Por Rudolfo Lago – Correio da Manhã
No primeiro turno, o ex-presidente do PT e ex-ministro de várias pastas Ricardo Berzoini fez alertas, inclusive aqui neste Correio Político, de que esta poderia ser a eleição presidencial mais difícil da história para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Disseram que eu era pessimista”, diz agora ele novamente à coluna. Como ressalvara no primeiro turno, Berzoini não estava sendo pessimista, mas “realista”.
Lula chegou ao segundo turno atrás de Flávio Bolsonaro por uma diferença muito pequena, apenas 1,8 ponto percentual. Berzoini agora afirma seguir realista: “Pode dar qualquer coisa neste segundo turno”. Ou seja, no seu novo alerta ao partido que já presidiu e à sua militância, ele considera que é possível, diante do quadro apertadíssimo, virar o resultado. Mas isso terá de implicar uma mudança profunda na estratégia e, especialmente, no comportamento do partido.
Leia maisAdversário real é Jair Bolsonaro
“Acho que estava todo mundo muito devagar no primeiro turno. O resultado fez agora a turma acordar”, avalia Berzoini. Para o ex-presidente do PT, muita gente no partido considerou que seria uma disputa fácil, “um líder de massas contra alguém despreparado”. Na verdade, o adversário nunca foi Flávio Bolsonaro (PL). O adversário era outro líder de massas, Jair Bolsonaro, impedido de competir por estar condenado e preso. Flávio Bolsonaro é o seu representante.
“Quem acha que já está ganho não se esforça”
Diante da avaliação errada, Berzoini avalia que se consolidou uma ideia de que a eleição estaria decidida já no primeiro turno. “Quem acha que a eleição já está ganha, não se esforça”, diz ele. Isso, então, teria gerado uma movimentação menor, mais tímida, uma campanha menos agressiva e assertiva. Berzoini preserva dessa sensação o próprio Lula, que chegou a declarar que achava que venceria no primeiro turno. “Acho que ele falou mais isso para não desanimar a militância. Não creio que alguém com a experiência dele teria tal avaliação”.
Agora, “trabalho de formiguinha”
Para virar o resultado em duas semanas, Berzoini prega o que chama de “trabalho de formiguinha”. Ele disse que, no caso dele, lista agora “pessoas que me ouvem ainda que não sejam petistas e não tenham votado em Lula” para convencer. “Estou vendo aqui minha lista no DF e em São Paulo nesse sentido”. No caso dele, especialmente gente do universo dos bancários.
Banco do Brasil
Berzoini foca o Banco do Brasil. No governo Jair Bolsonaro, o ex-ministro da Fazenda Paulo Guedes chegou a defender a privatização do banco. “Diante desse anúncio de cortes, não irá Flávio Bolsonaro vender o banco?”, provoca, nas conversas com bancários. O Banco do Brasil tem 84 mil funcionários e mais de 100 mil aposentados.
Segmentação
Berzoini lembra o trabalho que Barack Obama fez nos Estados Unidos em 2008. “Ali, foi o primeiro ensaio do uso da internet nas campanhas”, lembra ele. “Era presidente do PT e trouxe à época o idealizador para conversar com o partido”, afirma. Era ainda um tempo de sites e blogs, sem redes sociais. Obama criou um método segmentado de falar.
Furar bolhas
Havia, então, sites para cada grupo de eleitores: “Mulheres com Obama” ou “Aposentados com Obama”. E ali eram apresentadas ideias e propostas para esses segmentos. “Esse tipo de segmentação é que precisa ser feita para furar bolhas”, defende. “Empresas fazem isso. Carros pensados para mulheres, para regiões urbanas, rurais, etc”.
Mapeamento
Na mesma linha, Berzoini sugere um detalhado mapeamento do que aconteceu em cada uma das cidades. Levantamentos com base nos dados até agora mostram que Lula perdeu, por exemplo, votos nas classes médias das cidades pequenas e médias. “Precisa mapear cidade por cidade e tentar entender a razão dessa perda”.
Poder jovem
Berzoini destaca a chegada na campanha de Ana Elisa, a mineira que se elegeu deputada federal pelo PT, e de outros jovens que entendem, como ela, a linguagem das redes sociais. “Ana Elisa é fundamental”, afirma o ex-presidente do PT. “Há muito tempo já dizia que o PT é analógico. De nada hoje adianta só o filme mais lindo na TV”.
Fogo amigo
Berzoini não diz, mas a coluna. Será preciso agora ver se a agregação de Ana Elisa e outros jovens na campanha será sincera. Ela terá que disputar espaço com pseudoentendidos que até então dominavam as redes de Lula e do governo. E há gente muito próxima do presidente e candidato à reeleição que achava que dominava esse campo.
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