Teu alcoviteiro escurinho era abrigo cúmplice de ternuras e segredos.
Aconchegante ninho de casais enamorados.
Foste testemunha discreta de corações disparados.
Do primeiro toque de tímidas mãos.
De rostos coladinhos na penumbra…
E do primeiro beijo roubado (com direito ao sabor de hortelã do chiclete recém-mascado).
Cine Bandeirante.
Doces instantes.
Fortes emoções.
Belas recordações que a memória teima em guardar.
Lembro-me dos casais agarradinhos.
Do estalar do amendoim torradinho.
Do cheiro bom da pipoca quentinha.
E do sabor inesquecível do chocolate Sonho de Valsa dado à namorada, e que ela, com delicadeza, repartia conosco.
Apressados para experimentar novos sentimentos e viver inocentes fantasias, sorvíamos todas as emoções que Hollywood fabricava: comédias, dramas, faroestes, aventuras e, sobretudo, romances.
Éramos ingênuos, puros, e assumíamos, com entusiasmo juvenil, todos os papéis dos atores na branca tela: o de galã apaixonado, o de mocinho valente, o de herói justiceiro.
Detestávamos os filmes “cantados” ou que tinham “cantoria” — aqueles em que o artista interrompia a história para entoar longas canções que nossa impaciência recusava escutar.
Mas adorávamos os seriados.
Principalmente o instante decisivo do “perigo da série” — quando a vida da “mocinha” ficava por um fio nas mãos de cruel vilão e dependia da coragem e destreza do “mocinho” para se salvar.
O angustiante suspense ficava suspenso no ar até a semana seguinte, quando o novo episódio da série mostrava o desfecho tão aguardado.
Ao acender as luzes, saíamos do cinema com os olhos ardendo, o coração ainda cheio de emoções e a mente encharcada de sonhos.
E, além da saudade, levávamos nas mãos o delicado aroma do perfume da namorada, a nos servir de silenciosa companhia pelo resto da noite.
Cine Bandeirante, em que canto distante estarão agora largados os quadros com as fotografias das belas atrizes — verdadeiras deusas de nossa juventude e que foram nosso primeiro alumbramento?
Belos rostos que marcaram nossos devaneios e despertavam todos os nossos hormônios juvenis: Ava Gardner, Kim Novak, Elizabeth Taylor, Claudia Cardinale, Sophia Loren…
Onde estará agora o sisudo Seu Otacílio Moraes que, por conhecer nossos pais, sempre nos “barrava” toda vez que tentávamos assistir a filmes “impróprios para menores de 18 anos”?
E por onde andará o malvado lanterninha, com sua indiscreta lanterna, que tantas vezes assustara os casais abraçados na penumbra ou enlaçados em beijos apaixonados?
Por onde andarão meus queridos amigos de infância — Ruyzinho, Humberto, Paulo, Rominho, Hermes — fiéis companheiros nas tuas barulhentas sessões de matinê?
(E que vaiavam, revoltados, o pobre do operador do velho projetor toda vez que a fita se partia e interrompia o momento mais emocionante do filme.)
Cine Bandeirante…
Por um instante, volto à Praça da Bandeira.
Vazia está a calçada onde belas e graciosas meninas passeavam, chamando nossa atenção e despertando olhares e suspiros.
Vazios também estão os bancos onde nos reuníamos para assistir àquele natural e encantador desfile de ingênua beleza.
Agora tudo é silêncio.
Tudo parece embalado numa cinzenta e estranha quietude.
Paira no ar uma atmosfera de tristeza e solidão.
Onde ficou aquele burburinho, aquelas risadas, aquele vozerio, aquela descontraída algazarra que antecedia o início de tuas animadas sessões?
Hoje, à distância, lamento teu cruel destino.
Tuas altas paredes já não acolhem aquela juventude alegre, vibrante e sonhadora.
Agora, apenas frias mercadorias — sem vida, sem alma, sem sonhos, sem nada — habitam teu interior.
Teu destino, velho companheiro, é igual ao meu.
O tempo — esse implacável escultor de ruínas — também roubou a leveza da minha mocidade.
Meus amigos, um a um, se encantaram, abrigados no mistério da eternidade…
Restaram-me, como companhia, somente os desenganos…
E esta profunda e dolorosa saudade de um belo tempo que não volta mais.
*Joel de Hollanda é arcoverdense “da gema”. Nasceu na casa nº 539 da Av. Antônio Japiassú. É o 12º filho de uma família de 13 irmãos, todos nascidos em Arcoverde. É economista, foi secretário de Educação no governo Marco Maciel, deputado estadual, federal e senador
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