Sua cadeira ficava logo atrás da minha. Bastava um leve giro — e ficávamos frente a frente. E ali nasciam conversas longas, densas, sempre pedagógicas. Conversávamos muito. E, enquanto conversávamos, eu aprendia.
Ele, senador experiente, figura de projeção nacional, respeitado inclusive pelos adversários. Eu, ainda iniciante, sentindo sobre os ombros o peso quase solene de suceder Marco Maciel, que renunciara ao mandato para assumir a Vice-Presidência da República ao lado do presidente Fernando Henrique Cardoso.
Pedro Simon é homem de vasta cultura jurídica. Encarna, com naturalidade, a altivez do povo gaúcho. Tem extensa folha de serviços prestados ao Rio Grande do Sul e ao País, mas é sobretudo sua bagagem moral e sua vida modesta que impressionam.
Coragem cívica não lhe falta. Discorda quando precisa discordar — ainda que seja a orientação do próprio partido.
Atuávamos em campos políticos distintos — ele no PMDB, eu no PFL —, mas a divergência nunca impediu o respeito. Pelo contrário: dele recolhi lições profundas de espírito público, amor ao Brasil, honestidade e zelo no trato da coisa pública.
Na tribuna, não falava apenas com a voz. Falava com os braços, com as mãos, com o corpo inteiro. Dava às palavras densidade e gesto. E o plenário, atento e silencioso, admirava a força de sua convicção e o destemor com que a defendia, não importando o opositor.
Jamais quebrou a palavra empenhada. Jamais desceu ao terreno lamacento da fulanização das questões ou do ataque pessoal. Era firme sem ser agressivo. Combativo sem ser pequeno.
Recordo um domingo no Clube do Congresso. A convite do senador Roberto Requião, participávamos de um churrasco na área verde, à sombra de frondosas árvores. Entre uma conversa e outra, aproximou-se de mim:
— Hollanda, preciso lhe pedir um favor.
Explicou que falecera o bispo de Porto Alegre, amigo querido, cujo sepultamento ocorreria no dia seguinte. Não encontrara voo disponível. Soubera que Marco Maciel representaria o presidente Fernando Henrique na solenidade. Perguntou-me se eu poderia interceder por uma carona.
Liguei imediatamente para o Jaburu.
A resposta veio pronta, generosa:
— Joel, diga ao senador que esteja às 17 horas no hangar da Base Aérea de Brasília. Será um prazer tê-lo como companhia até Porto Alegre.
Transmiti o recado. O rosto de Pedro Simon iluminou-se com um misto de alegria e alívio.
E então me disse:
— É engraçado, Hollanda. Sou fundador do MDB, mas não recebo no meu partido a distinção que recebo de Marco Maciel. Você é um privilegiado por ter um amigo da estatura e dignidade dele.
A grandeza sabe reconhecer a grandeza. Outra marca sua é o bom humor constante. Sabe que a política exige gravidade — mas não precisa ser sisuda.
Certa vez, antes do início da sessão das 14 horas, retirou da mesa um jornal do Rio Grande do Sul e apontou para uma fotografia em destaque:
— Veja, Hollanda, o que a imprensa da minha terra fez comigo.
A imagem o mostrava no plenário, de braços cruzados, cochilando. A cabeça inclinada quase repousava sobre o ombro da elegante e atuante senadora Emília Fernandes.
E arrematou, sorrindo:
— O pior, Hollanda, não é me flagrarem cochilando… é parecer que estou dormindo no ombro de uma mulher bonita.
Assim é Pedro Simon: ético sem ostentação, firme sem aspereza, humano sem perder a estatura.
Homens com seu gabarito moral e ético fazem imensa falta na atual cena política brasileira — especialmente no Senado Federal.
Hoje, pela omissão de muitos, aquela Casa bicentenária tem se apequenado. Permite-se que o Poder Judiciário — notadamente o STF — avance sobre fronteiras constitucionais, produzindo desequilíbrio entre os três Poderes da República.
E, quando o equilíbrio se rompe, a democracia — já combalida — começa a se corromper, a deteriorar-se e a ceder lugar ao autoritarismo.
Celebrar os 96 anos de Pedro Simon é mais do que prestar homenagem a um exemplar homem público. É reafirmar que a política pode ser grande. Que a ética não é ornamento — é alicerce. Que o Brasil ainda possui referências morais.
Que sua biografia permaneça como farol em tempos de tanta escuridão, omissão e falta de amor à Pátria.
*Joel de Hollanda é economista. Foi secretário de Educação no governo Marco Maciel, senador e deputado federal.
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