Por Cláudio Soares*
O ambiente político de Pernambuco começa a expor fissuras relevantes dentro do campo governista, especialmente na relação entre João Campos e o PT estadual. Nos bastidores do Agreste e do Sertão do Pajeú, cresce a avaliação de que o senador Humberto Costa pode não marchar ao lado do socialista em 2026, uma hipótese que, até pouco tempo, parecia improvável.
Lideranças já tratam o distanciamento como algo concreto. Prefeitos da região, inclusive aliados do grupo político de Caruaru, relatam que a relação entre Humberto e o PSB vem se desgastando de forma contínua. Mais do que um ruído pontual, o que se desenha é a possibilidade real de o senador rever sua própria candidatura à reeleição, abrindo espaço para uma reconfiguração mais ampla, que pode, inclusive, envolver aproximação com a governadora Raquel Lyra.
Leia maisO movimento ganha densidade quando se observa o comportamento do PT no interior. Em Tabira, o prefeito petista, aliado direto do deputado federal Carlos Veras, desde o início do seu mandato demonstra alinhamento com o governo estadual, evidenciando que o partido está longe de atuar de forma homogênea em Pernambuco.
E o ruído não se restringe ao PT. Há relatos de que outro prefeito do Pajeú, fora da sigla e próximo ao prefeito de Caruaru, tem afirmado, ainda que de forma reservada –, que Humberto Costa não estará no palanque de João Campos em 2026. A leitura, mesmo informal, reforça a percepção de que o afastamento deixou de ser especulação e passou a integrar o radar político das lideranças regionais.
A origem desse desgaste remonta a 2024. À época, Humberto articulou para emplacar Carlos Veras como vice na chapa de João Campos no Recife. A estratégia era clara, com uma eventual saída de João para disputar o Governo do Estado, o PT assumiria o comando da capital. A proposta, no entanto, foi descartada.
Ao optar por um nome de confiança pessoal, João Campos sinalizou autonomia, gesto que, dentro do PT, foi interpretado como desprestígio político. O resultado foi o aprofundamento da insatisfação em setores do partido, especialmente entre Humberto Costa e Carlos Veras, que acabaram excluídos da composição.
Paralelamente, um movimento fora do eixo tradicional adiciona complexidade ao quadro, o prefeito de Caruaru, Rodrigo Pinheiro, herdeiro e aliado político do grupo de Raquel Lyra, já declarou apoio a Humberto Costa. O gesto revela que, na prática, as fronteiras entre governo e oposição estão cada vez mais flexíveis, guiadas menos por ideologia e mais por estratégia.
Nos bastidores petistas, não há decisão fechada. Humberto Costa e seu grupo devem aguardar as próximas pesquisas eleitorais antes de qualquer movimento definitivo. A lógica é pragmática: o desempenho nas sondagens será determinante para definir manutenção de alianças, reposicionamento ou até mudança de palanque.
O que se observa, portanto, é um processo de desalinhamento progressivo, no qual alianças históricas deixam de ser automáticas e passam a obedecer a cálculos frios. Dependendo da evolução desse movimento, Pernambuco pode assistir, em 2026, a uma profunda reorganização política, com impactos diretos na disputa pelo governo e nas vagas ao Senado.
No fim, a dúvida que paira nos bastidores não é apenas sobre o rompimento, mas sobre sua motivação, estratégia eleitoral da executiva nacional, ou acerto de contas político do PT de Pernambuco?
*Advogado criminalista e jornalista
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