De repente, não mais que de repente, como diria Vinicius de Moraes em seu Soneto de separação, entramos na última semana de maio, o mês das noivas, dos trabalhadores, das mães e da harmonia. O mês Mariano, como ouvi de minha mãe a vida inteira em Afogados da Ingazeira.
Mariano de novenas e celebrações entre os católicos em reverência à Maria, mãe de Jesus. Mamãe Margarida era mariana, católica fervorosa e temente ao bom Deus. Garoto, agarrado à sua saia, me botava no seu colo na igreja todos os 31 dias de maio para rezar e assistir aos sermões marianos.
Leia maisEu dormia feito um anjo no seu colo, provavelmente esbaforido das trelas feitas durante o dia: futebol com bola de meia, jogo de pião na calçada, esconde-esconde na praça e a cabeça cheia de histórias de assombrações contadas por Fernando Moraes, amigo-terrorista de mentes e corações de infância.
Ele nos enchia a cabeça nos fazendo medo. Contava que, na boca da noite ou mais tarde um pouco, o lobisomem aparecia vestido de branco para arrastar as crianças indefesas. A minha defesa, claro, era o colo aquecedor e protetor da minha mãe, reforçado pela suas orações e fé inabalável.
Mamãe me dizia que no mês de maio, a Igreja celebra a devoção à Virgem Maria, tempo que os cristãos são convidados a olhar com sabedoria e fé para a figura da mulher humilde e escolhida por Deus, que com o seu sim transformou a história da humanidade.
Na Idade média, segundo ela, acreditava-se que a concha era fecundada virginalmente por gotas de orvalho e isso fez com que esse símbolo se aproximasse ainda mais à imagem da Virgem Maria.
A devoção mariana de mamãe também nos marcou profundamente pelas novenas e a reza do terço de joelhos. E ai do filho – foram nove, quase um time de futebol – se recusasse! Posto sobre o chão duro e seco do Sertão, nossos joelhos doíam e ficavam marcados, com uma dormência, assim recordo.
Na verdade, diz a história, a tradição do mês mariano começou na antiga Grécia, porque o mês de maio era dedicado à deusa da fecundidade – Artemisa. Da mesma forma, na antiga Roma, em maio, se celebrava a deusa da vegetação chamada Flora e os jogos florais sob a intercessão dela.
Com a instituição do cristianismo como religião oficial, muitos costumes pagãos foram substituídos por celebrações cristãs. E como o mês de maio marca o início da primavera na Europa, berço do cristianismo, então passou a ser dedicado à Virgem Maria.
Leia menos
















