O tempo, temática da crônica deste domingo, é o senhor da razão, aprendi com meus sábios pais, que Deus já levou cada um no seu tempo, primeiro minha flor Margarida, depois Gastão, meu conselheiro, amigo e companheiro de todas as horas, quase dez anos depois. Aceitei e compreendi ainda mais o tempo da vida.
Na Bíblia já havia aprendido que há tempo para tudo. A palavra de Deus nos diz no livro de Eclesiastes que há um tempo para cada coisa debaixo do sol: tempo de plantar, de colher, de nascer, de viver e de morrer.
Leia maisLi muito ainda sobre o tempo devorando os clássicos da literatura do movimento modernista à luz de candeeiro em Afogados da Ingazeira, minha terra natal. Lá, garoto de pés descalços, a luz elétrica de um velho motor a querosene nos enfiava no mundo das trevas por volta das 22 horas. O companheiro para iluminar meus olhos que comiam livros era o candeeiro, muitas vezes um lampião e até velas que hoje romantizam os encontros de enamorados em restaurantes chiques.
O passar dos anos nunca me fez infeliz, porque aprendi que o tempo envelhece o corpo, mas não envelhece a emoção de viver em toda plenitude cada momento. Dentre os clássicos, nunca esqueci Machado de Assis: “O tempo é um rato roedor das coisas, que as diminui ou altera no sentido de lhes dar outro aspecto”.
Cada segundo é tempo para mudar tudo para sempre, aprendi depois com o eterno Charles Chaplin. Mas foi a Mário Quintana que recorri também para compreender a velocidade do tempo, o ir e vir, as mutações da lua e do sol.
“O mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede: conheço um que já devorou três gerações da minha família”, escreveu ele. Quintana foi um dos principais expoentes da segunda geração do modernismo brasileiro. Conhecido como “o poeta das coisas simples”, sua obra é marcada pela linguagem simples e pela abordagem de temas cotidianos e contemplativos.
Ele dizia que o tempo é a moeda da vida. “É a única moeda que você tem e só você pode determinar como ela será gasta”, escreveu. Com ele, se aprende também que não se deve esconder nada, porque o tempo vê, escuta e revela tudo. O tempo é o que vivemos aqui e agora. Ele prova que a vida é uma jornada, com começo, meio e fim. É de Victor Hugo, romancista francês, a maior de todas as lições do tempo: não só cura, mas também reconcilia.
Em muitas crônicas, cito Cora Coralina, porque ela era maravilhosa, curta e dura: “Todos estamos matriculados na escola da vida, onde o mestre é o tempo”. Que lindo! É dela também o ensinamento de que o tempo de Deus é diferente do nosso e que temos que aprender a esperar. Para ela, o tempo não para nem volta atrás justamente para que sempre sigamos em frente.
Muitas vezes, a ansiedade dos novos tempos do mundo globalizado nos faz atropelar a hora certa para tudo na vida, mas convenhamos: o tempo consegue colocar tudo no devido lugar. Cada experiência age em silêncio e deixa ensinamentos valiosos para a vida.
O tempo ensina ainda que é preciso seguir, amadurecer e se fortalecer. Meu pai, com aquele ar de sabedoria sertaneja, me ensinou a gastar o tempo com sabedoria, a valorizar os momentos, dos mais simples aos mais especiais, buscando um propósito em tudo o que se faz, porque, dizia ele, o tempo é implacável, nunca volta.
Vista pelos jovens, a vida é um futuro infinitamente longo; vista pelos mais maduros, cabelos embranqueados, um passado muito breve. Mas papai tinha razão: o tempo é o conselheiro mais sábio de todos.
Rubem Alves, meu cronista que amolece meu coração e ao mesmo tempo enxuga minhas lágrimas, também escreveu muito sobre o tempo como um recurso escasso e precioso, defendendo a necessidade de priorizar o essencial e desfrutar o presente. Em suas frases, ele sugere aprender a “abrir mão” e valorizar o tempo, evitando a pressa e focando no que realmente importa.
Certa vez, ele se perguntou: “Resta quanto tempo?” E ele mesmo respondeu: “Não sei. O relógio da vida não tem ponteiros”. Suas reflexões frequentemente abordam a necessidade de viver com mais presença e menos pressa, valorizando a essência em detrimento da quantidade de tempo.
“O prazer demanda tempo. A vida serve para gastar tempo”. Eis a grande lição de Rubem Alves.
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