A partir de hoje, sempre aos sábados, este blog traz mais uma inovação além do seu território natural, o da política: a temática das mudanças climáticas.
Trata-se de um fenômeno que a humanidade assiste, atônita, ante o despreparo dos gestores públicos, da falta de planejamento e de projetos de prevenção contra as cheias, as secas e outros fenômenos, como o El Niño, aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, que altera a circulação dos ventos e modifica os padrões de chuva e temperatura global.
Especialista no assunto, o engenheiro Gastão Cerquinha Neto, pernambucano, atuando hoje no Cemaden — Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais — em São José dos Campos, em São Paulo, aceitou o convite para colaborar com o blog na área. Eis a sua coluna de estreia abaixo.
Água, cidade e futuro

Por Gastão Cerquinha Neto*
Leia maisO que é uma cidade resiliente às mudanças climáticas? As cidades enfrentam diversos problemas que afetam diretamente a qualidade de vida da população e a forma como o espaço urbano é ocupado.
Inundações, enxurradas, alagamentos, deslizamentos de encostas, congestionamentos, poluição do ar, sonora e visual, além de deficiências no abastecimento de água e no tratamento de esgoto, fazem parte dos desafios cotidianos dos centros urbanos.
Diante desse cenário, é fundamental que as cidades estejam preparadas para enfrentar situações críticas, planejando antecipadamente ações de prevenção, resposta e recuperação. Em outras palavras, uma cidade resiliente é aquela capaz de se preparar para eventos adversos, minimizar seus impactos e agir de forma eficiente quando esses problemas ocorrem ou se intensificam.
Trânsito urbano
Para entender esse conceito, podemos utilizar um exemplo simples relacionado ao trânsito urbano. Imagine que uma cidade irá receber um grande show e que, por isso, algumas ruas e avenidas precisarão ser interditadas. Para que esse evento ocorra sem comprometer o funcionamento da cidade, é necessário reorganizar o sistema viário.
Algumas vias passam a operar em sentido único ou reversível, outras ficam restritas ao acesso de moradores, novas sinalizações são instaladas e a população é informada com antecedência, por meio da imprensa e de campanhas de orientação. O objetivo é garantir que atividades essenciais, como o acesso a hospitais, escolas, comércios e serviços, continuem funcionando normalmente durante o evento.
Quanto melhor estruturada for a malha viária, mais fácil será realizar essa adaptação e menor será o impacto para a população. Por outro lado, quando a infraestrutura já apresenta limitações, seja pelo excesso de veículos, pela falta de manutenção ou pela escassez de rotas alternativas, a capacidade de resposta da cidade diminui.
Bom planejamento
Como consequência, aumentam os congestionamentos, o tempo de deslocamento e os transtornos para quem depende da mobilidade urbana. Traduzindo: cidades bem planejadas e preparadas conseguem se adaptar com mais facilidade a situações fora da rotina, mantendo seus serviços e atividades funcionando mesmo diante de alterações temporárias.
O mesmo princípio se aplica às mudanças climáticas. Assim como uma cidade precisa se reorganizar para receber um grande evento, ela também deve estar preparada para enfrentar os impactos provocados por chuvas intensas, enchentes, enxurradas, deslizamentos, ondas de calor e períodos prolongados de seca.
Esses eventos tendem a se tornar mais frequentes e intensos, exigindo planejamento antecipado, investimentos em infraestrutura e ações coordenadas entre o poder público e a sociedade. Quanto maior a capacidade de adaptação da cidade, menores serão os prejuízos causados pelos eventos climáticos extremos e mais rápida será sua recuperação.
Efeitos danosos da chuva
Desastres relacionados às chuvas, além de causarem grandes prejuízos econômicos, colocam vidas em risco. Em 2026, cerca de 14 mil pessoas foram afetadas pelas chuvas em Minas Gerais, com 70 mortes em Juiz de Fora e Ubá. Em 2024, o Rio Grande do Sul enfrentou o maior desastre climático do país, com 475 municípios inundados, 183 mortes e mais de 500 mil desabrigados.
No mesmo ano, a seca na Amazônia isolou comunidades e comprometeu o acesso à saúde, alimentação e educação, afetando cerca de 60% dos municípios da região. Em 2023, deslizamentos em São Sebastião (SP) deixaram 65 mortos e, em 2022, a Região Metropolitana do Recife registrou 133 mortes no maior desastre socioambiental do século XXI em Pernambuco.
Esses episódios somam-se a outros eventos marcantes, como os desastres da Região Serrana do Rio de Janeiro (2011) e de Petrópolis (2022), evidenciando a crescente frequência e intensidade dos eventos climáticos extremos no Brasil.
A reversão
Reverter esse cenário e tornar as cidades mais resilientes às mudanças climáticas exige combinar obras de engenharia tradicionais, como canais, galerias de drenagem, diques e reservatórios, com soluções baseadas na natureza, como parques, áreas verdes, margens de rios preservadas, manguezais e jardins de chuva.
Em vez de depender de uma única solução, a cidade deve contar com diferentes formas de proteção que trabalhem em conjunto para reduzir os impactos de eventos extremos, como chuvas intensas e ondas de calor. Além de aumentar a proteção contra desastres, essa integração traz benefícios para o dia a dia da população, como melhoria da qualidade ambiental, redução do calor e criação de espaços de lazer.
Resiliência das cidades
Fortalecer a resiliência das cidades às mudanças climáticas também depende do envolvimento ativo da população. A implementação de soluções deve ser acompanhada por ações de educação ambiental e conscientização, para que as comunidades compreendam seus benefícios e participem da criação, manutenção e conservação desses espaços.
Além disso, a participação da sociedade, integrada à atuação do poder público, de organizações e de diferentes setores da administração, fortalece a governança, promove o senso de pertencimento e aumenta as chances de sucesso e continuidade dessas iniciativas, especialmente em áreas urbanas mais vulneráveis.
*Engenheiro civil, doutor em Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atua há mais de dez anos com hidrologia, hidrodinâmica e gestão de riscos de desastres, desenvolvendo estudos sobre drenagem urbana, inundações, segurança de barragens e adaptação às mudanças climáticas. Atualmente, é tecnologista do Cemaden (MCTI) em São José dos Campos (SP).
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