Aliás, meu pai era dono também da casa onde funciona hoje a agência do BB. Foi lá que nasci e brinquei com bola de gude na praça Monsenhor Arruda Câmara, o coração da cidade. A casa era tão grande que comportava na frente a miudeza do meu pai e no fundo um curral de gado, além de um armazém para estocar as mercadorias que chegavam por trem do Recife.
Quando estava vazio, o armazém servia de salão de bola. Que diversão gostosa! O tempo foi passando, meu pai, vítima do Plano Collor, perdeu muito dinheiro na política, atividade que minha mãe Margarida contestou a vida toda. Como Roberto Magalhães, ela dizia que política foi invenção do diabo.
Mas meu pai era um homem extremamente humilde. Acho que seguia os ensinamentos de Confúcio, pensador e filósofo chinês, que dizia que a humildade é a única base sólida de todas as virtudes. Com o tempo e com ele, aprendi três coisas que agradam a todo o mundo: gentileza, frugalidade e humildade.
Como diz Augusto Cury, o maior líder é aquele que reconhece sua pequenez, extrai força de sua humildade e experiência da sua fragilidade. A humildade exprime uma das raras certezas de que estou certo: a de que ninguém é superior a ninguém.
Quanto maiores somos em humildade, tanto mais próximos estamos da grandeza. Humildade é tudo: empatia, respeito, evolução e paz interior. A humildade não significa fraqueza, passividade ou falta de ambição. Pelo contrário, exige muita força interior e autoconhecimento.
Na sua raiz etimológica, a palavra vem de húmus (terra), o que nos lembra a importância de manter os “pés no chão”. Segundo a doutrina cristã, a humildade, como característica de um indivíduo, é a consciência baseada no conhecimento de si mesma, da própria nulidade diante de Deus, a exemplo de Cristo (Filipenses 2:2-8).
É o contrário da soberba e exclui a presunção, mas não exclui o reconhecimento dos dons recebidos de Deus. A humildade pode ser um traço do caráter de uma pessoa, o que significa que até um milionário pode ser humilde. O oposto da humildade é a arrogância.
A humildade consta em praticamente todos os textos da Bíblia, onde encontramos a célebre frase: “Quem se humilha será exaltado, e quem se exalta será humilhado”. A falta de humildade é um pecado para os seguidores da doutrina cristã, considerada essencial para a construção de uma “vida santa”, isenta de pecados.
Para o humilde, ninguém é pior ou melhor do que os outros, estando todos no mesmo nível de dignidade, de cordialidade, respeito, simplicidade e honestidade. Miguel de Cervantes, maior escritor da língua espanhola, definiu a humildade como a base de todas as virtudes.
O topo da inteligência é alcançar a humildade. Quanto maiores somos em humildade, tanto mais próximos estamos da grandeza. Em sua crônica “Criar seu filho”, Rachel de Queiroz, a grande cearense que nos deixou de herança “O Quinze”, a sua grande obra, dizia que a primeira coisa que ensinaria a um filho seria a humildade, definida como “a consciência profunda da nossa pequenez, da nossa miséria, da nossa transitoriedade”.
Em seus textos, ela valorizava a vida simples, celebrando, em crônicas como “Glória humilde”, as pessoas que “nunca pediram muito da vida nem dos homens”. Ela preferia a simplicidade da verdade, o que chamava de “a humilde, a nua verdade”, preferindo-a a atitudes fingidas ou saudades falsas.
Meu pai, portanto, foi um homem sábio quando adotou a humildade. Sinto muito orgulho das minhas raízes e dos ensinamentos que recebi dele, um homem trabalhador e humilde. Tudo o que sou e tudo o que conquistei carrega a base que ele construiu.
Aprendi com meu pai que a humildade é primordial, e que através dela sempre deixamos as portas abertas. Ele era um homem muito humilde, um verdadeiro carpinteiro e trabalhador. Sou orgulhoso do pai que tive, um grande homem, um guerreiro.
Deixou o bom exemplo e, mais do que palavras, deixou atitudes. Como meu pai, gosto de coisas simples, como ver as nuvens se moverem, ouvir o canto dos pássaros, admirar o pôr do sol e o nascer da lua. São as marcas de mais um dia vivido e abençoado.
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