Por Américo Lopes, o Zé da Coruja*
Magno, hoje você abordou um assunto muito caro para os homens e as mulheres deste mundo, mesmo para os mais abjetos, que têm no pai sua maior referência, seja de amor ou temor. Que sorte a sua, meu amigo, seu pai foi uma cascata de luz e amor, que homem extraordinário.
Você me levou, em um feliz dia, a degustar um carneiro feito por ele com amor e humor. Percebi, na hora, naquele momento, que aquele homem não guardava uma mágoa na vida ou de quem quer que fosse. Ele ficou na primeira etapa do homem de Rousseau, que é a que diz que “o homem nasce bom e livre por natureza”, e dessa etapa ele não saiu, não arredou pé.
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Acredito que quem tinha a Winchester na mão, na família, era a senhora sua mãe, Dona Margarida, o grande amor de seu Gastão. Esses generais de guerra, feito ela, são importantes demais para a defesa da família.
Outro momento de feliz lembrança em que estive com o seu pai Gastão Cerquinha foi no seu aniversário de noventa anos, na mítica Macondo, ops, Afogados da Ingazeira.
Fui com a minha amada mãe Maria Euza Góis de Siqueira (Mãe Euza) e minha mulher Mary Alencar Lopes, onde vivemos momentos de pura felicidade e alegrias intensas. Fizemos mesa com o notável empreendedor e poeta das mercadorias Eduardo Monteiro, com os irmãos desembargadores Alberto e Cláudio Virgínio, com o jurista Luiz Piauhylino, com Joezil Barros e João Alberto Martins Sobral, a prima querida Branca Góes e a queridíssima amiga Margareth Padilha, filha da lenda humana Josesito Moura do Amaral Padilha.
Tenho como lembranças mais fortes desse aniversário o fraternal abraço que recebemos de Seu Gastão — ele inverteu os ponteiros do relógio e do tempo, o nome homenageado era ele — o discurso que Eduardo Monteiro fez em nome dos visitantes, com voz firme e solene, honrando seu avô Agamenon Magalhães. Eduardo e o avô Agamenon foram muito aplaudidos.
Há um gesto jamais esquecido e pago que você e Seu Gastão tiveram com a minha amada Mãe Euza, apresentando ela àquelas pessoas presentes que eram somente névoa e lenda na sua memória. Ah, Seu Gastão, ah, Magno, como vos pago em dinheiro da terra?
Meu amado pai, Walfrido Lopes de Siqueira — ou Pai Walfrido —, “encantou-se” cedo, aos quarenta e nove anos, em terras alheias, de saudade do seu inesquecível Pajeú das Flores.
Meu amado pai e sua família foram vítimas do cangaço violento que assolava o sertão, ceifando vidas e esperanças, daí ele ter sabiamente arribado para o sertão do Araripe, nossa segunda pátria. Fomos cinco irmãos, Maria Helena, Marcos Magela, João Alberto, José Américo e Rildo Lopes (in memoriam) e não faltou nem carinho nem justiça desse notável homem para nós. Que pai gigantesco, meus amigos.
Para nós, Pai Walfrido comprou o Tesouro da Juventude, a Enciclopédia Prática Jackson, além de ter assinado durante muitos/poucos anos, até o seu encantamento, o maravilhoso O Cruzeiro, que me ensinou a gostar de misses bonitas, do Amigo da Onça, personagem do cartunista Péricles, e a temer a Guerra Fria no meu coração e mente de matutinho medieval.
Pai Walfrido não queria filho analfabeto, ladrão e sem caráter. O esforço para honrá-lo é gigantesco de todos nós. Até hoje. Fomos marcados por ele no ferro e no fogo, na melhor direção do vento norte, onde há “clarões na noite”, como ensinaram Lennon e McCartney, e viver significa compromisso com o Deus de Israel, com a família, com os amigos leais, com a hora.
“Nosso pai era um homem cumpridor, ordeiro, positivo, e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas”, disse João Guimarães Rosa no conto “A terceira margem do rio”.
Para mim, nosso pai era um semideus, sempre soube disso, aquele homem não era só um ser humano, que privilégio desses filhos. Benção, mamãe. Benção, papai. Meus queridos, meus amores para sempre.
Neste dia especial, presto sincera homenagem ao meu sogro Tutu, que me acolheu como filho em momento difícil e de afirmação de minha vida, além de me presentear com a sua inegociável filha Meirinha. Como esquecer?
Do seu amigo,
Zé da Coruja, do “Pajeú das Flor”, das fazendas Cachoeira Seca e Riacho do Mel, reduto sagrado dos Lopes, de quem sou sangue vivo.
*Diretor operacional da Folha de Pernambuco
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