Quando há um número razoável de votos apurados nesses agrupamentos, é possível estimar que um candidato não poderá mais ser ultrapassado e, portanto, projetar sua vitória.
Com 76,98% das urnas apuradas, o atual presidente tinha 51,17% dos votos válidos no segundo turno da disputa, contra 48,83% do senador pelo PL do Rio, que não pode mais alcançar o petista, segundo o instituto.
A vitória ocorre após uma campanha acirrada, na qual Lula ficou em segundo lugar no primeiro turno contra o filho de seu antecessor e antagonista Jair Bolsonaro, que está preso por tentativa de golpe de Estado após perder o pleito de 2022 para o petista.
O dia da eleição refletiu a tensão, com o Supremo Tribunal Federal adiando de forma inédita a votação em todo o país por duas horas, após queixa da campanha do PT sobre obstáculos à liberação do transporte público em dez estados, inclusive os populosos São Paulo e Bahia.
A confusão teve tintas partidárias. Apesar de o problema ter sido apontado desde cedo, o ministro do Supremo Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral associado ao bolsonarismo, não se mexeu. Coube ao ministro Cristiano Zanin, ex-advogado de Lula, determinar o prolongamento da votação, sendo seguido pelo colega.
É a primeira vez que um candidato conseguiu tal virada no segundo turno desde o primeiro pleito presidencial direto da redemocratização, em 1989. Em 2014, Dilma Rousseff (PT) saiu atrás de Aécio Neves (PSDB) nas pesquisas do segundo turno e venceu, mas ela havia chegado em primeiro na rodada inicial.
Aos 81 anos a serem completados na próxima terça (27), Lula é o mais idoso ocupante do cargo na história. Com o triunfo deste domingo, somou sete disputas à Presidência, tendo ganhado quatro.
O triunfo do petista, que agora vai encarar o que salvo mudanças legais será seu último governo, foi definido nos momentos finais de uma campanha polarizada e uma reviravolta de tática no segundo turno.
A rejeição era a mais notável certeza do brasileiro ao ir às urnas, com cerca de metade do eleitorado dizendo não votar em cada um dos rivais.
Lula passou a campanha de segundo turno em modo mais olímpico, esquecendo que só bateu o então impopular Bolsonaro no segundo turno de 2022 por menos de 2 pontos percentuais.
CAMPANHA ESQUENTOU NO FINAL
Só acordou para o embate nos estertores da corrida, contando com anúncios eleitoreiros como a proibição das bets ou o reajuste do Bolsa Família, além da celeuma em torno de Nossa Senhora, que impulsionaram o voto em segmentos como mulheres periféricas e católicos.
Já Flávio apostou no antipetismo e aproveitou-se da crise na cúpula do Judiciário, primeiro acerca das relações de ministros ligados a Lula com o caso Master, depois com a interferência que levou ao cancelamento do debate da TV Globo antes do primeiro turno.
Vencedor na primeira rodada por 47,03% a 45,16% dos votos válidos, foi a vez de o senador adotar o salto alto. Falou como eleito, viu alianças consolidadas à direita e nomes de seu ministério serem especulados, e sugeriu uma obscura mudança constitucional para “redemocratizar o Brasil”.
O presidente, após uma primeira semana lavando roupa suja com aliados, mudou o comando da campanha e entregou a estratégia digital para o deputado André Janones (Rede-MG), que montou o canal de WhatsApp “Exército do Lula”, que chegou ao pleito com mais de 10 milhões de seguidores.
Flávio tentou bloquear o canal com o auxílio do presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, ministro indicado por seu pai. Houve idas e vindas, mas ao fim o “Exército” operou até o fim.
Em paralelo, o risco da volta de um Bolsonaro ao poder acordou a militância à esquerda e os centristas que em 2022 também haviam votado em Lula. Começando por estudantes, o segundo turno foi coalhado de manifestações enormes e mais orgânicas, sem a tradicional organização de sindicatos, desafiando a primazia da direita nas ruas, que vinha desde dos atos de 2013.
Os rivais ainda se enfrentariam duas vezes ao vivo, algo inédito, nos debates da Band e da Globo. Primeiro encontro foi marcado por grosserias e baixo nível, que se transmutaram em agressividade com mais comedimento no segundo, ocorrido na noite de sexta (23).
Nada indica que Lula terá paz até a subida da rampa do Planalto, em janeiro. Um foco especial de atenção do governo é a administração Donald Trump, presidente americano que tem uma relação ciclotímica com o petista e é próximo do bolsonarismo.
TRUMP E O TEMOR DA INGERÊNCIA
Integrantes do governo passaram o pleito gritando lobo, apontando para indícios de que Trump iria trabalhar em favor de Flávio. Afinal, a eleição de governos populistas de direita nas Américas é um plano declarado do republicano em sua Estratégia de Segurança Nacional.
Na prática, o americano nada fez para apoiar Flávio, deixando a suspeita de ingerência estrangeira na mão da big tech Meta, investigada pelo TSE por tratamento diferenciado a conteúdos de Lula.
Resta saber agora se o pragmatismo na negociação em torno do tarifaço americano contra o Brasil, que seguiu mesmo com a turbulência eleitoral e o trabalho ativo nos EUA contra Lula de Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, será mantido.
Ainda mais importante, o presidente eleito tem agora dois meses para tentar aplainar as grandes tensões políticas e econômicas. Terá certamente o apoio das siglas que já ajudam a sustentar seu governo, como o empoderado PSD de Gilberto Kassab e o MDB, e também de alas do centrão.
Não será tarefa simples, a começar pela bomba-relógio no Judiciário. O pleito indicou claramente a divisão entre ministros lulistas e bolsonaristas.
Parece difícil uma solução simples para o imbróglio, ainda mais com uma bancada à direita robustecida no Senado, Casa onde impeachment de ministros da corte pode ser apresentado.
Na economia, o mau humor do mercado com o caráter gastador de Lula 3 poderá se ampliar se não houver sinalizações de algum tipo de austeridade, algo que passou longe do discurso da campanha —ao contrário.
Diferentemente de 2022, desta vez não haverá a boa vontade no Congresso para passar uma PEC assinando um cheque em branco para o governo de largada.
Em outra frente, ainda há respingos eventuais do caso Lulinha, envolvendo o mais exposto dos cinco filhos desse líder sindical nascido em Garanhuns (PE), algo incerto —na eleição, não houve impacto significativo.
DERROTA ABRE DISPUTA NO BOLSONARISMO
Para o bolsonarismo, a derrota de Flávio vai levar a uma disputa por protagonismo no campo da direita.
Um ano atrás, o senador não era considerado um sucessor natural do pai, que acabara de ir à prisão. Nomes da órbita bolsonarista, como o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), eram vistos como opções que inclusive aglutinariam apoios mais amplos no centro e no centrão.
Com efeito, a unção que o senador recebeu do ex-presidente preso em 5 de dezembro de 2025 foi recebida com ceticismo por líderes até do seu próprio PL. Se o candidato do clã teria de ter o sobrenome de Jair, a ex-primeira-dama Michelle parecia uma figura mais palatável.
O senador fluminense, eleito em 2018, era visto como pesado eleitoralmente devido à coleção de escândalos associados a seu nome —e sua relação próxima com o ex-dono do Master, Daniel Vorcaro, ainda nem havia sido revelada.
Hoje ele é investigado pelas suspeitas acerca do dinheiro que pediu para a cinebiografia “Dark Horse” e pela relação com lavagem de dinheiro com bets. Já havia contra ele acusações de rachadinha nos seus quatro mandatos como deputado estadual no Rio, dúvidas acerca de seu patrimônio e a relação próxima com milicianos.
Sem mandato, Flávio perderá espaço de articulação, e Tarcísio, reeleito no primeiro turno batendo novamente o herdeiro presumido de Lula, Fernando Haddad (PT), está na linha de largada para ocupar o vácuo até 2030.
Por outro lado, o ativo do sobrenome Bolsonaro se mostrou forte, dada a competitividade do senador e o desempenho de candidatos associados ao grupo Brasil afora. O Congresso e os estados têm mais coloração à direita. A polarização que domina a vida política brasileira desde 2018 pode até ganhar nuances, mas seguirá viva.
A vitória também dá um respiro ao PT, que experimentaria uma hecatombe com a eventual derrocada de seu líder histórico. Lula nunca quis sombra, e mesmo Haddad é empregado como mais como um fiel escudeiro do que como um herdeiro de fato.
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