Por Ricco Viana – Blog da Folha
O Consórcio Interestadual de Desenvolvimento Sustentável do Nordeste (Consórcio Nordeste) divulgou nesta sexta-feira (29) uma nota pública em que governadoras e governadores da região rebatem declarações recentes do governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo). No documento, os gestores afirmam que as falas do mineiro “insultam” os estados e cidadãos nordestinos e reforçam que o Brasil “só avançará com cooperação federativa, respeito e verdade”.
A nota apresenta dados que, segundo os signatários, desmontam a “narrativa falaciosa” de Zema. Em 2024, o BNDES desembolsou R$ 133,7 bilhões, sendo 73% destinados ao Sul e ao Sudeste. Minas Gerais, sozinho, recebeu R$ 12,7 bilhões, ocupando a quarta posição entre os mais beneficiados. O Nordeste, por sua vez, ficou com R$ 13,3 bilhões.
Leia maisEm relação aos chamados Gastos Tributários federais, a previsão para 2025 é de renúncia de R$ 536,4 bilhões. Desse total, R$ 256,2 bilhões devem se concentrar no Sudeste e R$ 89,3 bilhões no Sul, enquanto o Nordeste receberá R$ 79,3 bilhões. Em termos proporcionais, a nota destaca que Norte (75,6%) e Nordeste (37,2%) são as regiões que mais dependem desses mecanismos, reforçando o papel redistributivo previsto na Constituição.
Os governadores também contestam a ideia de que os estados nordestinos seriam os principais responsáveis pelo endividamento da União. Segundo os dados apresentados, 92% da dívida pública estadual com a União estão concentrados no Sul e no Sudeste, enquanto o Nordeste responde por apenas 3% do total.
O texto ainda faz um resgate histórico para afirmar que o Estado brasileiro privilegiou de forma contínua o eixo Sudeste-Sul desde o período colonial, com concentração de infraestrutura, crédito e investimentos industriais, enquanto o Nordeste enfrentou migrações forçadas, seca e desestruturação agrária.
Ao rebater o argumento de dependência de programas sociais, os gestores ressaltam que iniciativas como Bolsa Família, BPC e Garantia Safra funcionam como “colchão de proteção em tempos de crise” e geram efeitos multiplicadores na economia local, ao invés de estimular dependência.
“O Nordeste nunca reivindicou esmolas, mas lutou pela criação de políticas de desenvolvimento regional capazes de valorizar suas potencialidades e apoiar seus empreendedores”, diz a nota, assinada pelos nove governadores da região, incluindo o presidente do Consórcio, Rafael Fonteles (PI).
No texto, os gestores também criticam o que classificam como “retórica que divide o país, desrespeita milhões de cidadãos e compromete o ambiente de negócios”. E encerram reafirmando repúdio a “toda forma de racismo, xenofobia e estigmatização regional”.
Críticas
A nota foi divulgada após Zema voltar a atacar os repasses federais ao Nordeste. Em entrevista na quarta-feira (27), o governador disse que o modelo atual gera “ajuda eterna” e acusou o governo federal de usar recursos como “moeda de troca” política.
Não é a primeira vez que Zema provoca reação na região. Em 2023, ele defendeu, em entrevista ao Estado de S. Paulo, que o Consórcio Sul-Sudeste atuasse como contraponto ao Nordeste. Naquele mesmo ano, chegou a afirmar que o Nordeste recebia tratamento privilegiado em relação a outras regiões.
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