Por Zé Américo Silva*
No interior do Nordeste existe uma expressão que resume o destino de quem foi atingido por um golpe do qual dificilmente escapará: jacu baleado. O bicho ainda voa, ainda bate as asas, ainda tenta convencer os outros de que está bem. Mas todos sabem que é apenas uma questão de tempo até cair.
A política brasileira acaba de ganhar sua própria revoada de jacus baleados.
O primeiro deles foi o ex-governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha. Na quarta-feira (8), anunciou sua despedida definitiva da vida política justamente quando o escândalo envolvendo a tentativa de compra do Banco Master pelo BRB alcançava seu momento de maior desgaste. A coincidência talvez seja apenas cronológica. Politicamente, porém, ela dificilmente poderia ser mais simbólica.
Leia maisIbaneis deixa como legado uma cidade cheia de viadutos, túneis e elevados. Obras vistosas, sem dúvida. Mas Brasília continua enfrentando um transporte coletivo incapaz de atender à população com eficiência. Não houve expansão do metrô, não saiu do papel um único quilômetro de VLT e o automóvel continuou sendo o verdadeiro protagonista da mobilidade urbana. Enquanto isso, a saúde pública permaneceu marcada por filas, dificuldades de atendimento e problemas estruturais. A educação também ficou distante das prioridades, convivendo com reclamações de servidores sobre valorização profissional e investimentos insuficientes. No fim das contas, um governo que apostou na imagem do concreto poderá entrar para a história pelo desgaste provocado justamente na administração do principal patrimônio financeiro do Distrito Federal. Mas seria ingenuidade imaginar que Ibaneis esteja sozinho.
O Banco Master parece ter conseguido um feito raro na política nacional: unir personagens de praticamente todos os espectros ideológicos sob a mesma nuvem de suspeitas.
No Progressistas, o senador Ciro Nogueira passou a ser investigado em razão de sua proximidade com Daniel Vorcaro. A Polícia Federal busca esclarecer se essa relação foi utilizada para abrir portas institucionais e favorecer interesses do banco junto a agentes públicos. O senador nega qualquer irregularidade e afirma jamais ter praticado ato ilícito.
No PL, o senador Flávio Bolsonaro também entrou no radar das investigações. As apurações procuram esclarecer a natureza de sua relação com Vorcaro, incluindo negociações para obtenção de recursos destinados à produção de um filme sobre Jair Bolsonaro e eventual utilização de influência política em favor do empresário. Flávio sustenta que manteve apenas relações privadas e rejeita qualquer prática ilegal.
Nem o governo do presidente Lula escapou dessa tempestade. O senador Jaques Wagner, uma das principais lideranças do PT no Congresso, passou a ser investigado por suspeitas de recebimento de vantagens indevidas e eventual atuação em temas de interesse do Banco Master. O parlamentar nega todas as acusações e afirma confiar que sua inocência será demonstrada.
O aspecto mais curioso desse episódio é que ele desmonta um velho discurso da política brasileira: o de que a corrupção tem ideologia. Não tem. Quando interesses financeiros de grande porte entram em cena, direita, esquerda e centro frequentemente passam a dividir o mesmo ambiente, ainda que continuem brigando nos palanques.
O Banco Master talvez tenha produzido algo ainda mais revelador do que um escândalo financeiro. Expôs a facilidade com que parte da elite política brasileira circula pelos mesmos corredores, frequenta os mesmos gabinetes e cultiva as mesmas relações, independentemente da cor da bandeira que exibe em período eleitoral.
É por isso que a metáfora do jacu baleado se encaixa tão bem. Os primeiros já foram atingidos. Alguns ainda caminham como se nada tivesse acontecido. Outros tentam transformar suspeitas em perseguição política ou apostam que a memória do eleitor continuará curta. Mas a história mostra que grandes escândalos nunca escolhem apenas uma vítima.
Quando a fumaça baixar e todas as investigações forem concluídas, talvez o Brasil descubra que aqueles que hoje ainda parecem voar apenas estavam demorando um pouco mais para cair.
*Jornalista e consultor político
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