Em 2017, enfrentamos a crise conhecida como Carne Fraca, investigação aloprada da Polícia Federal que resultou em bilhões de dólares em prejuízo, superada graças ao empenho e competência do ex-ministro da Agricultura Blairo Maggi, do seu secretário-executivo Eumar Novacki e da equipe de Comunicação do presidente Michel Temer. Desta vez, faltaram Blairo e Novacki.
A investigação liderada por Thomas Bourke, executivo sênior de Políticas de Pecuária, Ovinos e Saúde Animal da IFA, Adam Woods, editor do Irish Farmers Journal e Phil Doyle, fotógrafo do jornal, foi encoberta pelo pretexto de participar do Congresso Mundial de Carne, em outubro do ano passado em Cuiabá (MT). Incógnitos, percorreram 3.000 km interior afora para montar uma acusação que, no mínimo, carece de elementos como número de fazendas e frigoríficos visitados, localização ou nome de produtores, o que torna impossível dizer se essa “investigação” foi feita com metodologia capaz de representar o universo dos exportadores de carne brasileira.
Incrível como esses criminosos, disseminadores de desinformação, puderam circular dias e dias sem serem percebidos ou denunciados. Esses sujeitos da IFA são bandidos que elegeram o Brasil como seu principal alvo. Na época da Carne Fraca, eles ocuparam as redes sociais com posts mentirosos, como o que mostrava um animal com tumor vazando pus, coisas horríveis. São esses mesmos produtores da IFA os que, em 1989, surpreenderam o mundo com a vaca louca. Gente incompetente e desonesta. Vieram aqui produzir a narrativa de que as condições sanitárias brasileiras são as piores possíveis.
Se isso fosse verdade, o Brasil não teria sua carne importada por Estados Unidos e China, países com controle sanitário rigorosíssimo. Eles produziram um panfleto mentiroso sobre a carne brasileira para servir de munição para o lobby contrário ao acordo do Mercosul com a União Europeia. Nada além disso. Acabaram conseguindo a promessa de suspensão da importação da nossa carne em setembro.
A ser verdadeiro tudo o que dizem, haveria gente morrendo nos hospitais brasileiros envenenada pelos produtos químicos que os irlandeses imaginam serem fartamente aplicados no gado brasileiro. Acusam nossos produtores de uso indiscriminado de antibióticos, mas não há qualquer prova ou documento de checagem junto à Anvisa, ao Ministério da Agricultura, à CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) ou aos frigoríficos contra grandes exportadores como JBS, Marfrig ou Minerva.
O projeto de lei 3.560 de 2025, de autoria do deputado Pedro Westphalen (PP-RS), proibindo a venda de antibióticos veterinários sem receita, prática rotineira no interior, foi aprovado na Comissão de Agricultura em novembro de 2025. A Anvisa e o Ministério da Agricultura poderiam ter agido faz tempo. O melhor seria correr com isso.
É uma vergonha que o governo brasileiro e o Itamaraty não tenham denunciado a disseminação de fake news e proposto retaliar a Irlanda. Não é possível imaginar que diplomatas brasileiros em Dublin não soubessem dessa manobra sórdida, muito menos os que servem em Bruxelas, onde o lobby contra o Brasil corre solto. Esquecem que aqui não tivemos, por exemplo, gripe aviária, que dizimou milhões de cabeças na Europa.
É preciso dar um basta nesse tipo de esperteza nefasta. Essa gente produz uma carne de segunda, o europeu médio não acha graça, porque é gado criado no confinamento à base de ração, enquanto o nosso gado engorda no pasto comendo capim.
No panfleto dos irlandeses, o Brasil é acusado de não rastrear seu gado, o que é outra mentira deslavada. Nós temos um sistema de rastreamento que funciona sob auditoria rigorosa do SIF (Sistema de Inspeção Federal) do Ministério da Agricultura e da DG Sante, a agência sanitária da União Europeia. Esses vigaristas vieram aqui atuar nas sombras, com o único e verdadeiro intuito de nos difamar.
O Brasil trata seu agronegócio como uma atividade qualquer, quando deveria olhar para esse setor como sendo uma questão de Estado. Imagine o que aconteceria se um grupo de brasileiros resolvesse fazer algo semelhante com os produtores de suínos da Espanha, os vinicultores da Itália ou da França ou ainda os produtores de azeite em Portugal. Comprariam uma briga feia, com agentes públicos pedindo explicações e diplomacia exigindo retratação, para dizer o mínimo.
Eu morava na Espanha em 2019, quando uma ONG mercenária resolveu denunciar os produtores de azeitonas da Andaluzia. Entre as mentiras que espalharam, uma delas era o extermínio de pássaros migratórios durante a colheita noturna. Exibiram uma foto de passarinhos mortos numa colheitadeira. Pura fake news. A foto tinha sido tirada dois ou três anos antes. O supermercado inglês Tesco, numa jogada oportunista de marketing, se apressou em anunciar a suspensão das vendas do azeite produzido com azeitonas andaluzas. Tudo isso sem qualquer prova concreta, só com base nas redes sociais da tal ONG. Imediatamente o governo espanhol entrou em ação e reverteu o que poderia ter sido uma crise gravíssima, porque essa é, antes de tudo, uma questão de Estado para Madri.
Não é apenas pelos empregos ou o dinheiro oriundo da atividade agrícola, mas principalmente pela reputação do país. O Brasil levou décadas trabalhando para consolidar sua reputação de grande produtor de alimentos de excelente qualidade. Não podemos permitir que três vagabundos irlandeses venham aqui com o único objetivo de nos desqualificar perante o mercado mundial. O Brasil tem um rebanho de 238 milhões de cabeças, enquanto a Irlanda tem 7 milhões, menos de 5%. Será que eles sonham em alimentar o mundo com sua carne limpinha e insossa?
Se deixarmos barato, daqui a pouco vão atacar nossos produtores de açúcar, arroz, soja, milho, algodão, frango ou suínos. Vai virar um inferno, porque qualquer incompetente se sentirá no direito de dar lição de moral ao Brasil. Para esses irlandeses difamadores, deixo a frase do seu compatriota James Joyce, no seu livro “Retrato do artista quando jovem”: “Você sabe o que é a Irlanda? A Irlanda é a velha porca que devora a própria ninhada”.
Leia menos