Por Áureo Cisneiros*
Vivemos a era da informação. Nunca foi tão fácil acessar dados, comparar versões e verificar fatos. Ainda assim, a mentira continua encontrando espaço na política brasileira. A pergunta é inevitável: por quê?
Porque a mentira, muitas vezes, é mais simples, mais emocional e mais conveniente do que a verdade. Enquanto a verdade exige contexto, provas e reflexão, a mentira oferece respostas fáceis para problemas complexos, desperta emoções e alimenta expectativas que nem sempre podem ser cumpridas.
Leia maisA polarização agravou esse cenário. Muitos deixaram de analisar ideias para defender grupos políticos. Quando a identidade partidária passa a valer mais do que os fatos, a mentira deixa de ser condenada e passa a ser tolerada, desde que favoreça “o nosso lado”. Nesse ambiente, a verdade perde espaço para narrativas construídas para convencer, e não para esclarecer.
As redes sociais potencializaram esse fenômeno. Algoritmos favorecem conteúdos que geram indignação, medo ou entusiasmo. Uma informação falsa, quando bem elaborada, costuma alcançar milhões de pessoas em poucas horas. A correção, quase sempre baseada em fatos e evidências, chega depois e com muito menos alcance.
Mas seria um erro atribuir toda a responsabilidade apenas aos políticos. Eles também respondem aos incentivos da sociedade. Se a mentira rende votos, engajamento e apoio, ela continuará sendo utilizada. Em uma democracia, os representantes refletem, em alguma medida, os valores e as escolhas da população.
O resultado está diante dos nossos olhos: promessas que nunca saem do papel, corrupção recorrente, descrédito nas instituições, debates cada vez mais pobres e uma população dividida enquanto problemas históricos – como a violência, a precariedade da saúde, a baixa qualidade da educação e a desigualdade – permanecem sem soluções efetivas.
O Brasil não precisa de líderes perfeitos. Precisa de líderes comprometidos com a verdade, a transparência e a responsabilidade. E precisa, sobretudo, de cidadãos dispostos a questionar, verificar informações e cobrar coerência, independentemente de preferências ideológicas.
A grande questão não é porque alguns políticos mentem. A verdadeira pergunta é: por que continuamos premiando a mentira?
Enquanto a resposta continuar sendo dada nas urnas e nas redes sociais por meio da desinformação, do fanatismo e da conveniência, a verdade seguirá travando uma batalha desigual.
Quando a sociedade decidir premiar a honestidade, a competência e a integridade, a política brasileira também começará a mudar.
*Presidente do Sinpol-PE e defensor da Segurança Pública como direito fundamental
Leia menos














