Jantava com minha Nayla, ontem, em Diamantina, berço do estadista JK, quando recebi a notícia da morte do ex-ministro Raul Jungmann. Com ele, tive uma longa convivência a partir do momento em que assumiu a Secretaria de Planejamento no Governo Carlos Wilson. Foi uma passagem meteórica, porque logo em seguida assumiu a presidência do Ibama, em Brasília, start da sua brilhante carreira pública.
Era um dos personagens que vinha sondando para entrevistar no meu podcast Direto de Brasília, mas em momento algum consegui localizá-lo. Seu sumiço só compreendi mais adiante quando soube da sua luta contra um câncer no pâncreas. Jungmann era brilhante, uma inteligência rara, mas tinha um tremendo pavio curto no convívio com quem o contrariava.
Leia maisMas deu conta de todos os desafios postos em seu caminho. Sua passagem pelo Ministério extraordinário de Política Fundiária, criada pelo governo FHC em resposta ao Massacre de Eldorado do Carajás, o credenciou como gestor público por excelência no País. A pasta, tornada permanente, foi rebatizada de Desenvolvimento Agrário, onde ficou de 1999 a 2002.
Seu grande sonho era o parlamento, etapa em sua trajetória pública que também logrou êxito. Foi vereador do Recife e deputado federal por três mandatos (2002, 2006 e 2014), filiado ao MDB (para onde teve breve volta) e depois ao PPS. Foi presidente de algumas comissões da Câmara, como Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado.
Convidado pelo ex-presidente Michel Temer, comandou o Ministério da Defesa de 2016 a 2018. Sua atuação prévia no Congresso e sua posição crítica ao governo de Dilma Rousseff (PT) o gabaritaram a assumir o ministério da Segurança Pública, desmembrado por Temer do Ministério da Justiça. Ficou à frente da pasta de fevereiro de 2018 a janeiro de 2019.
Como ministro, ajudou na articulação do Susp (Sistema Único de Segurança Pública), aprovado em 2018, e defendido pelo atual governo para ser constitucionalizado na PEC da Segurança. Seu último cargo público foi o Ibram, uma organização privada, sem fins lucrativos, que representa cerca de 300 empresas e instituições do setor de mineração.
Jungmann também tentou chegar ao Senado por Pernambuco nas eleições de 2010, mas não se elegeu. Candidato à reeleição e no auge da sua popularidade, o então governador Eduardo Campos (PSB) derrotou Jarbas Vasconcelos e puxou os dois senadores – Humberto Costa e Armando Monteiro Neto.
Embora habilidoso e extremamente articulado, Jungmann não convivia bem com a crítica. Perdia o humor com uma nota de cinco linhas na minha coluna. Passou um período intrigado comigo quando lhe batizei de “Pense grande”, um dos motes da sua campanha ao Senado.
Nos seus ataques coléricos, que não foram poucos, me chamava de “Maligno”, apelido criado por Eduardo Campos. Na verdade, Jungmann teve seu auge no Governo FHC, com quem criou uma relação de amizade, sedimentada pela ex-primeira-dama Ruth Cardoso, uma das maiores amigas e admiradoras do ex-ministro.
Justiça seja feita, Jungmann viveu a vida pública com muita intensidade. Tinha uma enorme capacidade de trabalho. Era um trator, como dizia FHC. Será lembrado além do território pernambucano por sua competência, visão estratégica, capacidade de articulação e pelo legado de diálogo e ética que deixa em toda a vida pública.
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