O presidente estadual do Republicanos, Samuel Andrade, abriu, há pouco, o ato em apoio à reeleição de João Campos (PSB) para prefeitura do Recife. “A gestão do Recife é 10 e o Republicanos, assim como fez em 2020, quer estar nesse time”, afirmou o presidente.
Apurei, há pouco, que o ex-prefeito de Petrolina, Miguel Coelho (UB), esteve, ontem, de fato, com o pré-candidato do PSB a governador, João Campos, mas que a conversa girou em torno não apenas da chapa majoritária, mas sobretudo da proporcional. Miguel representa a federação, União Brasil e PP, sendo presidente estadual do UB.
Nesta condição, disse a João que ele não pode se preocupar na composição da chapa com olhar restrito ao PSB, o seu partido, que já projeta eleger seis federais, mas de forma mais ampla, emvolvendo o União Brasil, o Republicanos, o PSDB o MDB, partidos comprometidos com o projeto majoritário dele.
Miguel reclamou, por exemplo, dos movimentos do PSB para atrair dois deputados do União Brasil. “Isso não se faz com um partido que está nesse jogo para somar”, teria reclamado. Miguel sentiu da parte de João uma certa ansiedade para montagem da chapa majoritária, mas aconselhou o princípio do ensinamento de Marco Maciel — quem tem prazo, não tem pressa”.
Quanto à declaração de que estaria no palanque de quem acreditar no projeto do União Brasil, Miguel não teria se referido a ele como pré-candidato ao Senado, mas sobretudo à chapa proporcional, que não vem tendo a devida atenção por parte de João.
“Quanto mais o símbolo for arcaico e profundo (…), mais se torna coletivo e universal. Quanto mais abstrato, diferenciado e específico, ao contrário, mais se aproxima da natureza das particularidades.” — C. G. Jung
O ano de 2026 começa com uma data fundamental para o calendário e para a memória dos movimentos culturais pernambucanos: os 60 anos de criação dos Tapetes Casa Caiada. Trata-se de uma iniciativa com profundo reflexo social entre famílias de baixa renda, nascida do talento de uma geração de artesãs suburbanas do Recife. Pioneiras no Nordeste, essas mulheres criaram, individualmente ou em coletivo, os famosos tapetes ornamentais que hoje são sinônimo de sofisticação e tradição.
Tudo se deve — e é recordado com carinho — ao empenho visionário e à confiança no futuro depositados pela senhora Maria Digna Pessoa de Queiroz, falecida recentemente no Recife. Seu trabalho, em parceria com a senhora Edith Pessoa de Queiroz, tornou-se conhecido pela rica qualidade artesanal após enfrentar tempos de grandes desafios.
Nenhuma peça era exatamente igual à outra. Utilizavam-se materiais locais e processos de baixo impacto ambiental, resultando em um produto que carregava a identidade cultural das mulheres da nossa região. Cada nó e cada cor encerravam um significado profundo e simbólico. Com o tempo, surgiram novas linhas: Geométrica, Étnica, Animal Print, Floral e Infantil.
Daí nasce o meu interesse em prestigiar e defender a preservação contínua desse patrimônio. Confesso: detenho-me a olhar esses tapetes — os da Casa Caiada, sob a inspiração do Movimento Armorial de Ariano Suassuna, e os de Lagoa do Carro —, fascinado pelo experimentalismo das cores e pelo simbolismo multifacetado de suas tramas. Não é de hoje que os nossos tapetes ornamentais figuram em minhas cogitações de cronista.
No Conselho Estadual de Cultura, do qual fui titular, muitas vezes me pronunciei em sua defesa, salientando a importância desse movimento como patrimônio cultural para o nosso Estado. Recentemente, dias antes do falecimento de Dona Maria Digna, manifestei por meio das redes sociais o desejo de entrevistá-la. Sei que minhas mensagens foram lidas, mas a fatalidade do destino impediu o encontro. Eu desejava expressar não apenas minha admiração pelo seu trabalho heróico, mas também compartilhar a notícia de que os tapetes ornamentais de Arraiolos (Portugal) foram oficialmente reconhecidos como Patrimônio Imaterial pela UNESCO há poucos dias.
Os tapetes alentejanos alcançaram essa honraria por seus desenhos intrincados e pela influência de estilos acumulados ao longo dos séculos — de padrões mouriscos e orientais ao barroco e rococó.
A UNESCO já reconhece técnicas tradicionais de tecelagem como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, sublinhando sua relevância para a memória coletiva global. Esse selo não é meramente um prêmio de estética, mas um compromisso com a transmissão de saberes, garantindo que mestres tecelões sigam ensinando aprendizes. Em Arraiolos, até hoje, a tecelagem é acompanhada de orações e cânticos, visando trazer sorte e prosperidade a quem os utiliza. Que o exemplo português ilumine o destino e a preservação do nosso tesouro Casa Caiada.
A saída de Ricardo Lewandowski do Ministério da Justiça e Segurança Pública abre espaço para uma mudança estratégica de perfil na Esplanada. O presidente Lula (PT) tem planos de escolher ex-governadores para a vaga, buscando alguém com “casca grossa” e experiência direta no comando das polícias. A preferência por um ex-gestor estadual obedece a uma lógica pragmática: credibilidade e facilidade de diálogo.
Quem já sentou na cadeira de governador sabe o que é enfrentar problemas crônicos de segurança pública e ter sob seu comando as Polícias Civil e Militar. Essa vivência gera uma solidariedade natural, facilitando a interlocução até mesmo com governadores de oposição. É mais fácil e produtivo um ex-governador tratar com os atuais mandatários do que alguém que nunca ocupou o cargo e vive apenas da teoria jurídica.
A sucessão reaquece inevitavelmente o debate sobre o desmembramento da pasta e a recriação do Ministério da Segurança Pública — uma ideia que Lula já defendia desde a transição, embora condicionasse a primeiro consertar a Justiça.
Existe um velho dogma em Brasília de que criar esse ministério jogaria o problema da violência no colo do presidente. Dilma Rousseff acreditava nessa tese. No entanto, essa lógica envelheceu mal: o problema já está no colo do presidente.
Com o crime organizado infiltrado na economia formal, no alto escalão e operando como máfias transnacionais, a sociedade não encara mais facções como o PCC ou o Comando Vermelho apenas como problemas locais do Rio ou de São Paulo. A percepção é de um problema nacional.
Nesse cenário, um ministro exclusivo da Segurança Pública funciona como um fusível: em momentos de crise, ele queima antes de atingir o presidente. Ele serve de anteparo. A sociedade passa a ter a quem cobrar diretamente, preservando a figura presidencial.
Lewandowski deixa o cargo não apenas por questões pessoais, mas também em meio a um processo de desgaste.
O mais recente desconforto de Miguel Coelho (UB) não passou despercebido nos bastidores da política pernambucana. Aliados e lideranças próximas ao prefeito do Recife, João Campos (PSB), interpretaram como mais um capítulo da insatisfação recorrente do ex-prefeito de Petrolina na tentativa de garantir um espaço na chapa majoritária que deverá ser liderada pelo PSB nas próximas eleições.
Ao ser questionado pelo blog Cenário, de Caruaru, se estava animado com a pré-candidatura de João Campos (PSB) ao Governo do Estado, Miguel garantiu que o partido estará no palanque de quem acreditar no projeto do União Brasil, que busca viabilizar um espaço na majoritária para a Casa Alta.
A declaração, segundo o mesmo blog, foi suficiente para que inúmeros setores da política fizessem diferentes interpretações sobre o “recado” enviado pelo ex-prefeito. Uma delas é a de que ele estaria disposto a recalcular sua rota para não ficar refém de uma aliança antecipada com a Frente Popular.
Segundo interlocutores do campo socialista, o movimento soou menos como estratégia e mais como ansiedade. Na avaliação desses aliados, ainda falta a Miguel maturidade política para compreender o ritmo e a lógica das grandes construções eleitorais. Não por acaso, dizem, cada novo movimento acaba reforçando a impressão de que o grupo político que o acompanha trabalha com uma ansiedade descontrolável.
A leitura não é nova. Nos bastidores, há quem recorde que o próprio Eduardo Campos já fazia observações pouco entusiasmadas sobre esse tipo de comportamento, enxergando com cautela alianças que se constroem mais pela conveniência do momento do que por projeto político. O prefeito, no entanto, tem reagido com a tranquilidade de quem sabe que o tempo costuma ser o melhor filtro da política.
A avaliação entre aliados é de que João seguirá trabalhando no compasso do calendário e com atenção redobrada àqueles que querem, de fato, ajudar a construir uma solução para o futuro de Pernambuco e não apenas tirar proveito imediato dessa ideia de futuro.
Um aliado próximo a João, em tom ainda mais direto, ironizou ao afirmar que Miguel Coelho “não tem partido, aliás nunca teve”. Segundo essa fonte, falta ao ex-prefeito uma identidade política clara, o que o leva a falar quase sozinho no Vale do São Francisco, como se o eco regional fosse suficiente para garantir protagonismo estadual.
Apesar da ironia e das críticas, o mesmo grupo reconhece que Miguel Coelho é, sem dúvida, uma liderança importante no sertão do São Francisco.
Segurança pública tem sido a principal área de preocupação dos brasileiros. De acordo com pesquisa divulgada este mês pelo instituto Ipsos, 45% dos brasileiros consideram o crime e a violência os maiores problemas do país, superando a corrupção (36%) e a saúde (34%). Em dezembro, o Instituto Datafolha já havia apontado que a violência mudou a rotina de 72% da população, colocando a segurança pública no topo das preocupações.
Em Pernambuco, a tendência nacional deve ser seguida e a pauta pode gerar fortes debates nas eleições deste ano. A centralidade da matéria é corroborada, ainda, por um relatório apresentado pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-PE), de junho do ano passado, que aponta que 97% dos municípios têm problemas de gestão na área.
A governadora Raquel Lyra (PSD) tem apostado fortemente no discurso contra a criminalidade. Promete nomear até o final deste ano 7 mil novos profissionais. Nas agendas, a chefe do Executivo estadual também tem enfatizado as ações do governo na área, citando os números apresentados e entregando novas viaturas e armamentos às polícias. Já o prefeito do Recife, João Campos (PSB), por outro lado, tem apostado no processo de armar a guarda municipal da cidade, uma das suas promessas de campanha para a reeleição. Pela proposta, os guardas receberão os equipamentos até o fim do primeiro semestre deste ano e terão câmeras corporais nos uniformes.
O professor Marco Tulio Delgobbo Freitas, doutor pela Escola de Comando e Estado Maior do Exército, avalia que a pauta da segurança pública deverá estar no centro do debate eleitoral nacional e, da mesma forma, em Pernambuco. Para ele, a preocupação com o tema está cada vez mais presente no dia a dia da população. “Esse cenário tende a intensificar sua exploração no embate entre governo e oposição”, explicou.
A cientista política Priscila Lapa pontua que a ênfase na segurança pública é um componente natural das disputas estaduais, dado que é uma atribuição constitucional deste ente. Ela relembra que a popularização dos chamados “laranjinhas” (como ficaram conhecidos os novos policiais da Polícia Militar) é também um indicativo de que a segurança pública será um tema bastante explorado.
“A gente observa claramente que, nas últimas eleições em Pernambuco, esse tema também esteve em pauta com talvez um pouco menos de ênfase do que na era Eduardo Campos. Ali foi o ápice do processo de discussão da segurança pública com o Pacto pela Vida. A tendência é que esse tema venha com muita força nas eleições deste ano”, afirma.
Marco Tulio analisa que os dois prováveis candidatos ao governo de Pernambuco, João Campos e Raquel Lyra, devem focar na segurança pública como plataforma de campanha, embora de formas diferentes.
Sinais
O professor pondera que a questão da segurança vai além da análise dos números da segurança pública e passa também sobre a percepção da população sobre o tema na sua rotina. “A percepção de segurança vai além de uma ideia de que basta ter presença policial extensiva, para aumentá-la. Geralmente, isso é resultado da amostra do convívio social do indivíduo. Portanto, a governadora deverá apresentar uma estratégia que, além de melhorar os números da violência, visem, principalmente, aumentar essa sensação de segurança”, analisa.
Outro desafio para a governadora, de acordo com Priscila Lapa, é o enfrentamento dos feminicídios. “O fato dela ser mulher também lhe dá um lugar de fala e dá uma representatividade para falar sobre isso de forma mais sensível.”
Apesar de apostar que o prefeito do Recife deverá apresentar alternativas e fazer críticas à condução do governo na área, Marco Tulio aponta que o provável candidato não deve adotar um tom punitivista. “O discurso de Campos, como candidato de oposição ao governo estadual, deverá combinar crítica à eficácia das políticas atuais com a apresentação de uma agenda alternativa, evitando um tom exclusivamente punitivo”, diz.
A medida da prefeitura de armar a guarda municipal também poderá gerar uma vitrine eleitoral para o possível candidato. Para Priscila Lapa, isso contribuirá para a imagem que João Campos busca transmitir, de gestão moderna. “É antenado com aquilo que a população lhe cobrou em 2024”, enfatiza.
A 83ª edição do prêmio Globo de Ouro acontece neste domingo (11), a partir das 22h, no horário de Brasília, no Beverly Hilton Hotel, em Los Angeles, Estados Unidos.
E, pela primeira vez, a cerimônia será transmitida por uma TV aberta, no caso a Globo, além das transmissões via streaming – TNT e HBO Max. A comediante Nikki Glaser será a anfitriã da noite e, entre as novidades do prêmio, a criação da categoria Melhor Podcast.
O Golden Globes é uma das mais importantes distinções do audiovisual mundial e, em 2026, tem um Brasil inteiro de olho nele: o já premiadíssimo longa-metragem do diretor Kleber Mendonça Filho, “O Agente Secreto”, concorre em três categorias (Melhor Filme de Drama, Melhor FIlme de Língua Estrangeira e Melhor Ator de Drama), fazendo com que os cinéfilos brasileiros não se aguentem de expectativa.
Pudera. Em 2025, saímos vencedores com a atriz Fernanda Torres levando a estatueta de Melhor Atriz de Drama por sua atuação em “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, filme que ainda arrematou o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025. Torres concorria com Kate Winslet, Nicole Kidman, Pamela Anderson, Angelina Jolie e Tilda Swinton.
Indicados
Na categoria Melhor Filme de Drama, o “Agente” disputa a estatueta com “Foi apenas um acidente”, “Pecadores”, “Frankenstein”, “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”, “Valor Sentimental”, enquanto que Wagner Moura concorre com Joel Edgerton (”Sonhos de Trem”), Oscar Isaac (“Frankenstein”), Dwayne Johnson (“Coração de Lutador: The Smashing Machine”), Michael B. Jordan (“Pecadores”) e Jeremy Allen White (“Springsteen: Salve-me do Desconhecido”).
Já em Melhor Filme de Língua Não inglesa, o longa brasileiro concorre com: “Foi Apenas um Acidente” (França, Irã, Luxemburgo), “No Other Choice” (Coreia do Sul), “Valor Sentimental” (Noruega, França, Alemanha, Dinamarca, Suécia, Reino Unido), “Sirât“ (Espanha, França) e “A Voz de Hind Rajab” (Tunísia, França).
O “Agente”
Ambientada no Recife dos anos 1970, a trama do “O Agente Secreto” é sustentada em uma sátira política bem-humorada e conta a história do professor e pesquisador universitário Marcelo (Wagner Moura), que volta para a cidade onde nasceu (a capital pernambucana), durante o Carnaval de 1977 para se reunir com seu filho e se refugiar de uma perseguição política.
Entre as locações que aparecem no filme de Kleber Mendonça Filho, está o parque gráfico da Folha de Pernambuco, que mantém preservada uma máquina rotativa de impressão para representar um jornal dos anos 1970.
O deputado federal Coronel Meira (PL) publicou um vídeo nas redes sociais com duras críticas à governadora Raquel Lyra, a quem chamou de “criminosa” e “genocida” ao comentar mudanças no funcionamento do Hospital da Polícia Militar de Pernambuco. “A governadora conseguiu! O hospital da Polícia Militar está oficialmente encerrado. O diretor, apesar dos bons trabalhos prestados, já foi exonerado e, em documento oficial, foi declarado que a instituição deve funcionar somente em emergência e urgência e de forma temporária. Absurdo!”, afirmou.
Como contraponto, o deputado estadual Joel da Harpa (PL), da base da governadora, disse, por meio de redes sociais, que houve “precipitação” na fala de Meira e negou o fechamento da unidade, destacando que uma portaria que suspendia serviços chegou a ser publicada, mas foi rapidamente tornada sem efeito, sem relação com decisão do Governo do Estado.
Aos nove anos, Simón Bolívar era órfão de pai e mãe. Ambos morreram de tuberculose, a praga daqueles anos na virada do século 18 para o 19. Foi criado por um tio a quem detestava, sempre de olho na herança do menino. Deu muito trabalho aos seus professores. Aos 17 anos foi para a Europa. Chegou à Espanha em 1800, país rico e poderoso, dono de mais da metade da América. Ali, se refinou e conheceu Maria Tereza Del Toro, o grande amor da sua vida. O casal voltou para a Venezuela, com Bolívar disposto a fazer a vida e Caracas. Ele com 18 e ela com 21 anos.
Desembarcaram em julho de 1802, um amor imenso, curto e intenso, interrompido em janeiro de 1803 com Maria Tereza sendo levada pela febre amarela. Viúvo, ele jurou nunca mais se casar. Mas não abriu mão das amantes. Foram várias, entre elas uma condessa francesa e Manuela Saénz, a revolucionária equatoriana, sua maior paixão, baixinha e brava, 10 anos mais nova que ele, conhecida como “a libertadora do Libertador”.
Depois da morte de Maria Tereza, Bolívar foi buscar consolo viajando pela Europa. Chegou à Paris com Napoleão em plena forma, exalando poder pelos portos. Ficou fascinado com o que viu na França. Na Itália, foi ao Vaticano, conheceu o Papa e subiu o Monte Sacro, lugar simbólico da Roma Antiga. Estava com Simón Rodriguez, seu antigo professor. Com a mão erguida, e em tom solene, ele jurou que não daria descanso ao seu braço e nem à sua alma enquanto não libertasse a América do domínio espanhol.
Bolívar julgava ser o Monte Sacro um lugar de revolucionários, quando na realidade foi palco das negociações entre trabalhadores livres e os donos do poder. Ali, reza a lenda, os trabalhadores conseguiram seus primeiros direitos. Não se tratava de uma revolução propriamente, estava mais para negociação sindical do que para tomada de poder. Ao se dar conta do equívoco, alertado por Rodriguez, Bolívar não se fez de rogado: “não importa. O juramento foi feito. Agora a História que se vire”.
E se virou mesmo. Ele voltou para a América e liderou a maior revolução de todos os tempos, libertando o Peru, Equador, Panamá e Venezuela. Claro, Bolívar recebeu uma ajudinha de Napoleão, que havia tomado a Espanha e Portugal em 1808 e nomeado seu irmão José rei dos espanhóis. Isso precipitou a batalha pela independência das colônias espanholas. Em 1812, Bolívar começa sua luta enquanto Napoleão ia terminando a dele melancolicamente. Em 1814, pouco antes de Naopelão ser derrotado por Wellington na Batalha de Waterloo (1815), Bolívar se torna ditador da Venezuela. E, cinco anos depois, passa a comandar a Colômbia, Venezuela, Peru e Bolivia.
Nos próximos nove anos ele será, junto com D. João VI e depois D. Pedro I, um dos homens mais poderosos do Cone Sul. Este Bolívar que inspirou o chavismo e o bolivarianismo tinha o sonho de unificar a América espanhola, mas foram inúmeros seus obstáculos. As guerras de libertação dizimaram boa parte dos homens maiores de 14 anos em condições de trabalhar. O analfabetismo era generalizado, assim como os embates entre as elites políticas e econômicas. Todos querendo se dar bem.
A América, como mostrou Gabriel García Márquez no seu livro “O general em seu labirinto”, era repleta de conflitos regionais, picuinhas e mesquinharias. Difícil fazer sonho virar realidade numa terra tão cheia de contrastes. A História segue seu curso, mesmo que haja um homem forte no timão. A própria vida se encarrega de enfraquecê-lo, como vimos acontecer com tantos, como San Martín, Artigas, Solano Lopez, Fidel, Chávez, Perón ou Vargas. Não há como escapar.
Simon Bolívar teve uma vida dura, repleta de momentos terríveis, batalhas sangrentas de vida e morte — boa parte das vezes mais morte do que vida. Como escreveu Mário Vargas Llosa, “ele havia governado com glória, mas não soube governar a felicidade”.
Os infortúnios sempre são imensos. Na Venezuela de Bolívar, Hugo Chávez perdeu o poder para um câncer na pelve. Seu sucessor Nicolás Maduro perdeu o poder para Donald Trump e seus soldados. Do dia para a noite, literalmente, tudo acabou. Virou um presidiário, — talvez um pouco melhor — como os presos políticos por ele encarcerados no Helicoide, a cadeia do terror em Caracas.
Talvez por saber o quanto a América é difícil de ser domada e ter conhecido profundamente a alma do seu povo, do mais humilde ao mais rico, Simón Bolívar tenha sentenciado que “fazer a revolução aqui é como arar o mar”. Che Guevara experimentou esta máxima, terminando a vida abatido na Bolívia, encurralado numa pedreira, a Quebrada do Yuro, capturado e depois morto pelo exército, as mãos decepadas.
Bolívar deixou o poder doente e fraco, decidido e se exilar na Inglaterra. Em maio de 1830, partiu de Bogotá para Cartagena descendo rio Madalena. Esperava um navio que nunca veio. Transferido para Barranquilla, acabou hóspede de um fazendeiro na Quinta de São Pedro Alexandrino, em Santa Marta, uma das regiões mais lindas da Colômbia, de onde é possível ver picos nevados desde a praia.
Foi ali que Bolívar deu seu último suspiro, consumido pela mesma tuberculose que levara seus pais. Tinha 47 anos, vendera seus bens, já não possuía riqueza. Uma boa alma arrumou a camisa para vestir o defunto, enterrado em 20 de dezembro na Catedral Basílica de Santa Marta.
Tensão entre poderes contamina clima interno na Alepe
Por Larissa Rodrigues – Repórter do blog
O clima entre o Governo do Estado, durante a gestão de Raquel Lyra (PSD), e a Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), presidida por Álvaro Porto (PSDB), ex-aliado de Raquel e desgostoso de como foi tratado pela governadora depois que ela venceu as eleições com a sua ajuda, sempre foi ruim. Não há como negar: é uma administração marcada pelo conflito com o Poder Legislativo.
As reclamações de falta de diálogo do Poder Executivo sempre estiveram presentes nos últimos três anos nos corredores da Alepe, mas a tensão desse período escalou a tal ponto que o ambiente interno, entre uma deputada da base governista e um órgão técnico da Casa, a Procuradoria, também ficou comprometido.
De um lado, a deputada Débora Almeida (PSDB), aliada de Raquel e defensora ferrenha do Governo na Alepe, acusa a Procuradoria de servir aos interesses de Álvaro Porto, emitindo pareceres que embasam o próprio entendimento do presidente sobre as questões tratadas na Casa. Do outro, o repúdio unânime dos procuradores da Alepe às afirmações de Débora Almeida e o incômodo com a forma como a parlamentar tem agido.
Débora se queixa da demora da Procuradoria em responder às solicitações de seu gabinete e diz que não pode haver “usurpação” do trabalho dos deputados pela Procuradoria. O procurador-geral da Assembleia, Hélio Lúcio Dantas, nega a falta de resposta ao gabinete de Débora e diz que as demandas dela têm “tom intimidatório” contra sua equipe, o que ele considera inaceitável e ressalta nunca ter presenciado na Casa em mais de duas décadas de atuação.
A cizânia não é de agora, segundo apurou este blog. O mal-estar vem ocorrendo há mais de um ano, mas se tornou público no último dia 5, quando Débora Almeida encaminhou um ofício circular a todos os gabinetes e superintendências da Casa no qual questiona o ritmo da Procuradoria quanto aos pedidos enviados pelo seu gabinete. (veja aqui)
O ofício gerou uma nota de repúdio assinada pelos nove procuradores da Alepe na qual reforçam valores como autonomia e independência técnica. Além disso, garantem que a Procuradoria permanecerá exercendo suas atribuições “com rigor técnico e responsabilidade institucional, mantendo-se à disposição da Mesa Diretora, dos parlamentares e dos órgãos administrativos — sem ceder a pressões, constrangimentos ou tentativas de intimidação”. (veja aqui)
O episódio exemplificou como a relação desgastada entre os dois poderes, nos últimos três anos, foi capaz de ultrapassar os limites do trato institucional e contaminar a convivência interna na Alepe, algo do qual realmente não se tem relato em governos anteriores e entra para o rol de acontecimentos inusitados da política pernambucana.
Por falar na Procuradoria da Alepe – Em conversa com este blog, ontem (9), o procurador-geral da Assembleia, Hélio Lúcio Dantas, informou que os pareceres solicitados pela Presidência da Casa para dois projetos de lei enviados pelo Governo do Estado, neste período extraordinário em vigor, serão publicados no Diário Oficial de hoje (10). Um dos projetos é a Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026. De acordo com Hélio Lúcio, o parecer é de que a LOA tramite apenas na Comissão de Finanças, porque é uma matéria de natureza orçamentária. Já o projeto relativo ao Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) deve passar pelas Comissões de Justiça, Finanças e Administração, conforme orientação da Procuradoria.
Por falar no período extraordinário – O deputado Waldemar Borges (MDB) criticou a condução administrativa do Governo de Pernambuco, sob a gestão de Raquel Lyra, em novo vídeo nas redes sociais. O parlamentar questionou a urgência e a viabilidade de novos pedidos de empréstimos enviados pelo Executivo à Alepe, que somam bilhões de reais. Segundo Borges, o governo convocou a Casa em caráter extraordinário para autorizar operações de crédito que totalizam R$ 5,2 bilhões, sendo R$ 2,5 bilhões com o Banco do Brasil e R$ 2,7 bilhões com a Caixa Econômica Federal, sob a justificativa de reestruturar a dívida pública do Estado. Essas matérias não passaram pela Procuradoria. Foram direto para as comissões.
O que disse Borges – Para Waldemar Borges, o problema central do Estado não é a falta de autorização para crédito, mas sim a incapacidade da gestão em executar os recursos que já possui em mãos. O deputado relembrou que, desde o início do atual mandato, a Alepe já deu o aval para empréstimos bilionários. “É oportuno a gente lembrar que, desde o começo da gestão, a Assembleia já autorizou empréstimos que, somados, batem o valor de aproximadamente R$ 13 bilhões”, destacou o parlamentar.
Dosimetria – O Congresso Nacional só deve analisar o veto do presidente Lula (PT) ao projeto da dosimetria após o feriado de Carnaval. Os congressistas retornam ao trabalho no dia 2 de fevereiro, mas as primeiras semanas de trabalho ficarão restritas à organização das pautas e ao realinhamento das comissões. O líder do Partido Liberal (PL) na Câmara dos Deputados, deputado Sóstenes Cavalcante (PL), disse à CNN que o movimento “está alinhado desde dezembro” e que “será derrubado com toda certeza”. As informações são da CNN.
União da América do Sul – Presidente nacional do Cidadania, o ex-senador Roberto Freire fez um alerta importante em artigo publicado neste blog, ontem (9). “A América do Sul precisa se unir. Não como retórica diplomática, mas como estratégia concreta de sobrevivência política, econômica e geopolítica diante do avanço de doutrinas imperialistas e da reorganização do poder global. O mundo volta a operar pela lógica das áreas de influência e da imposição de interesses”, defendeu. Para Freire, “nenhuma nação sul-americana, isoladamente, terá força suficiente para enfrentar os desafios da defesa continental, da soberania e da inserção competitiva na economia global”.
CURTAS
Carnaval sustentável 1 – A prefeita de Olinda, Mirella Almeida (PSD), reuniu-se com o secretário de Meio Ambiente de Pernambuco, Daniel Coelho (PSD), ontem (9), para reforçar estratégias e fortalecer a parceria entre o município e o Estado na preparação do Carnaval 2026. O encontro teve como foco a construção de uma festa cada vez mais sustentável, socialmente responsável e integrada ao cuidado com a cidade.
Carnaval sustentável 2 – Durante a reunião entre Mirella e Daniel, foram discutidas ações voltadas à proteção ambiental, à gestão de resíduos, ao ordenamento urbano e à valorização dos catadores, com papel fundamental no período carnavalesco. A proposta é consolidar Olinda como referência nacional em Carnaval sustentável, aliando tradição, inclusão social e preservação do patrimônio natural e cultural.
Flanelinhas – O deputado estadual Joel da Harpa (PL) defendeu maior celeridade na tramitação do Projeto de Lei nº 239/25, em análise na Câmara dos Deputados, que altera o Código Penal para tipificar como crime a extorsão praticada por guardadores informais de veículos em vias públicas, popularmente conhecidos como “flanelinhas”. Com base na proposta federal, o parlamentar pernambucano estuda, junto à sua equipe, caminhos legislativos para enfrentar o problema.
Perguntar não ofende: A oposição vai conseguir derrubar o veto de Lula ao projeto da dosimetria?
Em pouco mais de um mês, a jornalista Malu Gaspar deu uma aula sobre a essência do jornalismo: apurar e publicar fatos, independentemente de agradar ou desagradar quem quer que seja. Pagou um preço alto por isso. Foi alvo de ataques duros, em alguns casos, vis – inclusive por colegas de profissão que hoje atuam à sombra de “mecenas” públicos e privados.
Mesmo assim, deu a volta por cima ao revelar a existência de influenciadores pagos para atacar e desgastar a imagem do Banco Central no caso Master. O paradoxo é evidente: muitos dos que a atacaram passaram, depois, a se apoiar cinicamente nas informações que ela trouxe à tona para defender a própria autoridade monetária.
Ao expor o financiamento dessas campanhas de desinformação, Malu Gaspar contribuiu diretamente para que o Banco Central voltasse a ser defendido até pelo governo, após ter sido abandonado, isolado e lançado aos leões das redes sociais.
Jornalismo é isso. Não é ciência exata, mas é indispensável em um país onde algoritmos das plataformas de Internet passaram a determinar o que a população deve saber ou não. E frequentemente lucram com a desinformação.
A defesa de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, enviou ao Supremo Tribunal Federal (STF) um documento em que nega qualquer participação em práticas de disseminação de desinformação contra o Banco Central após a liquidação da instituição financeira.
No pedido, os advogados solicitam a abertura de uma investigação para apurar a propagação do que classificam como fake news e crimes contra a honra.
Segundo a defesa, a apuração é necessária para demonstrar que Vorcaro não tem relação com ataques virtuais direcionados ao Banco Central, que se intensificaram nas redes sociais em dezembro, depois da decisão da autoridade monetária de decretar a liquidação do Master. As informações são do g1.
Influenciadores relatam propostas para criticar o BC Um criador de conteúdo digital de São Paulo afirmou ao g1, sob condição de anonimato, que recebeu R$ 7,8 mil por uma única postagem com críticas ao Banco Central, publicada em dezembro. Segundo ele, após essa publicação, recusou uma proposta de contrato de três meses para continuar divulgando conteúdos semelhantes.
De acordo com o influenciador, o pagamento foi feito no mesmo dia do post, em 19 de dezembro, e teria partido da conta de Thiago Miranda, dono da Miranda Comunicação, também conhecida como Agência MiThi. Ele diz que apagou o conteúdo dois dias depois por considerar que o material “ultrapassava limites éticos” e afirma ter devolvido o valor recebido.
“Num primeiro momento, agi de boa-fé. Não tinha entendido que vinha de Vorcaro. Achei interessante, diferente do que eu estava pensando”, relatou. “Depois, fui entender que minha opinião estava sendo comprada.”
Contratos previam série de vídeos e ausência de checagem O contrato ao qual o g1 teve acesso previa a produção de oito vídeos por mês, no formato reels, durante três meses. Ao fim do período, com desconto de comissão, o influenciador receberia R$ 188 mil. O documento também estabelecia que o criador de conteúdo não teria obrigação de fazer apuração própria ou checagem adicional, devendo se limitar a comentários informativos em tom neutro.
Procurado, Thiago Miranda não respondeu. A Olivetto Comunicação, citada no contrato como intermediária, informou em nota que apenas indicou influenciadores para eventual produção de vídeos sobre temas em alta, mas que nenhum deles aceitou a proposta e que não houve contratação nem veiculação de conteúdo.
Vereador diz ter sido convidado para campanha contra o BC Na terça-feira (6), o blog da colunista Andréia Sadi revelou o relato do vereador Rony Gabriel (PL-RS), que expôs nas redes sociais um contrato preliminar para participar de uma campanha contra o Banco Central. Nesta sexta-feira (9), em entrevista ao programa Estúdio i, da GloboNews, ele afirmou ter ouvido, durante as negociações, que o contratante da campanha seria Daniel Vorcaro — e disse que recusou o trabalho.
O contrato mencionava um “Projeto DV”, em referência às iniciais do banqueiro, previa cláusula de confidencialidade por cinco anos e estabelecia multa de R$ 800 mil em caso de quebra de sigilo. Rony afirmou que o cachê oferecido era “de milhões, no plural”.
PF vai apurar possível ação coordenada A Federação Brasileira de Bancos identificou, no mesmo período, uma enxurrada de ataques ao Banco Central nas redes sociais. A Polícia Federal deve investigar se houve uma ação coordenada para difundir críticas à autoridade monetária após a liquidação do Banco Master.
Outros influenciadores relataram ao g1 propostas semelhantes, também com contratos de três meses e oito postagens mensais. Alguns afirmam ter recusado o trabalho ao perceberem o objetivo da campanha.
O recente episódio envolvendo a nomeação de um candidato com Transtorno do Espectro Autista (TEA) em Recife — cidade que se orgulha de sua vocação vanguardista — transcende a narrativa política e impõe à sociedade uma reflexão jurídica profunda sobre a efetividade da Lei Brasileira de Inclusão (LBI).
O debate central não deve girar em torno do parentesco do candidato, mas sim da colisão entre o formalismo estrito do edital e o direito material assegurado pela Constituição Federal. No Direito Administrativo contemporâneo, o edital é considerado a “lei do concurso”, mas não habita um vácuo jurídico. Acima dele, repousa o Bloco de Constitucionalidade e a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, da qual o Brasil é signatário.
O ponto de inflexão neste caso é a entrega do laudo médico após o prazo editalício. Para o formalismo cego, o prazo é fatal. Para o Direito Humanizado — e para a jurisprudência consolidada dos tribunais superiores — a deficiência é uma condição pré-existente, e o laudo é meramente declaratório. Negar o direito à cota a quem comprovadamente possui a condição, fato ratificado pela Justiça do Trabalho, seria punir o indivíduo por um diagnóstico tardio. Isso, sim, fere o princípio da isonomia.
Quanto à atuação da Procuradoria Geral do Município (PGM), é preciso desmistificar a divergência de pareceres. A existência de opiniões contrárias entre procuradores de carreira é salutar e faz parte da dialética jurídica cotidiana. Contudo, cabe ao Procurador-Geral, como órgão de cúpula, a palavra final para unificar o entendimento administrativo. Se a PGM optou pela inclusão, alinhando-se à jurisprudência, agiu sob o manto da prevenção de litígios, evitando que o município fosse futuramente condenado por danos morais e exclusão indevida.
Por fim, a anulação do ato pelo Prefeito, com base no Princípio da Autotutela Administrativa (Súmula 473 do STF), demonstra prudência política. Em tempos de polarização, o gestor escolheu o recuo estratégico para conter o eco do senso comum. Mas a base jurídica que sustentou a nomeação original permanece íntegra: o direito à inclusão não é um favor do administrador público, mas uma imposição do Estado Democrático de Direito.
Justiça não se faz apenas com o cumprimento mecânico de cronogramas, cedendo aos ritos burocráticos, mas com a garantia de que barreiras biopsicossociais não impeçam o acesso ao serviço público por aqueles que, por lei, têm o direito de ocupá-lo.