Por Letícia Lins – Oxe Recife
Essas duas figurinhas daí de cima, que aparecem em xilogravura de J.Borges (1935-2024) representam dois cantadores de viola, também chamados de violeiros ou repentistas, que são músicos e poetas populares, típicos do Nordeste, região onde são admirados, respeitados e seguidos. Em minha vida de jornalista, por exemplo, já me larguei do Recife para o Sertão, a fim de fazer uma reportagem com um poeta popular, que disputou a Prefeitura usando a viola como cabo eleitoral.
Foi em 2012, quando Sebastião Dias (então no PTB) tentava chegar ao executivo municipal tendo a viola como principal companheira de campanha. “Quem discrimina a viola / por não gostar de cultura / vai ver o povo levar/ um poeta à Prefeitura“, recitava, para alfinetar os adversários. As violinhas em miniatura viraram símbolo de campanha e passaram a ser disputadas a tapa pelos eleitores, que até as compravam e as fizeram sumir de mercados públicos de Tabira, que fica a 405 quilômetros do Recife. Pior: os instrumentos sofreram ameaça de destruição pelos adversários. Resultado: Dias foi eleito, o que mostra a força do poema popular e da viola. Pelo menos, no Sertão pernambucano.
Leia maisTabira está no Sertão do Pajeú, região da caatinga que é um grande celeiro de poetas populares. O problema é que quando estes se vão, faltam registros de cantorias. E estas que o risco de se perder no meio do tempo, quando restritas à história oral. Para preservar a memória dessas relíquias poéticas, três sertanejos decidiram se juntar e colocar no papel algumas pérolas da área, através do livro “A vida cheia de graça do cantador de viola”, que será lançado no sábado, 31 de janeiro, no Restaurante João da Carne de Sol.
O João da Carne de Sol fica na Rua José Bonifácio, 385, no bairro da Madalena. A tarde de autógrafos está marcada para começar ao meio dia. E os autores são: Zelito Nunes, Marcos Passos e Ésio Rafael. O primeiro publicou o telúrico “No Sertão onde eu vivia”, e nasceu em Monteiro, na Paraíba. Marcos Passos é de São José do Egito (PE), cidade conhecida como a terra dos poetas populares, e que fica no Sertão do Pajeú. Ésio Rafael nasceu em Sertânia (PE, Sertão do Moxotó). Amigos há longo tempo, os três são fãs da poesia de improviso.

Os autores têm trabalhos publicados relacionados à poética do poder da palavra improvisada e da prosa sertaneja. No entanto, no livro, colocam-se como “ouvintes”, embora também sejam poetas. Segundo os três, “o ouvinte é aquele que recita, glosa e, ainda por cima, conta história de violeiro”. E dizem mais: “O ouvinte de cantoria está para o cantador, assim como o cantador está para a viola”. Poético, não é?
“O ouvinte é um apaixonado, acompanha os passos do cantador, sabe de sua vida particular, decora e difunde os versos e ainda envia um mote que levanta uma cantoria já morgada, altas horas da madrugada”. Não é à toa, portanto, que esses ilustres “ouvintes” tenham trabalhado a seis mãos, para reunir versos engraçados de cantadores de viola.
Muitos dos poetas abordados já se encantaram e passaram para um outro plano. Devem estar tocando viola lá no céu, junto com os anjos: Lourival Batista (1915-1992), João Batista Bernardo (João Furiba, 1919-2019), Pinto do Monteiro (1885-1990), Orlando Tejo (1935-2018), Manoel Filó (1930-2005). E o próprio… Sebastião Dias (1950-2023), o poeta que virou Prefeito usando a viola como cabo eleitoral. Outros, como Paulo Braz, Oliveira de Panelas e Chico Pedrosa, continuam aprontando os versos por aí. A foto dos cantadores é de Hans Von Manteuffel, meu companheiro de trabalho nos tempos do jornal “O Globo“, onde publicamos duas reportagens sobre o Prefeito da viola, uma na campanha. E outra após a eleição. A foto estava guardada nos meus alfarrábios digitais.
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