Getúlio o puxou pelo braço e perguntou: — Você não vai me pedir nada?
— Eu já disse a Vossa Excelência que vim aqui apenas para desejar felicidades!
E saiu apressado, como se estivesse atrasado para algum compromisso importante. Getúlio ficou emocionado com o gesto daquele homem. E, com os olhos marejados, disse a um assessor antigo do Ministério que não conseguia esquecer aquela cena. Foi quando o assessor esclareceu tudo:
— Dr. Getúlio, aquele homem é um maluco e uma das manias dele é ir para a posse de ministros, ficar no último lugar da fila e, na hora do cumprimento, dizer que veio apenas para desejar felicidades ao empossado.
Corria o ano de 1963. O deputado federal Tancredo Neves caminhava pelos corredores da Câmara, em Brasília, já capital federal, quando seus assessores perceberam que na direção contrária vinha o também deputado José Maria Alkmin, outra “raposa política” do mesmo quilate. Tancredo ficou tenso porque Alkmin o havia convidado para o seu aniversário e ele não teria ido nem dado satisfações.
Quando se cruzaram, Tancredo disse em alto e bom som: — Alkmin, eu não pude ir ao seu aniversário, mas lhe mandei um telegrama de parabéns!
E Alkmin, que tinha uma astúcia invejável também, não titubeou:
— E eu já respondi seu telegrama, meu conterrâneo Tancredo! Nunca existiu nenhum dos dois telegramas!
No começo dos anos 1950, um homem entrou aos prantos no gabinete do governador Agamenon Magalhães, no Recife, dizendo que, se o seu pedido fosse atendido, nunca mais votaria contra o governador. Agamenon se lembrava muito bem dele, era o maior traíra.
— Governador, pelo amor de Deus, meu filho se formou em agronomia, tem uma vaga na Secretaria de Agricultura e, se o senhor nomear meu filho, eu serei seu eleitor para o resto da vida.
Agamenon, já conhecendo a figura, puxou um cartão de visitas e escreveu um bilhete indicando ao secretário a colocação do jovem agrônomo. Matreiro que só, o governador tinha um código interno com os secretários. Ao escrever “faça” o favor sem o cedilha, ele queria dizer “faca”, ou seja, corte!
Seis meses depois daquela fatídica audiência, o governador foi visitar um município sertanejo e avistou o pai do agrônomo vindo em sua direção, todo contente e sorridente. Agamenon tentou se esquivar, mas não conseguiu. O homem chegou perto dele e foi logo dizendo:
— Governador, não tenho palavras pra lhe agradecer. O meu filho se deu tão bem na secretaria que já assumiu um cargo de chefia.
E completou: — Governador, o meu menino é tão inteligente que, quando leu o cartão do senhor, percebeu que estava faltando um cedilha e ele colocou esse cedilha porque um governador não pode escrever um bilhete para ninguém com erro de português.
O ano era 1998. Miguel Arraes, em desvantagem, tentava a reeleição contra Jarbas Vasconcelos. Os assessores apontavam para a popular “fadiga de material” porque Arraes almejava o quarto mandato. A solução poderia estar em Duda Mendonça, o publicitário mais disputado do mercado naquela época. Tinha fama de ganhar tudo quanto era eleição. Arraes recebeu Duda Mendonça com um afago contido, como era seu estilo.
Os assessores relataram para o baiano a difícil situação do Estado e da campanha. E Arraes, calado, só ouvindo. Ao final, Duda Mendonça olhou para o governador e disse: — Eu não faço milagre!
Arraes, com seu olhar certeiro e profundo, ficou cara a cara com o marqueteiro e respondeu: — Eu pensei que fizesse!
*Jornalista
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