13), vítima de um infarto fulminante, uma das suas maiores jornalistas: Lêda Rivas. Era referência no jornalismo pernambucano, mas admirada por colegas de todo o país — e posso afirmar, sem dúvida, que era uma das nossas mais talentosas. Culta, detentora de títulos de mestrado e doutorado, aplicada, disciplinada e muito organizada, sempre chamou a atenção pela forma esmerada com que desenvolvia seu trabalho.
Escreveu para a Revista Cruzeiro; trabalhou durante mais de 20 anos no Diário de Pernambuco como editora do caderno Viver; criou, instalou e fez crescer o arquivo do Diário de Pernambuco; foi diretora de pesquisa do mesmo jornal; coordenou publicações e reportagens que ficaram na história e ganharam prêmios; atuou também na Fundação Joaquim Nabuco; deu aulas; fez muitos amigos; viveu, enfim!
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Teve uma trajetória tão fantástica que se a gente for contar tudo aqui vai parecer inacreditável, assim como é inacreditável a notícia da sua partida. Seu velório ocorreu neste sábado (14), às 8h, no Cemitério Parque das Flores, e o sepultamento foi às 11h. A notícia da sua morte abalou muitas pessoas no Recife, em Brasília e em outros locais do Brasil.
Lêda era do tipo questionadora, sempre curiosa com o que acontecia no país e no mundo. Ao mesmo tempo em que era muito brava quando queria ou achava necessário, era uma pessoa carinhosa, que escrevia textos generosos sobre os colegas, contava histórias fantásticas da redação e tinha um ar protetor, principalmente junto aos repórteres recém-formados.
Depois de aposentada, manteve nas redes sociais quase uma agenda sobre sua mãe centenária — a famosa Dona Lôla (já falecida) — e sua família, que era deliciosa de ler. Encantava com o seu estilo primoroso de escrever.
Lêda construiu parte significativa de sua trajetória profissional dedicada à cobertura da cena cultural de Pernambuco e do Brasil. Entrevistou várias vezes importantes personalidades, desde Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro e Dom Helder passando pelos maiores nomes da literatura, como Luiz Fernando Veríssimo, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Rachel de Queiroz e Clarice Lispector, dentre vários outros.
Aos 80 anos, continuava ativa e atenta aos acontecimentos e usava diariamente as redes para comentar fatos do cotidiano e acompanhar desde denúncias sobre filas enormes em supermercados a aumentos abusivos de preços de produtos.
Lêda também tinha um espírito de voluntariado e, ao mesmo tempo, agregador. No final de cada ano, mantinha uma tradição especial de promover encontros com colegas do jornalismo. Tais eventos eram muito aguardados, pois além de serem uma oportunidade de os velhos amigos se reverem, também tinham como objetivo a arrecadação de brinquedos e presentes destinados a crianças que vivem em abrigos.
Outro lado que ela adorava era o de “chef”. Apaixonada por culinária, gostava de postar os incríveis pratos que fazia, muitos dos quais criava. Além disso, preparava as refeições para os almoços de domingo da família, a quem era muito apegada, e fazia questão de registrar.
De raízes espanholas, Lêda Rivas perdeu há poucos meses a irmã Laudemir, também de infarto. Em 2021, perdeu a mãe, dona Lôla Rivas, com 107 anos. Da família, ficam as irmãs Laudeci e Laudione, o irmão Lino, vários sobrinhos e sobrinhos-netos, além de uma legião de amigos e fãs.
Vai ser difícil escrever algumas matérias daqui por diante, porque nós jornalistas muitas vezes escrevemos algo com alguém na cabeça como referência. E eu confesso que em várias ocasiões produzi textos para que Lêda os lesse. Eu gostava de ouvir os comentários que ela fazia, de saber o que ela achava que estava certo e o que não estava. Em muitas reportagens, a inspiração para o meu trabalho era ela.
Depois de sofrer por ter visto tantos amigos partir, Lêda passou a avisar nos últimos anos que não iria mais a velórios, porque essas despedidas lhe doíam muito. Mas tenho certeza que seu funeral será repleto de pessoas que a amam e admiram.
Gostava de brincar que ficava contrariada nas suas fotos porque não saía “com a cara da atriz Michelle Pfeiffer” e fazia todos rirem com isso. Mal sabia que sempre foi tão ou mais talentosa que a atriz norte-americana na sua própria arte, no ofício ao qual se dedicou e no seu jeito de ser. Deixa por aqui um grande legado cultural e jornalístico. E um monte de gente que já sente demais a sua falta.
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