Quem nunca se debruçou numa janela e instantaneamente teve leves pensamentos, uma reflexão meteórica sobre a vida, que atire a primeira pedra! A janela é um filtro para a alma, como definiu Mário Quintana, na sua genialidade prosaica.
Cronista refinado das montanhas mineiras, Paulo Mendes Campos ganhou o coração dos cariocas, no Rio das suas paixões, quando fez uma declaração de amor do alto de uma janela. “A janela é ponto de partida de amores impossíveis”, atestou, contemplando o Largo da Carioca da sua inseparável janela.
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“Quando eu era menino, nunca olhei pela janela, mas fazia parte da paisagem dum quintal, doce e áspero a um só tempo, com seus mamoeiros bicados pelos passarinhos, as galinhas neuróticas em assembleia permanente, o canto intermitente do tanque e o azul sem morte”, diz um trecho da sua crônica “Janelas”, uma das mais conhecidas. Paulo Mendes Campos nasceu em Belo Horizonte, filho do médico e escritor Mário Mendes Campos.
Criado com nove irmãos em ambiente familiar de poliglotas e anglófonos, foi a mãe Maria José Lima Campos quem despertou nele o gosto pela poesia. Em geral, as pessoas possuidoras de muitos automóveis se recordam de todos eles, do romântico fusquinha ao mais sofisticado BMW. Paulo Mendes Campos foi uma linha fora da curva. Sua paixão era a janela.
“Eu possuí janelas e ajuntei para as lembranças um sortido patrimônio de paisagens”, confessou. Quando se mudava de uma casa para outra no Rio, Paulo Mendes observava logo se havia janelas nos quartos. “Minha primeira providência em casa nova é instalar meus instrumentos de trabalho ao lado duma janela”, escreveu. “A janela também faz parte do equipamento profissional do escritor”, declarou numa entrevista.
Sem janelas, segundo ele, a literatura seria “irremediavelmente hermética, feita de incompressíveis pedaços de vida, lágrimas e risos loucos, fúrias e penas”. Que lindo! Já tive minhas janelas também, mas sem essa paixão alucinada de Paulo Mendes. Fiquei encantado por janelas ouvindo uma canção de Roberto Carlos. “Da janela o horizonte/ A liberdade de uma estrada eu posso ver/ O meu pensamento voa livre em sonhos/ Pra longe de onde estou”.
De uma janela, já presenciei o conviver nem sempre harmônico de famílias, um pouco de brigas, traições, separações, sexo, choros e várias e diferentes formas humanas de se amar e de odiar. A privacidade de uma janela é o esconderijo onde os seres humanos dispõem suas máscaras e revelam suas verdadeiras faces.
É também um lugar de poesia e melancolia, capturando a beleza fugaz do mundo. A janela pode ser o ponto de partida para um amor impossível ou a metáfora de um relacionamento que se vive à distância. Observar o mundo pela janela quebra a monotonia, oferecendo pequenas “fugas” diárias e a percepção de uma vida plena fora das obrigações.
A janela é também um palco onde se assiste à vida dos outros (vizinhos, rua) sem participar, gerando reflexões sobre intimidade, solidão e a natureza humana. Numa crônica, Rubem Braga disse que a janela aberta ou fechada simboliza a receptividade, a consciência, a memória e os sentimentos, sendo um convite à contemplação e aos devaneios.
Crônicas sobre janelas exploram o olhar para o mundo, a reflexão, a intimidade, a passagem do tempo e a vida cotidiana. Da janela, nasce a moldura para a existência observando a rua, a natureza, a si mesmo ou o vizinho.
O ordinário se transforma em poesia, metáforas de abertura, saudade ou desejo. Escrever de uma janela é um convite à desaceleração e à experiência consciente da vida. A janela é o limite entre o interior e o exterior, o conhecido e o desconhecido, a rotina e o sonho.
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