Empreitada golpista de Flávio nos EUA sofre revés já no primeiro dia
Horas depois de desembarcar nos Estados Unidos, ontem, Flávio Bolsonaro (PL) colocou em marcha a estratégia com a qual pretende contestar do exterior a derrota para o presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em carta dirigida aos brasileiros e à comunidade internacional, acusou o adversário de fraude eleitoral sem apresentar provas, descreveu o país como um “regime de exceção”, pediu que governos estrangeiros não “normalizem” a situação e anunciou que comandará dos EUA a oposição ao governo. Foi além: derrotado nas urnas por cerca de 4,4 milhões de votos, apresentou-se como o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”.
O documento começou a mudar quase tão rapidamente quanto circulou. A primeira versão distribuída por aliados trazia um brasão adotado no início da República e mantido até os primeiros anos da ditadura militar, com a inscrição “Estados Unidos do Brazil”. Treze minutos depois, surgiu outro arquivo com as Armas Nacionais e a denominação “República Federativa do Brasil”, já com o nome do país grafado com “s”, mas Flávio continuava apresentado como o verdadeiro presidente eleito. Na versão publicada pelo próprio senador nas redes sociais, a reivindicação da Presidência foi mantida.
Leia maisA carta também buscava respaldo internacional. Flávio agradeceu nominalmente a Donald Trump pelo acolhimento nos Estados Unidos e apresentou sua permanência no país como reação ao que chamou de “perseguição política no Brasil”. Questionado sobre o episódio, porém, o presidente americano confirmou que seu governo havia autorizado a entrada do brasileiro, voltou a classificar a eleição como “muito estranha”, sem apontar qualquer prova de irregularidade, e estabeleceu um limite: “Não vou me envolver”. Disse ainda que não havia conversado com Flávio depois da votação.
Cerca de meia hora depois da declaração de Trump, veio a mudança mais significativa. Flávio apagou a publicação em que reivindicava para si a vitória e divulgou uma nova versão. Deixou de ser o “verdadeiro presidente” e passou a se apresentar como “líder do Brasil”. Outra passagem em que se dizia “presidente eleito” também foi alterada. A acusação de fraude, no entanto, permaneceu.
A contestação se apoia principalmente na prorrogação do horário de votação no segundo turno. Os números oficiais, porém, mostram a dimensão reduzida do episódio: pouco mais de 34 mil votos foram computados depois das 17h, quantidade insuficiente para alterar o resultado da eleição. A própria campanha de Flávio havia solicitado a extensão do horário em algumas localidades. Além disso, Flávio não apresentou boletins de urna divergentes nem qualquer evidência material de adulteração.
Aliados barraram nova ofensiva contra urnas – Antes de deixar o Brasil, Flávio Bolsonaro (PL) chegou a cogitar pedir uma auditoria das urnas, mas foi desaconselhado por aliados e advogados da campanha. Um dos argumentos foi o precedente de 2022, quando o PL acabou multado em R$ 22,9 milhões por litigância de má-fé após contestar o resultado da eleição presidencial sem apresentar provas. A avaliação era de que reeditar a estratégia poderia terminar novamente em derrota judicial e prejuízo para o partido.

Centrão reconhece resultado – MDB, PSD, União Brasil e PSDB reafirmaram, ontem, a legitimidade da vitória de Lula após a divulgação da carta de Flávio. O MDB declarou “total confiança no sistema eleitoral brasileiro”; o União Brasil afirmou que a democracia “não depende de quem vence ou perde uma eleição”; e o PSD reiterou o compromisso com o resultado das urnas. Aécio Neves, presidente do PSDB, classificou a atitude de Flávio como “absolutamente imprópria” e “inacreditável e inaceitável”.
Tarcísio manda respeitar as urnas – Um dos principais aliados de Flávio Bolsonaro, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), também se afastou da contestação eleitoral. Embora tenha dito compreender a “indignação” e a “revolta” do senador, afirmou que a eleição terminou e que cabe agora à direita construir uma oposição forte dentro das instituições. “O caminho é respeitar o resultado das urnas e seguir em frente”, declarou.
Marinho nega fraude – Coordenador da campanha de Flávio, o senador Rogério Marinho (PL-RN) afirmou que não existem provas para sustentar a acusação de fraude feita pelo aliado. “O PL não pode fazer essa afirmação, nem eu posso fazer essa afirmação, porque não há prova nesse sentido”, disse. Marinho atribuiu a primeira versão da carta, em que Flávio se apresentava como “verdadeiro presidente eleito”, a um possível “erro de confecção”. Também afirmou esperar que Donald Trump não interfira nos assuntos internos do Brasil.

“Jumentos”, diz Malafaia – Silas Malafaia reagiu com ataques à ofensiva de Flávio. Em mensagem enviada a aliados, o pastor chamou os filhos de Jair Bolsonaro de “jumentos” e criticou a condução da estratégia lançada nos Estados Unidos. “Esses filhos de Bolsonaro são uns jumentos. Só se aconselham com gente errada! Faz carta, fala bobagem, depois corrige”, escreveu. Malafaia também avaliou que Trump não pretende abraçar a ofensiva: “Deixei ele vir para a América, mas não me meto nessa questão. Um bando de amadores babacas”.
CURTAS
JONES CRITICA RAQUEL POR “BAGUNÇA” NA COMPESA – O deputado federal eleito Jones Manoel (PSOL) fez duras críticas, ontem, ao governo Raquel Lyra (PSD) pela condução da concessão dos serviços da Compesa. Em vídeo publicado nas redes sociais, afirmou que as concessionárias ainda não estariam preparadas para assumir integralmente as operações e citou prorrogações de prazo, fechamento de lojas de atendimento e indefinições sobre a situação dos funcionários. “Tá uma bagunça generalizada”, resumiu. Jones afirmou, ainda, que se opôs ao processo desde o início e cobrou responsabilidade da governadora com o abastecimento de água e o saneamento no Estado.
EMPRÉSTIMO – O empréstimo de R$ 2,2 bilhões pedido pelo Governo Raquel Lyra (PSD) terá como relator na Comissão de Constituição, Legislação e Justiça da Alepe o deputado Diogo Moraes (PSB), líder da oposição à governadora. Sorteado para analisar a matéria, ele pediu vista do projeto, enquanto a base governista espera a apresentação do parecer na próxima semana. Aliado de Raquel, o deputado Antônio Moraes (PSD) minimizou o adiamento. “Como relator, ele queria, naturalmente, entender melhor o projeto. Acredito que na semana que vem Diogo deve apresentar o relatório e que vamos aprovar o projeto”, afirmou.
ISABELLA ROLDÃO DEIXA A VIDA PÚBLICA – A ex-vice-prefeita do Recife Isabella de Roldão (PDT) anunciou, ontem, que deixará a vida pública após 16 anos de atuação política. Vereadora entre 2013 e 2016 e vice-prefeita entre 2021 e 2024, ela afirmou que já havia decidido não disputar novos cargos. “Saio desse ciclo diferente de quando entrei. Mais madura, mais consciente”, declarou. Isabella também anunciou sua saída da Secretaria de Trabalho e Qualificação Profissional do Recife, onde está desde 2025. Hoje será seu último dia à frente da pasta.
Perguntar não ofende: Se até o PL reconheceu o resultado, como Flávio pretende vender a tese de fraude?
















