Por Rudolfo Lago – Correio da Manhã
Conhecido entre os sertanejos como “Dotô Arraia”, Miguel Arraes foi um dos maiores ícones da esquerda brasileira, sempre identificado com o Partido Socialista Brasileiro (PSB) e com a política de Pernambuco, apesar de ter nascido em 1916 no município de Araripe, no Ceará. Governou Pernambuco por três vezes.
Morto em 2005, Arraes deixou como seu herdeiro político o neto Eduardo Campos, que morreu em um acidente aéreo em 2014, quando disputava a Presidência. Mas a família Arraes manteve seus herdeiros na política. Só talvez não contasse que a disputa separasse esses herdeiros. E que poderá chegar ao fim agora. Os primos João Campos (PSB) e Marília Arraes (PDT) reconciliaram-se.
Leia maisJoão Campos é o prefeito do Recife e candidato a governador de Pernambuco pelo PSB. Marília Arraes é ex-deputada federal. Os dois são primos. Atribui-se ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a reconciliação. A chapa costurada tem João Campos para o governo, Marília e o senador Humberto Costa (PT) para o Senado, e Carlos Costa, irmão do ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, do Republicanos, como candidato a vice.
Curiosamente, o entrave agora para a chapa não vem da briga dos Arraes, mas do PT. A briga entre João Campos e Marília remonta a 2014. Vereadora, Marília queria ser deputada federal, mas não encontrou guarida no PSB. Eduardo Campos, ainda vivo, tinha projetos para o filho, João. Marília deixou o PSB e foi, então, para o PT. Em 2020, a briga se intensificou em torno da disputa por Recife. Dez anos mais velha, Marília, à época com 36 anos, achava que João Campos, com 26, era muito novo para o cargo. Marília resolveu enfrentar o primo, que a venceu.
Com o PT se aproximando e firmando aliança com João Campos, Marília deixou o partido em 2022 e ingressou no Solidariedade. Artífice da aproximação com o PSB e com João Campos em Pernambuco, a briga de Marília Arraes, agora no PDT, começou a ser com Humberto Costa. A benção de Lula a uma possível chapa unindo os dois primos enfrenta agora resistência de Humberto.
João Campos tinha a intenção de anunciar a chapa na quinta-feira (19). O PT, porém, não deixou. Embora se diga que a ideia tenha surgido de Lula, o PT reclama que não teria sido consultado sobre essa composição. E que ela precisa vir a ser referendada em assembleia do partido. Adiou-se, então, o anúncio.
No fundo, o PT já admite que é para a união dos primos que a chapa se encaminha. Mas não aceita engolir o arranjo sem uma formalização oficial. E, no fundo, tem uma desconfiança. Os petistas dizem que as razões da briga se referem ao fato de Marília sempre só ter feito o jogo que lhe interessa.
O PT defendia um nome mais à direita na composição, o deputado federal Eduardo da Fonte (PP). E ainda não o descarta. O TSE analisará no dia 26 a Federação União Progressista, entre o PP e o União Brasil. A adesão de Eduardo da Fonte é considerada importante para ampliar o espectro de votos.
Ao mesmo tempo, o ministro da Casa Civil, Rui Costa, encontrou-se na quinta-feira em Brasília com a governadora de Pernambuco, Raquel Lyra, do PSD. Rui tenta obter uma aproximação com ela. Como, porém, é impossível colocar os pernambucanos todos numa mesma panela, o mais provável é a chapa pretendida por João Campos mesmo.
Pesquisa Real Time Big Data em 11 de fevereiro mostra João Campos com chance de vencer no primeiro turno, com 51% . Num cenário com Marília Arraes na disputa para o Senado, ela fica à frente de Humberto Costa: 27% contra 21%. E Humberto empata com Anderson Ferreira, do PL. É aí que mora o perigo.
Em todos os demais cenários que tinham sido testados, sem Marília Arraes, era Humberto quem liderava para o Senado. Foram testados cinco cenários diferentes. A avaliação é que está aí o risco. Humberto e Marília disputariam votos no mesmo eleitorado. E um pode acabar tirando a chance do outro.
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