Ministros, líderes no Congresso e presidentes de partidos do Centrão e até de esquerda avaliam que o nome da deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR) para a Secretaria de Relações Institucionais indica uma tendência de Lula de se fechar ainda mais. Para eles, manter o PT na SRI restringe a articulação política do governo.
Ainda que mantenha diálogo com os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), líderes ressaltaram que a deputada tem pouca relação com a “planície” ou o “baixo clero” do Congresso, que são os deputados e senadores fora das lideranças partidárias. As informações são do Jornal O Globo.
Leia maisIntegrantes da Esplanada dos Ministérios indicados por partidos aliados ao governo veem um cenário ruim para a relação do Palácio do Planalto com o Congresso. O entendimento é que Gleisi ficou conhecida por ter um estilo mais combativo de fazer política e muitos parlamentares passaram a ter uma imagem de que ela é pouco afeita ao diálogo.
Um desafio para a futura ministra, segundo parlamentares, é desfazer essa imagem e mostrar que consegue negociar com diferentes forças políticas.
— Eu tenho uma relação pessoal com ela muito boa. O que surpreende é ser do PT. Eu esperava um movimento de colocar alguém na SRI que não fosse do PT e ajudasse ampliar a governabilidade. A escolha por ela não amplia a base para outros partidos — disse o líder do PDT na Câmara, Mario Heringer.
Para integrantes do Centrão, Lula está demonstrando que a reforma ministerial está sendo feita para resolver um problema interno do PT, acomodando Gleisi no governo e abrindo espaço para outro aliado na presidência do partido, Edinho Silva.
Um ponto destacado entre os parlamentares, no entanto, é que Gleisi terá mais autonomia dentro do governo do que Alexandre Padilha tinha. Ou seja, ela tem forte influência entre os ministros e poder para fazer planos serem executados e emendas serem pagas. A SRI é a pasta responsável por receber os pedidos de parlamentares e repassá-los aos ministérios.
O líder do Republicanos na Câmara, Gilberto Abramo (MG), avalia que a deputada tem a proteção de Lula e força política dentro do governo.
— Ela vai chegar empossada de uma autonomia maior para resolver o que precisa ser resolvido, tem poder de influência sobre os ministros. Ela vai chegar chegando — disse.
Já entre os presidentes dos partidos do Centrão, a avaliação é mais pessimista. Um presidente partidário diz que a escolha dela é “péssima devido ao perfil”. É apontado o fato de que as mudanças não alteraram a correlação de forças entre os partidos na Casa, já que Padilha já exercia influência no Ministério da Saúde e a SRI deixou de ser de um petista para colocar outra política também petista.
Há uma descrença entre os partidos do Centrão de que Lula realmente quer dar mais espaços para nomes do União Brasil, PP, Republicanos, MDB e PSD na Esplanada dos Ministérios. A avaliação é que a mudança ministerial serviu mais para atender a um problema interno do PT, já que Gleisi demonstrava a resistência a ter Edinho Silva como sucessor no comando do partido. Com a ida dela ao ministério, o caminho de Edinho para assumir a legenda é facilitado.
Ministros do Centrão
Ministros do governo que pertencem a siglas de centro afirmam que, embora Lula já tivesse sinalizado o nome de Gleisi, nenhum presidente de partido foi oficialmente consultado. Um ministro afirma que a ex-presidente do PT tem bom trânsito na Câmara, mas que sua atuação na SRI é uma incógnita.
A versão de que Lula rejeitou nomear um integrante de partido de centro devido às dúvidas sobre a adesão dessas siglas em 2026 é tida como exagerada.
Reservadamente, um ministro diz que antecipar as discussões partidárias para este ano não faz sentido num momento em que a popularidade do governo está em queda. A função da SRI agora, diz esse ministro, deve ser garantir governabilidade, buscar suporte no Congresso às pautas prioritárias do governo, e pressionar partidos a aderirem a um plano eleitoral agora não surtiria efeito.
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