O que é o mar? Como alguém, como eu, vindo de terras secas, de vidas severinas, diria ao vê-lo pela primeira vez? A única expressão que me veio foi um grande açude, parafraseando um poeta popular do meu Pajeú.
Ignorância à parte, o mar é um reflexo da imensidão de Deus. É profundo, acalma e nos renova. É fonte de inspiração, serenidade e mistério. Desperta sonhos, acalma o coração e esconde segredos profundos.
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Li grande parte da obra de Pablo Neruda. “Necessito do mar porque me ensina: não sei se aprendo música ou consciência: não sei se é onda ou onde ou ser profundo somente rouca voz ou deslumbrante suposição de peixes e navios”, escreveu.
O poeta chileno sentia a influência do mar até mesmo quando dormia, descrevendo-o como um elemento que o acompanhava em seus pensamentos e sonhos. Em seus últimos poemas, conversava com o mar, com versos cheios de nostalgia. Neruda construiu sua casa em Isla Negra pensando em um barco, celebrando a vista para o oceano e acumulando “tesouros” trazidos pela maré.
Para Neruda, o mar não era apenas uma paisagem, mas uma entidade viva que o ajudava a entender a música e a própria existência.
Mesmo com uma faixa litorânea que percorre as regiões do Norte ao Sul de Pernambuco, muitos como eu também nunca viram o mar. Só conhecem cactus, mandacaru, rios secos que inspiram poetas, o canto do sabiá, o voo da Asa Branca que agora só existe na canção de Luiz Gonzaga.
Nunca esqueço do dia em que José Maria Sultanum, o agora famoso “Zé da Pousada Zé Maria”, grife em hospedagem em Fernando de Noronha, me levou pela primeira vez para tomar banho no mar de Boa Viagem, na companhia do seu irmão Tonheca. Antes, me deram um banho com um protetor vermelho. Branquíssimo, fiquei igual a um pimentão brilhando na areia. E tome gozação da parte deles e de outros amigos praieiros que saíram do nada.
Conheci a família Sultanum por meio do meu pai Gastão, comerciante em Afogados da Ingazeira e grande cliente dos Armazéns Sultanum, no Cais de Santa Rita. A amizade com Zé e Tonheca virou uma irmandade que dura até hoje. Eu passava férias na casa dos pais deles no Recife e eles se habituaram a se refugiar em férias no Pajeú. Zé Maria ia mais para jogar futebol. Era um craque no ataque. Ninguém fazia mais gols do que ele nos times de pernas-de-pau da minha terra natal.
Tempos bons! Para quem vive na região dos sertões, a distância se impõe como um obstáculo a mais a quem sonha em contemplar as ondas azuis do oceano. A reação de um poeta do sertão ao ver o mar pela primeira vez é um misto de assombro, choque de realidade, emoção profunda e uma redescoberta de sua própria poética.
O mar, para quem vive na caatinga, não é apenas água; é a antítese do sertão, o fim da seca e a realização da profecia de Antônio Conselheiro de que “o sertão vai virar mar”. Com o tempo, descobri que mergulhar no mar, como faço neste feriadão em Porto de Galinhas na companhia dos meus filhos, é sentir a energia da vida.
Como Neruda, muitos poetas se renderam a beleza da imensidão azul do rochedo do mar. Carlos Drummond de Andrade foi um deles: “O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar”.
Guimarães Rosa, de Grandes Sertões e Veredas, também beijou o mar: “O mar não tem desenho. O vento não deixa o tamanho”. Eu vou mais além. Nas ondas do mar, sinto a presença divina, que me acalma, me renova e me lembra da grandiosidade da criação.
“Ah… O mar… Espécie de céu líquido, também sem fim”, escreveu Rachel de Queiroz, que também veio do mato e não tinha palavras quando ficava a contemplar o vai e vem das ondas salgadas no Rio de Janeiro, cidade que a adotou.
Por fim, recorro a grande Fernando Pessoa: “Deus ao mar o perigo e o abismo deu. Mas nele é que espelhou o céu”. É da gigante Cecília Meireles: “Pus o meu sonho num navio e o navio em cima do mar; depois, abri o mar com as mãos, para o meu sonho naufragar”. Que lindo!
Como sertanejo sofrido e tangido pela seca no abraço do mar, penso que o sal que existe no mar é o mesmo presente nas lágrimas e no suor dos homens de vidas secas. Não é de se estranhar todas suas semelhanças.
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