Por Rudolfo Lago – Correio da Manhã
No dia 17 de dezembro, Lula teve uma reunião com os senadores Renan Calheiros (AL) e Eduardo Braga (AM), dois dos principais caciques do MDB que são seus aliados dentro do partido. Foi a sondagem mais explícita que Lula fez quanto à possibilidade de ter um vice emedebista no lugar de Geraldo Alckmin (PSB) nas eleições de outubro.
Renan e Braga disseram a Lula que, diante de um convite formal, a ala governista do partido conseguiria, sim, aprovar a aliança na convenção partidária. Na avaliação dos dois senadores, hoje o comando do MDB, concentrado em São Paulo, é aliado do governador do estado, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Mas essa não seria a maioria.
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Especialmente pela força interna que têm no MDB suas seções do Pará e de Alagoas. Na convenção do MDB, os delegados não são escolhidos de forma proporcional ao tamanho dos estados. Mas de acordo com a performance regional do partido. Assim, estados onde há mais prefeitos, mais deputados, mais senadores, têm mais delegados. Nesse sentido, o Pará, governado por outro aliado de Lula, Helder Barbalho, é quem tem o maior número.
E Alagoas, comandada por Renan, é outro estado internamente forte também. Assim, Renan e Eduardo Braga disseram a Lula que a chance irá depender dos cálculos que o MDB fizer. E que, como vice-presidente, tais ganhos poderiam ser consideráveis. Numa campanha vitoriosa desde o início, engordaria a chance de formação de palanques regionais, especialmente quando se verifica a dificuldade de composição pelo centro na chapa de Flávio Bolsonaro (PL). Mas Lula sabe também o quanto é complicado fazer acertos com o MDB.
Em 2002, Lula não teve formalmente o MDB em seu primeiro governo. E, no caso, a responsabilidade por não ter havido esse acerto foi do próprio Lula. Ele desautorizou José Dirceu, que seria seu ministro da Casa Civil, a fechar os acertos que fazia com o então presidente do partido, Michel Temer. A falta de acerto com o MDB deu no Mensalão.
Divisão interna sempre foi o sinônimo do MDB. Ir, portanto, para uma convenção nessas características, não seria uma novidade. O problema é que, às vezes, isso vira divergência física mesmo. Uma convenção do MDB no plenário da Câmara terminou uma vez com uma briga que quebrou o vidro do plenário.
No caso do PT, há ainda o trauma com Dilma Rousseff, que teve como seu vice Michel Temer. Embora Temer negue, há uma desconfiança muito grande de que ele tenha ajudado a tramar o impeachment de Dilma. Afinal, ele viraria presidente, e quem comandou o processo foi seu aliado, Eduardo Cunha.
Outro problema, no caso, é que ainda que a ala governista vença a convenção certamente não conseguirá que o MDB inteiro apoie a reeleição de Lula e que todos trabalhem para ele. Provavelmente, isso não acontecerá no Sul. Não acontecerá em São Paulo. Na verdade, nunca aconteceu em eleições anteriores.
Os cálculos, então, precisariam levar primeiro em conta o grau de risco da aprovação em uma convenção disputada. E, depois, a agregação de apoio em determinados estados. No caso do Nordeste, Lula teria já esse apoio. Onde mais a troca do vice somaria, é o que será preciso calcular. E isso passa também pelo perfil de quem for escolhido.
Um nome do Nordeste talvez agregasse pouco. O governador do Pará, Helder Barbalho, talvez colocasse alguém forte partidariamente, mas de um estado que é apenas o nono colégio eleitoral. A ministra do Planejamento, Simone Tebet, poderia agregar por ser mulher e ter sido terceiro nas últimas eleições.
Finalmente, Lula teria que calcular se vale a pena perder um vice como Geraldo Alckmin. O vice-presidente lhe tem sido fiel e útil. Lula calcula que ele poderia ter chances se disputasse o governo de São Paulo, coisa que Alckmin não deseja. Até porque, ali, a parada contra Tarcísio de Freitas não será simples.
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