Por Marcelo Tognozzi
Colunista do Poder360
Barcelona amanheceu com o céu nublado na última quinta-feira (26), um frio de pouco menos de 10 ºC. Dia cinzento, nem parecia ter a primavera dado o ar da graça há menos de uma semana. Virou dia teimoso de inverno, a data que Noélia Castillo escolhera para ser a última e mais importante da sua vida. Às 18h, em plena hora do Angelus, tinha encontro marcado com a morte.
Demorou 601 dias até que aquela moça de 25 anos, cara e jeito de menina, olhos grandes e tristes, pudesse partir em paz. Na realidade, esperou quase toda a vida por aquele momento. Na Catalunha efervescente de política e independência, Noélia cresceu nas mãos da Generalitat, como é chamado o governo local. Nasceu em 14 de novembro de 2000. Ano de tragédias para os catalães: em junho, inundações, e, em 30 de dezembro, pelo menos sete esquiadores morreram nos Pirineus durante uma tempestade fortíssima com ventos que mais pareciam furacões.
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A família de Noélia era o retrato daqueles tempos. Gerônimo e Yolanda, entregues a uma vida desregrada, perderam a filha para o Estado. Abandonada ainda criança, passou parte da infância e da adolescência vivendo em abrigos. Não tinha pertencimento, não era dona de si mesma. Virou propriedade da Generalitat, instituição difusa, sem rosto, nem sentimento, nem alma. Foi vivendo como dava. O abandono, quando é de propósito vira um aleijão na alma, uma cicatriz que não fecha, vida que não desabrocha.
Ela viveu no inferno. Aquele inferno imposto por um Estado incapaz de cuidar dos seus cidadãos com um mínimo de dignidade e respeito. Noélia foi violada pela primeira vez quando acabara de entrar na adolescência. Tornou-se vítima de abusadores, homens de todas as idades, muitas vezes dentro do abrigo onde deveria estar segura, mas os olhos do governo não são olhos de enxergar, são olhos de vigiar e punir. O poder público não ama, administra. Não pede, impõe.
Viveu não o que sonhou, mas o permitido. Os pobres, os abandonados, são iguais seja no Brasil, na Catalunha ou em Paris. Vigiados, mas nunca vistos pelos olhos dos governos. E, sem ser vista ou percebida, Noélia se entregou ao único prazer acessível, aquele proporcionado pelas drogas. Não interessa de onde vem, nem quando, desde que esteja à mão, assim como seu corpo, seu sexo, sua alma de menina moça que jamais conheceu amor, respeito, gentileza.
Quando tinha 21 anos, já fora dos abrigos, existia; não vivia. Foi então que num outubro, fim de outono, quase inverno, ela tinha cheirado umas carreiras, aquela cocaína vendida nos narcopisos do centro de Barcelona. Noélia caiu numa armadilha. Acabou vítima de estupro coletivo praticado pelos chamados Menas, acrônimo para definir outros desvalidos os “menores estrangeiros não acompanhados”. Adolescentes fugidos da miséria dos seus países, africanos, muçulmanos, gente marcada pela rudeza, em busca de algo que aqueles que ficaram nunca terão. Os meninos fizeram o diabo com Noélia. Tiraram dela a raspinha de dignidade guardada lá no fundo.
Ela travou. Olhou para sua vida, seu passado e entendeu que jamais teria futuro. Decidiu acabar de uma vez por todas com aquilo. E pulou da janela do 5º andar. A desgraça, quando é muita, vira fartura. Noélia voou para os braços da morte, mas a morte não quis saber de Noélia. Acabou na calçada, toda machucada, frente a frente com o velho ditado espanhol: hierba mala nunca muere.
Seu corpo desfalecido de quase menina aterrissou no cimento, a espinha partida. Agora era oficialmente paraplégica. Já tentara se matar outras vezes. Vinha ensaiando desde muito pequena, quando começara a se ferir e conviver com aquela excitação de ver o sangue brotar e escorrer, a vida esvaindo a conta-gotas, nunca de uma vez.
Depois da passagem nos abrigos, das violações e das drogas, conheceu o cotidiano de uma cadeira de rodas, a sonda conduzindo urina, intestino incontrolável, higiene precária e dependente, dores lancinantes transformando em epopeia qualquer cotidiana atividade humana. Os médicos deram o veredito: será cada vez pior.
Ela mergulhou na depressão. Só havia uma coisa a fazer: pedir para que o mesmo Estado, seu proprietário e vigia, a matasse em nome da lei. E assim, Noélia Castillo foi à Justiça reivindicar seu direito à eutanásia determinado na legislação da Espanha. O que deveria servir para velhos e entrevados passou a ser remédio para uma jovem de 25 anos. Foi uma luta grande. Durou 601 dias. Seu pai fez de tudo para impedir, como se quisesse compensar o incompensável. “Não entendo por que me quer viva se nunca me quis”, declarou numa entrevista.
Noélia venceu nos tribunais. Reconheceram seu direito de ser morta pelo Estado, convencidos de que de nada valeria viva. Depois de toda uma existência na subcidadania, nada melhor do que uma morte limpa, rápida e eficaz. Da noite para o dia, ficou famosa, deu entrevistas e apareceu na televisão e nas redes sociais. Pessoas se reuniam para rezar por ela, inconformados com sua escolha.
Incrível como há gente incapaz de enxergar o que estava por trás da escolha de Noélia. Nada mais, nada menos que um Estado incompetente para cuidar dos seus cidadãos, falido moral, ética e espiritualmente. Incapaz de dar vida, acabou oferecendo a morte como única alternativa.
Na quinta-feira, foi levada para o hospital Saint Camil, onde recebeu as infusões que a libertaram do inferno. Um dia antes, se preparou com todo esmero, porque desejava morrer bonita, maquiada, penteada e livre. Às 18h daquela quinta-feira fria e nublada, finalmente Noélia encontrou a amiga morte do jeito que sonhou viver.
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