Por Mariana Teles*
Se o Pajeú fosse gente – com voz, hábitos, dialeto, costumes e sonhos – ele atenderia pelo nome de Delmiro Barros. Poucos traduzem com tanta verdade a cultura, a identidade regional e, sobretudo, a força do nosso povo. Delmiro não canta o Pajeú: ele é o Pajeú em estado de voz.
Delmiro nasceu marcado por um dom que não se aprende e não se ensina: o improviso. Um privilégio concedido a poucos. Seu timbre é único, inconfundível, matriz de tudo o que veio depois. Foi dali que se construiu o “jeito delmiriano” de ser, cantar e existir – um estilo que não copia, não pede licença e não se repete.
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Poeta na acepção mais sensível da palavra, fez-se compositor para marcar época, linguagem e forma. Com suas canções, ajudou a reinventar o forró em todas as suas vertentes, devolvendo-lhe letra, poesia, densidade e respeito. Onde muitos simplificaram, Delmiro aprofundou. Onde empobreceram, ele elevou.
Suas composições narram o sertanejo como ele é: grande, digno, inteiro. Revelam uma região que aprendeu a se reconhecer maior ouvindo a voz de seus poetas. São canções que não passam – ficam.
O DNA dos vaqueiros pulsa em sua obra. Da música de um tempo em que a melodia contava histórias e as letras nasciam do coração e da cabeça do povo, Delmiro nos ofereceu uma chuva de saudade. Ergueu a Bandeira do Sertão, nos fez xotear mundo afora sem nunca abandonar a toada cantada com a mesma alma da Serrinha, onde ecoaram seus primeiros versos.
Sua voz atravessou o sertanejo de ouro – da escola de Milionário & José Rico, Mato Grosso & Mathias, Barrerito – sem jamais perder a identidade de quem veio do aboio. Mais que cantor, Delmiro se tornou escola, referência viva para todos que amam o verso do gado, o aboio e o forró de vaquejada – esse forró grande demais para caber apenas na classificação de “pé de serra”.
Delmiro reúne o que poucos conseguem: voz, composição, arte, identidade e um regionalismo que dialoga com o mundo. Seu chapéu cabe o planeta inteiro porque sua cabeça alcança universos onde só transitam aqueles a quem Deus permite.
Mas Delmiro não é apenas artista. É também o homem que impulsionou carreiras, acolheu irmãos de arte, palco e verso. Do aboio à cantoria de viola, poucas trajetórias não carregam as digitais do menino de Titico e Dona Maria. Sua generosidade é tão marcante quanto sua obra.
Aos 30 anos de carreira, Delmiro escolhe Santa Terezinha como segundo lar – esse pedaço de serra que une Pernambuco e Paraíba como quem abraça dois continentes para formar um só mundo.
O DVD que celebra essas três décadas não é apenas um registro musical: é um filme vivo da nossa história. Ali estão os amigos feitos pelo caminho, os clássicos que nunca saíram de moda, a elevação do Pajeú ao Brasil. Tudo sem artifício. Tudo verdadeiro.
Ver uma nova geração aplaudir Delmiro – como Iguinho e Lulinha – enquanto nomes consagrados da tradição, como Flávio José, reverenciam sua trajetória, é a prova definitiva de sua atemporalidade. Delmiro não tem idade, não tem auge nem declínio. Delmiro é.
Em tempos de redes sociais e virais instantâneos, Delmiro é o conteúdo que não se esgota em segundos. Não cabe no feed, não se limita ao algoritmo. Foi feito para todos os palcos, todos os canais, todas as histórias onde talento e verdade chegam primeiro.
Este texto não é sobre o homem Delmiro – esse exigiria livros inteiros. Este texto é um manifesto. A voz coletiva de fãs que se reconhecem parte dessa história ao assistir Delmiro Barros – 30 anos. Um tempo que apenas confirma o que sempre soubemos: Delmiro é o clássico que dispensa cenários grandiosos, luzes espetaculares ou tecnologia importada. Sua arte brota num tamborete de casa de sítio, impõe-se gigante em qualquer capital e se torna patrimônio do povo pela simples razão de existir.
Viva Delmiro Barros. Viva seus 30 anos tornando a nossa história mais bonita, mais forte, mais nossa.
Que no próximo 14 de janeiro, em Santa Terezinha, saibamos aplaudi-lo como se deve: como ídolo pela grandeza, irmão pela proximidade, gênio pela luminosidade – mas também como agricultor de versos, que planta palavras na terra e colhe eternidade. Mito pelo legado que construiu, mas sempre o mesmo menino da Serrinha: a cara, a alma e a voz do nosso Pajeú.
*Poetisa e advogada
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