Por Rudolfo Lago – Correio da Manhã
O ex-presidente Jair Bolsonaro foi condenado a mais de 27 anos de prisão. Está preso. Incomunicável. Não tem acesso a redes sociais. Não dá entrevistas. Mas, mesmo assim, é ele ainda quem dita boa parte do ritmo da política brasileira. E muito disso acontece pela estratégia adotada por seus advogados de defesa.
Os advogados sabem que boa parte dos diversos recursos que o tempo todo fazem ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes não têm sentido e serão negados. Mas obrigam Moraes a se manifestar. E, feito o pedido e feita a manifestação, mantêm Bolsonaro em evidência. Em evidência, Bolsonaro se mantém no debate político nacional.
Leia maisOrienta os humores do eleitorado nas pesquisas. E a eleição de outubro, assim, passa por ele. Assim foi na quinta-feira (15) após a decisão de Alexandre de Moraes de transferir Bolsonaro da sede da Polícia Federal (PF) para a área do Complexo Penitenciário de Brasília conhecida como Papudinha. A defesa de Bolsonaro reclamava dos 12 metros quadrados da sala do PF. E vai reclamar agora dele ficar em um espaço cinco vezes maior.
Na estratégia dos advogados de Bolsonaro, há ainda a crença de que o estilo explosivo de Alexandre de Moraes não irá falhar. Nos seus despachos, Moraes será sempre duro. Dirá que prisão não é “colônia de férias” e coisas do tipo. Ajudará, assim, a manter, um ambiente de vitimização, que será explorado com a ajuda das manifestações dos filhos e da esposa do ex-presidente, Michelle. No fundo, nada disso precisa fazer sentido. Para quem é contra Bolsonaro, bate a busca para ele de privilégios que outros presos não têm.
Para quem é a favor, é a prisão injusta de um homem de mais de 70 anos com problemas de saúde. Os exageros de uma parte ou de outra não contam quando o que se deseja é mesmo manter esse clima de radicalização emocionada. Em parte, Bolsonaro e sua defesa não inventam muita coisa. No tempo em que esteve preso, o hoje presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez parecido.
Há diferenças, porém. E só o tempo dirá o quanto vão pesar no futuro essas diferenças de estratégia. Lula procurou sempre passar a ideia de que não vergava com a prisão, de que a enfrentava com a disposição de reagir politicamente no momento em que readquirisse a liberdade para recuperar seu espaço.
Já Bolsonaro centra-se na ideia de parecer fragilizado. Em parte, porque, de fato, tem problemas de saúde. Mas em parte porque se busca construir junto a seus seguidores a ideia de que agora seja uma espécie de mártir. Para alguns, acenando que, no seu caso, o trabalho já seria de sucessão do espólio.
Não parece haver no horizonte de Bolsonaro, a essa altura, uma perspectiva de revisão da sentença. Como havia no caso de Lula. Primeiro, no caso de Lula sua condenação não estava transitada em julgado. Ainda cabiam recursos. O episódio da Vaza Jato ajudou a anulação da condenação.
Quando ficou claro que o então juiz Sergio Moro combinava com os procuradores acusações que viravam sentenças, o STF anulou as condenações. Lula não apenas ficou livre como teve recuperados seus direitos políticos. No horizonte próximo de Bolsonaro, essa não parece ser uma possibilidade. Daí, a diferença de estratégia.
Assim, no caso de Bolsonaro, o caminho que parece possível é reduzir ao máximo seu tempo de prisão. Como se busca no Congresso com o PL da Dosimetria. Bolsonaro, assim, cumpriria aí pouco mais de dois anos de prisão em regime fechado. Mas ainda assim não estaria automaticamente de volta à política.
O cenário talvez tenha feito Bolsonaro perceber que enfrentar a prisão com demonstrações de saúde e vigor talvez não fossem mais o melhor caminho. Mas se apresentar como um homem frágil e injustiçado que defenderia seu legado e construiria a sua sucessão e o nome de seu herdeiro.
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