Apoios e números não decidem eleição
Raquel Lyra (PSD) e João Campos (PSB), protagonistas de uma eleição extremamente polarizada, que promete contagiar corações e mentes, andam pelo interior com botas de sete léguas. Parecem numa olimpíada, na qual quanto maior o exército de aliados, maiores as chances de triunfo.
Mas eleição não se define pelo tamanho do engajamento de prefeitos nem por leituras convencionais. Miguel Arraes (PSB) perdeu para Jarbas Vasconcelos (MDB) em 98 com mais de 100 gestores a tiracolo. Eduardo Campos (PSB) derrotou Mendonça Filho, então no PFL, que detinha o poder da máquina e um grupamento incontável de prefeitos, sem apoios, sem tempo de TV e sem apadrinhamento.
Leia maisOs fatores responsáveis pelo sucesso eleitoral muitas vezes estão longe dos palanques e das ruas. Não se ganha eleição por soma matemática de fatores. A soma resolve a disputa na contabilidade das urnas. Pernambuco é rico em eleições fora do convencional. A própria governadora é o exemplo mais recente desta realidade incontestável.
Pelas pesquisas, nem chegava ao segundo turno em 2022, mas uma fatalidade mudou o rumo da eleição: a morte do seu esposo no dia do pleito. Nunca se viu tamanha comoção! Tanto que inverteu a lógica da eleição: a reprodução da polarização nacional, que no Estado se dava com Marília Arraes (Solidariedade), de um lado, e Anderson Ferreira (PL), de outro.
Em 2014, Armando Monteiro, então no PTB, era franco favorito, mas outra fatalidade frustrou seus planos: a queda do avião que tirou a vida de Eduardo Campos. A comoção fez Paulo Câmara governador. Eleição tem outros pesos e medidas. Muitas vezes, um erro pode ser fatal.
Que o diga Roberto Magalhães. Faltando uma semana para as eleições em 2000, as pesquisas anunciavam sua reeleição para prefeito do Recife com 15 pontos de vantagem. Mas perdeu a cabeça, deu uma “banana” para militantes da oposição numa manifestação em Boa Viagem e perdeu para João Paulo (PT) na disputa em segundo turno.
Na eleição presidencial de 2018, alguém tem dúvida de que a facada elegeu Jair Bolsonaro, então no PSL, legenda nanica? Quanto maior o conhecimento político do eleitor, menor a chance de escolher candidatos apenas por impulso ou influência emocional.
No entanto, a maioria da população ainda tem um baixo nível de sofisticação política, que se move por fatores longe de uma explicação óbvia de uma escolha: competência, capacidade e conhecimento.
RAQUEL, O PAI E AS GESTÕES DO PSB – João Campos já chegou a colocar uma dianteira de mais de 30 pontos sobre Raquel, mas isso muito lá atrás. O tempo vai se encarregando de mostrar a reação natural da governadora, porque, além do poder da máquina, faz uma mídia avassaladora e só agora, no apagar da sua gestão, tenta incutir na população que promove um governo que se contrapõe aos do passado, especialmente do PSB, onde já esteve. Foi secretária de Eduardo e seu pai vice-governador. Se o PSB, como diz Raquel, não deu certo, ela e o pai também são responsáveis por erros e fracassos do passado.

O fator Região Metropolitana – Quando viu que no Interior poderia reverter a imagem desgastada dos dois anos do início desastroso de gestão, a governadora mergulhou nos grotões, passou a aliciar prefeitos e a governar feito Nilo Coelho: de costas para o litoral. Deu resultados? Sim, mas a RMR detém 47% do eleitorado, território do voto independente, hoje mais navegável para João Campos pelo seu perfil urbano e a repercussão da sua gestão bem aprovada no Recife.
Lula pesa ou atrapalha? – Quando saiu na frente na escolha da sua chapa, extremamente esquerdista, com Humberto Costa (PT) e Marília Arraes (PDT), na briga pelo Senado, João deu, aparentemente, um nó em Raquel, deixando-a sem condições de abrir um segundo palanque para o petista pernambucano Lula, na disputa pela reeleição presidencial. Lula voltou a crescer com o envolvimento de Flávio Bolsonaro no escândalo Master e a avaliação do seu governo também melhorou. Numa eleição casada, João pode tirar proveito disso.
Palanque bolsonarista – Dificilmente Raquel vai se livrar do lacro bolsonarista. Mesmo que não assuma um candidato a presidente da República, ficando em cima do muro, como fez na eleição passada, a governadora passará a campanha justificando o alinhamento aos bolsonaristas, como os deputados Mendonça Filho, Pastor Eurico, Fernando Rodolfo e Coronel Meira, além do ex-ministro Gilson Machado Neto, a cara mais nítida e estampada da direita e do bolsonarismo no Estado.

Túlio e Dueire senadores? – Pelas andanças nesta fase pré-eleitoral, a governadora Raquel Lyra (PSD) tem dado sinais de que os dois candidatos ao Senado em sua chapa serão Túlio Gadelha e Fernando Dueire, ambos do PSD, tamanha aparição ao lado deles. Se isso se confirmar, será uma chapa de uma legenda única, o chamado puro sangue PSD. Nem sempre os sinais são vitais, principalmente em se tratando de Raquel, até porque ela tem pela frente o desafio de desatar o nó da federação Progressista, a maior e mais cobiçada desta eleição, presidida no Estado pelo deputado Eduardo da Fonte, já lançado ao Senado pelo seu partido, o PP.
CURTAS
NA FARIA LIMA – Para o ministro Gilmar Mendes, do STF, o escândalo do banco Master está associado de forma indevida à Corte. Em entrevista à Folha de S.Paulo, Gilmar citou falhas de fiscalização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e do Banco Central (BC) e afirmou: “A crise do Master não está na Praça dos Três Poderes, está na Faria Lima”. O caso ganhou repercussão no STF após revelações sobre ligações dos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
FIDELIDADE – A crise provocada pelo caso “Dark Horse” abalou os números eleitorais de Flávio Bolsonaro (PL), mas ainda não foi suficiente para romper a fidelidade de sua base política. Pesquisa Datafolha mostra que 88% dos eleitores do senador defendem que ele permaneça na disputa presidencial, mesmo após as revelações envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro.
PODCAST – No podcast Direto de Brasília de amanhã, parceria deste blog com a Folha de Pernambuco, o pré-candidato do PSD ao Planalto, Ronaldo Caiado, vai falar do escândalo Master, os áudios envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e antecipar suas propostas para o Nordeste. O programa é transmitido para 165 emissoras no Nordeste.
Perguntar não ofende: O pior para Flávio Bolsonaro já passou e sua candidatura será mantida pelo PL?
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