Virada histórica, feito inédito
A reeleição de Lula (PT), numa virada espetacular, quebrou paradigmas. Nunca um candidato derrotado no primeiro turno havia vencido uma disputa no segundo turno. A vitória tem suas explicações e lógicas. Se antes Lula havia subestimado o adversário, na retomada da campanha não apenas mudou a estratégia, mas foi para cima do adversário com um ímpeto nunca visto.
O povo nas ruas teve um peso fundamental, numa mobilização espontânea e natural, sem estruturas partidárias ou de máquinas públicas. Pelas redes, Lula adotou um tom mais informal, gravando vídeos em formato selfie e falando diretamente com o eleitor.
Leia maisMas a grande guinada nesse quesito foi a entrada do deputado André Janones (Rede-MG) na campanha.
Janones criou o grupo “Exército de Lula” no WhatsApp, que reuniu mais de 10 milhões de pessoas e, com a ajuda delas, aumentou o engajamento da esquerda nas redes sociais e amplificou a campanha pró-Lula.
Movimentos sociais e estudantes organizaram várias mobilizações em dezenas de cidades pelo país. As imagens das ruas tomadas de vermelho ajudaram a dar o tom de uma virada até então inédita no segundo turno. A campanha trouxe a promessa de continuidade das políticas adotadas nos últimos quatro anos ou de aprofundá-las, com mais investimentos ou alcance.
Entre as propostas do plano de governo de Lula, considerando diferentes áreas de gestão, estão o aumento do salário mínimo sempre acima da inflação, investimento em defesa nacional e a criação de um ministério para a Segurança Pública. A ideia do ministério é garantir a participação da União nas políticas de segurança atualmente geridas unicamente pelos estados.
Seu programa de governo falou em criar “a maior rede pública de cuidado ao câncer do mundo”. Para isso, prevê investimentos em diagnóstico e tratamento do câncer com técnicas e equipamentos modernos, bem como a atualização de novos medicamentos quimioterápicos e imunoterápicos.
Na área de educação, Lula prometeu criar novas versões do Programa Pé-de-Meia, como o Pé-de-Meia universitário. O programa Pé-de-Meia foi criado em 2024, em uma versão escolar. Trata-se de um incentivo financeiro-educacional pago pelo governo federal para promover a permanência e a conclusão escolar de pessoas matriculadas no ensino médio público.
Após enfrentar com soberania o “tarifaço” imposto pelo governo de Donald Trump, Lula reafirmou o compromisso em manter relações equânimes, diplomáticas e comerciais com todos os países do mundo, fortalecendo a economia nacional, com base na industrialização, e buscando novos mercados para exportação.
Esta eleição, entretanto, trouxe lições que o governo do Lula 4 vai ter que aprender, não só para governar, mas para garantir uma renovação. Lula não tem mais como se reeleger e agora vai ser obrigado a preparar a sucessão dele e ter que fazer isso à luz desses elementos que vimos na campanha: a importância da campanha de rua e da dominação de redes.
MUDANÇA DE TOM – Lula saiu atrás no primeiro turno de Flávio Bolsonaro, conquistando 45,16% dos votos, ante 47,03% do senador do PL. A diferença foi de 2.224.965 votos, segundo os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O tom da campanha mudou completamente no segundo turno. Quatro anos após o discurso da vitória de 2022, em que exclamou “Tentaram me enterrar vivo, mas eu ressuscitei”, o presidente demonstrou sua capacidade de ressuscitar. No dia seguinte à derrota, enquanto o PT se engalfinhava em busca de culpados, milhares de estudantes da Universidade Federal Fluminense saíram do Campus do Gragoatá e percorreram ruas de Icaraí e do Centro de Niterói para defender Lula. Dias depois, outros milhares de jovens ocuparam a praça da Candelária, no Rio. O movimento se espalhou pelo país. A esquerda, que desde 2013 estava sumida das ruas, ressurgiu num movimento orgânico, sem partido e unida pela rejeição ao bolsonarismo.

Ouvir mais e teimar menos – Em Brasília, Lula defenestrou o que ele mesmo definiu como o comando da “campanha mais desorganizada da história”. O senador Camilo Santana (PT-CE) assumiu a coordenação e o governador do Piauí, Rafael Fonteles reorganizou a comunicação. O deputado André Janones (Rede-MG) abriu espaço a cotoveladas para criar o canal de WhatsApp “Exército do Lula”, que em duas semanas reuniu mais de 10 milhões de membros. Na sua nona e última campanha eleitoral, Lula mudou com a ameaça de encerrar a carreira com uma derrota. Segundo quem convive com ele, passou a ouvir mais e teimar menos.
Erros, enfim, reconhecidos – O Lula que ressuscitou no segundo turno e foi eleito ontem foi obrigado a se atualizar rápido. Após anos de ojeriza às redes, passou a gravar vídeos diários na vertical, em formato de selfie. Até o chapéu que ele insistia em usar, mesmo em entrevistas de estúdio, foi deixado de lado. Conceitos distantes da população, como a soberania nacional e o controle da exploração das terras raras, foram substituídos por temas urgentes como a redução da jornada de trabalho e a renegociação de dívidas. Pela primeira vez em quatro anos, Lula reconheceu que seu governo cometeu erros e que a população tem motivos para estar insatisfeita.
Popularidade em baixa – Apesar da vitória, Lula teve um terceiro mandato com problemas de popularidade. Lideranças petistas avaliam ainda que parte das dificuldades que vieram à tona na campanha são resultados de erros cometidos desde o início do mandato. Em uma opção vista como “arrogante” por uma parcela dos seus aliados, Lula não levou a “frente ampla” formada para a disputa contra Jair Bolsonaro para o centro de sua gestão, apesar da vitória apertada sobre o ex-presidente em 2022.

O exército de Janones – O deputado federal André Janones (Rede-MG) comandou a virada digital na campanha do presidente Luiz Inácio Lula (PT), determinante em sua vitória contra o senador Flávio Bolsonaro (PL), e o próprio Lula reconheceu em discurso na comemoração da vitória. À frente do canal de WhatsApp “Exército do Lula”, ele organizou a atuação da militância a favor do petista na arena on-line, onde passou a disputar espaço contra o bolsonarismo, tradicionalmente com desempenho melhor que a esquerda nesses espaços. Popular nas redes sociais, o parlamentar tem sua trajetória política ligada à mobilização de apoiadores em momentos como a greve dos caminhoneiros, a pandemia e a campanha presidencial de 2022. Criado para concentrar as orientações para atuação on-line da militância pró-Lula, o canal chegou a mais de 10 milhões de seguidores.
CURTAS
RECORDE – Reeleito presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ampliará um recorde que já pertence a ele: o de presidente mais velho a tomar posse na história do Brasil. O petista terá 81 anos quando iniciar seu novo mandato, em 5 de janeiro de 2027. A marca anterior foi estabelecida em 2023, quando Lula retornou ao Palácio do Planalto aos 77 anos, após derrotar Jair Bolsonaro (PL).
SEM ESCOLHA – O Congresso mais conservador em seu quarto mandato é um desafio lembrado por Lula em seu discurso. Mas esse fato foi amenizado pela fala do petista: “Eu não escolho o Congresso, foi o povo que escolheu e é com ele que vou votar, vou trabalhar e vou aprovar as coisas”, disse em sua fala após o resultado final.
RAQUEL – A governadora Raquel Lyra (PSD) parabenizou, em nota, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pela vitória alcançada neste domingo. “Vamos seguir trabalhando junto com o governo federal com muito diálogo, respeito institucional e parceria. Da nossa parte, pode contar com Pernambuco, presidente Lula. Vamos seguir trabalhando, sem parar, para transformar cada compromisso em resultado concreto na vida das pessoas”, disse em nota.
Perguntar não ofende: Lula governa com o Congresso bolsonarista eleito?
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