No interior, onde fui criado, banco de praça é uma instituição. Qualquer matuto tem essa firme convicção. Em Triunfo, voltei ao tempo em que era feliz e não sabia em Afogados da Ingazeira. Sentei-me num banquinho e fiquei a contemplar, com os olhos abugalhados, um cenário deslumbrante: casarios coloniais e uma bela obra de arte mais que centenária: o cine-teatro Guarany.
Antônio Maria, grande cronista, poeta e compositor, que saiu do Recife para brilhar no Rio de Janeiro, dizia que o banquinho de praça é um grande lugar, onde o homem pode encontrar-se consigo mesmo para um ajuste de contas. Que nunca seria possível num bar, porque seria preciso ajeitar o laço da gravata, enxugar o suor da testa, sorrir e cumprimentar.
Leia maisUm banco de praça está sempre a espera de alguém, com a sua solidão natural. É receptivo, espaçoso e aconchegante. Na minha terra, meus primeiros amores começaram num banco de praça. Com amigos, as prosas não tinham fim. E haja gargalhadas.
“A gente vai crescendo, vai crescendo, e o tempo passa. E nunca esquece a felicidade que encontrou. Sempre eu vou lembrar do nosso banco lá da praça”, diz a canção “A Praça”, de Carlos Imperial, que não me cansava de ouvir como um hino consagrado a ele, o banquinho da praça. Flores foram feitas para entregar a amada num banquinho de praça.
Um banquinho também abraça a simplicidade. Prove! Sente nele, respire o ar fresco, e observe o movimento ao seu redor. É uma ótima maneira de desacelerar. Foi a um banquinho numa praça em Anápolis (GO) que um viúvo recorreu para um aviso inusitado: “Procuro uma esposa para viver. Sou viúvo e aposentado. [Número de telefone]. Júlio”.
Interessante a estratégia dele para achar um amor. Uns vão para bares, boates. Outros procuram aplicativos de namoro. Ele decidiu usar o banquinho da praça mesmo. Incrível, mas não seria exagero dizer que o banquinho da praça é personagem em si, que ouve segredos, sonhos e confidências sem julgar, acolhendo ricos e pobres.
Guarda as lembranças de momentos passados, paisagens que mudam, e a ausência de amigos ou entes queridos. Observa a rotina da praça, com crianças brincando, casais apaixonados, idosos relembrando, pombos recebendo comida — um palco para a vida em miniatura.
O banquinho é uma consagração universal. Já virou cenário até para um programa de TV: “A Praça é Nossa”, que usa o banco como ponto de partida para histórias, poemas e músicas. Por outro lado, a solidão no banco pode levar a questionamentos sobre a própria vida, o futuro e o sentido das coisas.
A mudança do banco ou da praça, ou a chegada de alguém novo, pode marcar o início de novas histórias e perspectivas. Em resumo, o banco da praça é um arquétipo cultural que representa um ponto de encontro e observação da vida, um lugar onde as histórias acontecem e são guardadas.
Sentado no banquinho em Triunfo fiz uma viagem. Lembrei-me que em um banco, de uma praça plantada no meu coração, deixei lembranças de uma criança. Deixei também um sorriso que um dia estive a ver. Levei comigo sabedoria que um dia ele me ensinou.
Deixei aquela paz, que um dia já tive, onde podia correr e voar sem me preocupar. Em que os sons dos pássaros eram ouvidos, e onde o ar era puro. Deixei minha mãe, que estava a tricotar e a me olhar com olhos brilhantes, onde de tudo me protegia, de tudo me ensinava, e hoje nem lembranças restam, porque no banquinho da praça eu a deixei, para deixar com ela as lágrimas que me seguiam.
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