Por Marlos Porto*
O presidente Lula, num evento da Embrapa em Planaltina (DF), na última quarta-feira (23), cometeu um deslize grave. Disse, com toda a pompa de quem acredita estar iluminando o mundo, que enquanto outros querem “fazer guerra”, ele quer “ensinar o povo africano a fazer paz”. Ensinar paz? Quem ele pensa que é?
A frase é reveladora. Não fala em “levar uma mensagem”, em “dialogar”, em “aprender com a sabedoria ancestral”. Não. É ensinar — verbo que carrega assimetria e hierarquia. Pressupõe que o mestre tem o que ensinar. Mas o mestre, neste caso, é um Brasil que mal consegue resolver o drama de suas próprias favelas, em grande parte dominadas por traficantes e milícias, e que, ironicamente, não tem grandes lições de paz para oferecer.
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Olhemos para nossa própria história. Tivemos a Guerra do Paraguai (1864-1870) — conflito brutal que terminou com o massacre de uma nação inteira, sem qualquer negociação de paz. Tivemos Canudos (1896-1897), nossa guerra civil mais grave, imortalizada por Euclides da Cunha, que também foi encerrada pela força das armas, com o arrasamento total do arraial. Não houve acordos, não houve mediação. Houve extermínio. Portanto, o Brasil não está em posição de dar aula de pacificação.
Isso não significa que o Brasil não tenha exemplos positivos, mas Lula, infelizmente, não está aprendendo com eles. Tivemos a grandeza de homens como o Barão do Rio Branco, que resolveu questões de fronteiras com nossos vizinhos de forma pacífica, pela via diplomática. Tivemos, no processo de redemocratização (1979-1985), figuras como Petrônio Portela, Tancredo Neves, Teotônio Vilela, Fernando Lyra e Marco Maciel, e é preciso reconhecer que até mesmo os generais Geisel e Figueiredo, por mais que se desgoste do regime militar que representavam, tiveram a grandeza — ou a inteligência — de buscar a abertura política, de não acirrar os ânimos, de costurar uma transição negociada que evitou um banho de sangue. Isso foi paz construída.
Lula, hoje, faz o oposto. Ridiculariza, estigmatiza, fecha portas para qualquer processo que possa culminar em pacificação genuína, inclusive por meio de anistia ou reconciliação nacional. Ele não olha no espelho. Não aprende com as próprias lições do passado brasileiro.
E, em vez disso, resolveu escolher a África como alvo de sua arrogância professoral. A África, ao contrário do que parece imaginar, sabe fazer paz. Sozinha, sem mediação europeia, sem ONU. Fez e faz. E os três exemplos abaixo são apenas a ponta do iceberg — casos que desmascaram essa retórica subalterna.
O fim do apartheid na África do Sul (década de 1990) não veio de uma invasão estrangeira nem de um acordo imposto por potências brancas. Veio de negociações lideradas por Nelson Mandela e Frederik de Klerk — ambos africanos —, que desmantelaram o regime racista por dentro. A Comissão da Verdade e Reconciliação, inspirada para o mundo inteiro, foi uma invenção sul-africana. Quem ensinou quem?
No Quênia, em 2008, após a explosão de violência pós-eleição que matou mais de mil pessoas, o continente não chamou Hillary Clinton nem o Conselho de Segurança. Chamou um painel de personalidades africanas liderado por Kofi Annan (ganês). Em semanas, um acordo de coalizão foi costurado. Sem tanques, sem tutela. Somente política africana.
Na Etiópia, a guerra no Tigray (2020-2022) matou centenas de milhares. A solução não veio de Genebra ou Washington. Veio da União Africana, com mediação da África do Sul. O Acordo de Pretória, assinado em 2022, foi inteiramente negociado e garantido por africanos. O cessar-fogo se mantém. Ninguém precisou de “aula brasileira”.
A África não é uma tela em branco para o Brasil. É um continente com instituições, pacificadores e sabedoria própria. Quando Lula diz “ensinar”, ele coloca o Brasil numa posição de superioridade que não tem — e que contrasta com sua própria incapacidade de aprender com os exemplos pacificadores da história brasileira, de Rio Branco à abertura política. Antes de tentar ensinar alguém, que cuide das lições não aprendidas em casa.
Observação: elaborado com auxílio do Deepseek IA.
*Analista político
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