Por Flávio Chaves*
A madrugada se derrama diante de mim como uma carta sem destinatário, e, nesse gesto líquido e silencioso, há o abandono de quem já não espera resposta, mas ainda assim escreve. É uma extensão em branco onde a alma, cansada de se conter durante a tirania clara do dia, se embriaga de si mesma e se despe sem pudor, confessando tudo aquilo que jamais ousaria dizer sob a vigilância impiedosa da luz.
Não há regras aqui, não há lógica que sustente o mundo, há apenas a verdade mais crua, aquela que sangra em quem amou além da medida justa e já não sabe distinguir se é noite no mundo ou se a escuridão se instalou para sempre dentro de si.
Leia maisE eu me abandono a essa carta sem defesa, sem justificativa, sem a necessidade de parecer inteiro, porque há momentos em que a única dignidade possível é justamente ceder. Ceder ao vazio, ceder à memória, ceder a essa fade adormece sob suas luzes artificiais, postes acesos como olhos fatigados de quem já viu demais, eu desperto em mim mesmo, caminho até o bar como quem volta para casa, porque a boemia é minha religião e o balcão, meu altar. Ali deposito em silêncio tudo aquilo que já não cabe em mim, tudo o que transborda e sufoca, tudo o que insiste em existir mesmo depois dela.
Cada gole de vinho tenta dissolver a ausência dela, mas há ausências que não se afogam; elas aprendem a nadar nas águas turvas da nossa própria resistência. Nadam nos olhos, nos gestos, nas pausas da fala, como se o corpo inteiro fosse apenas um recipiente frágil, onde a memória continua viva, respirando, resistindo, pulsando com uma força que desafia o tempo e a razão.
A radiola gira devagar, toca como quem sabe, como quem conhece o peso de cada silêncio, e eu não escuto a música, sou escutado por ela, sou atravessado por ela, sou desmontado por ela. O garçom não pergunta, apenas serve, porque há dores que não precisam de explicação, apenas de um copo cheio e da certeza de que ali, naquele balcão, podemos ser o que restamos sem medo do julgamento alheio.
O bar é meu território de exílio e, ao mesmo tempo, meu último reino. Sou soberano de um império que já não existe, governante de ruínas afetivas, rei de uma saudade que não tem corte nem súditos. Ela foi embora sem ruído, como quem parte ao fim de um sonho, deixou apenas um perfume na memória e um beijo suspenso no tempo, pairando como uma promessa que nunca será cumprida. Às vezes caminho entre as mesas vazias como se ainda a visse ali, viva, inteira, sorrindo com os olhos, e por um instante, quase acredito. Quase. Mas a quase crença é a mais cruel das ilusões, porque nos mantém à beira do abismo sem nos deixar cair nem nos permitir voar.
Não sei mais se é o dia que nasce lá fora ou se algo dentro de mim insiste em amanhecer contra a minha vontade. A aurora chega como uma invasão, fria, lúcida, implacável, mas eu não abro as portas, não cedo à claridade, prefiro a penumbra da saudade, esse lugar onde ainda posso reconstruí-la, com uma precisão cruel, onde posso desenhar cada traço seu na escuridão, onde posso inventá-la de novo todas as noites para suportar a realidade de tê-la perdido. A madrugada é meu país, a única pátria possível para quem perdeu o território do outro, para quem já não tem onde ancorar o afeto, para quem vagueia sem mapa nem bússola pelo oceano da própria solidão.
E cada noite é uma nova carta que escrevo, sem destino, sem resposta, com o nome dela espalhado em cada silêncio, em cada pausa, em cada respiração que ainda conserva o ritmo dos seus passos. Se um dia ela voltar, encontrará o mundo adormecido e um homem ainda acordado, não esperando redenção, porque redenção é palavra para quem se arrepende, e eu não me arrependo de tê-la amado, mas incapaz de ir embora, porque quem ama de verdade não espera apenas o amor, espera o vestígio, um gesto mínimo, um resto, uma migalha de eternidade que o coração aprende a aceitar como festa. O coração aprende a viver de migalhas de eternidade, aprende a celebrar o pouco como se fosse tudo, aprende a transformar ausência em presença e silêncio em poesia.
O bar esvazia, a radiola se cala, a noite recua lentamente como um animal ferido. Ergo a taça não para celebrar, mas para manter vivo aquilo que ainda resiste, aquilo que ainda pulsa, aquilo que ainda insiste em chamar por ela. Bebo não pelo gosto, bebo pelo rito, pela liturgia da espera, pela cerimônia secreta de quem consagra a própria dor como oferenda.
Porque, no fundo, tudo o que eu queria era que ela se lembrasse, nem que fosse por um segundo, nem que fosse como quem lembra de um sonho antigo, nem que fosse como quem passa os olhos por uma fotografia e sente um aperto no peito antes de seguir adiante.
Olho a porta. Ela não vem. E ainda assim eu fico. Brindo ao que não volta, ao que fomos, ao que mesmo ferido ainda sou. Já não sei se a madrugada termina ou se sou eu que me dissolvo nela, se sou eu que me desfaço como névoa ao primeiro sopro do amanhecer.
Mas, se alguém um dia ler esta carta, que é tudo o que restou de mim, que saiba: eu ainda estou aqui. Sentado. Esperando. Amando. Como quem perdeu quase tudo e ainda assim não aprendeu a ir embora. Como quem fez da espera sua morada e do amor sua única pátria. Como quem sabe que há dores que não se curam, mas se transformam em escrita, em vinho, em noite, em poesia.
*Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras
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