Ao confirmar, ontem, sua presença no lançamento do livro “O Estilo Marco Maciel”, de minha autoria, pela CRV Editora, de Curitiba, o ex-ministro Alceni Guerra me enviou este belíssimo artigo sobre o ex-vice-presidente da República, destacado em um dos livros que escreveu. Confira:
* Por Alceni Guerra
O Rotaract do Paraná pediu-me que convidasse Marco Maciel para uma palestra em Pato Branco, e ele aceitou. Eram cerca de duzentos participantes, mas eu acrescentei um almoço para mais duzentos líderes do PFL do Estado, no quintal da empresa Thaisa, perto do aeroporto.
Leia maisOptei por um churrasco típico da região, a costela ao fogo de chão. Fazendeiros amigos nos presentearam a carne e a puseram para assar às cinco horas da manhã, em fogo brando. Nunca descobri se o tempo é longo para amolecer a carne ou se é demorado porque os assadores querem mais tempo para jogar mais baralho o tempo todo.
O clube onde Marco Maciel palestrava ficava a cerca de três quilômetros da empresa, e ao meio dia recebi o aviso que a carne estava passando do ponto. Ainda havia cinco jovens do Rotaract inscritos para perguntas a Marco Maciel. Tomei o microfone, expliquei a situação, propondo que apenas um deles perguntasse, e deixei que eles próprios escolhessem o último questionador.
O rapaz foi inteligente:
– Presidente Marco Maciel, o senhor já foi tudo na vida, sua carreira é notável, então nos dê cinco virtudes, para premiar a todos nós cinco, que um homem público deve ter para chegar onde o senhor chegou?
– Em primeiro lugar quero dizer que ainda não consegui ser vereador, mas ainda chego lá, algum dia.
Marco Maciel, dezenas de vezes Presidente da República nas ausências do Presidente Fernando Henrique Cardoso, de quem era vice-presidente, conseguiu descontrair a plateia com boas risadas.
Depois, continuou:
– A primeira virtude de um bom homem público é a paciência!
E fez um relato da paciência na História, citando vários grandes personagens e suas pacientes lições de vida. Depois voltou às virtudes:
– A segunda virtude de um grande homem público também é a paciência. As outras três vocês podem escolher, mas acho que devem ter a paciência de escolher três vezes a paciência…
Marco Maciel e os jovens do Rotaract só pararam de rir quando se defrontaram com um corredor de cinquenta ou sessenta metros contínuos de costelas frente a frente, com brasas no meio. Marco Antônio de Oliveira Maciel foi irônico:
– Daria para alimentar o Nordeste inteiro. Qual é o tempero que vocês usam?
– É a paciência, Marco, o fogo é aceso às quatro ou cinco horas da manhã. Respondi também rindo.
Terminado o almoço, despediu-se de todos cortesmente, e eu fui levá-lo até o avião. Rindo, falou por diversas vezes da paciência como uma virtude para a resiliência, a capacidade de nunca desistir, de tirar forças dentro de si para superar dificuldades.
Anos depois, concluí meu livro “A Imaginação Como Estratégia”, e pedi a ele que me escrevesse o prefácio. Alguns dias depois, chamou-me à sua casa, em Brasília, e entregou-me duas folhas de papel. Fiz questão de não ler na hora, para significar toda a confiança que tinha nele.
Mas não resisti em lê-lo enquanto minha filha Maria Pia, sua afilhada de batismo, dirigia o carro.
A penúltima frase do prefácio ficou por muito tempo na tela do meu computador, até que o próprio laptop não soube se aproveitar da citação, as máquinas ainda não sabem o valor emocional das palavras de um amigo filósofo, um tutor.
“Alceni é uma pessoa intensa. Uma de suas características mais marcantes é a resiliência, a capacidade de superar situações difíceis. Ele sabe que, embora a resiliência seja íntima e pessoal, não se é resiliente desacompanhado. Por isso, utiliza-se de sua reconhecida habilidade política, do seu carisma para agregar pessoas em torno das causas que defende”.
Situações difíceis são melhor superadas quando se age em bando, pensei como Martim Pescador, olhando para o meu futuro, enquanto mirava uma bicada sensacional, um prefácio do meu ídolo Marco Maciel.
E foi com meu bando que também consegui a apresentação, do senador Cristovam Buarque, para o mesmo livro.
* Alceni Guerra é um médico. Foi ministro da Saúde durante o governo Collor. Pelo Paraná, foi deputado federal por três mandatos e secretário da Casa Civil durante o governo Jaime Lerner, além de prefeito de Pato Branco e secretário de Planejamento da capital Curitiba durante o mandato de Beto Richa. Pelo Distrito Federal, foi também secretário da Educação Integral durante o governo José Arruda.
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