Por Marcus Prado*
No discurso proferido na Academia Pernambucana de Letras (APL) há poucos dias, a escritora e acadêmica Maria Lecticia Cavalcanti (cadeira 23) elegeu, como selo de validação às suas ideias sobre o ideal acadêmico, autores de forte tradição intelectual. Um deles, o filósofo Karl Jaspers (1883-1979), deve ser lembrado neste 23 de fevereiro, data em que se comemora o aniversário de seu nascimento.
Os saudosos mestres e escritores Paulo Freire, Nelson Saldanha e José Souto Maior — todos de inabalável presença na memória cultural de Pernambuco — muito teriam a dizer nesta data sobre o autor do clássico Origem e Meta da História (1949). Embora focados na Filosofia do Direito, Saldanha e Souto Maior foram profundos estudiosos da obra de Jaspers. A lembrança de Maria Lecticia evoca a marca que o filósofo e educador pernambucano herdou de Karl Jaspers.
Leia maisSobre as influências fenomenológico-existencialistas de Jaspers na obra de Paulo Freire — foco do meu interesse como leitor —, encontram-se detalhadas na tese de doutorado do professor Divino Lucas de Souza, mestre em Educação pela Universidade de Uberaba (MG). Para ele, Freire ancorou-se em Jaspers, um existencialista cristão, com o qual se identificou não só pelos escritos, mas também pela própria postura de vida.
Para Jaspers, explica Lucas, somos um projeto inacabado; nunca podemos dizer “eu sou isso e ponto final”, pois, enquanto houver vida, há a possibilidade de escolha e transformação. O crescimento humanístico ocorre através da transcendência — o que não significa necessariamente algo religioso, mas sim a capacidade humana de ir além de seus limites imediatos, das necessidades biológicas e das pressões sociais. Para Jaspers, a “comunicação existencial” é a forma mais elevada de relação humana, em que as pessoas se revelam umas às outras.
Freire transro que teve significativa parte de sua obra de maturidade influenciada por Jaspers. Ele não é apenas o brasileiro mais citado em textos acadêmicos de humanidades no mundo; é o arquiteto de uma mudança de paradigma que transformou a educação põe essa ideia para a educação, definindo o diálogo como uma necessidade ontológica e a base de uma pedagogia libertadora. Freire deu novo vigor ao conceito de diálogo do filósofo existencialista, transformando-o de uma postura ética individual em uma ferramenta de transformação social e política.
É memorável o prestígio mundial de Paulo Freire, fenômeno .raro para um educador brasileiro. Ele não é apenas o brasileiro mais citado em textos acadêmicos de humanidades no mundo; é o arquiteto de uma mudança de paradigma que transformou a educação de um ato de “transmissão de dados” em um ato de libertação política e social. Sua obra-prima, Pedagogia do Oprimido, é um dos livros mais citados em universidades de excelência; em Harvard e Oxford, suas ideias são pilares nas faculdades de Educação e Sociologia.
Freire recebeu títulos de Doutor Honoris Causa de quase 30 instituições ao redor do mundo, incluindo Genebra, Cambridge e Bolonha. Dou o testemunho de que os informativos literários e bibliográficos da Cambridge University Press, dos quais sou assinante, habitualmente fazem referências aos textos do pernambucano quando o assunto é educação. Para se ter uma ideia de seu prestígio, existe um monumento em Estocolmo (Suécia) chamado The Free Word (A Palavra Livre), onde Paulo Freire aparece em destaque ao lado de figuras como Angela Davis e outros defensores da liberdade de expressão.
Viveu em Genebra, durante seu exílio da ditadura militar brasileira. Lá, fundou o Instituto de Ação Cultural (IDAC), expandindo sua pedagogia libertadora para projetos na África.
*Jornalista
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