Por Joel de Hollanda*
Cine Bandeirante, foste presença constante nos dourados dias de minha infância.
Tínhamos quatorze, quinze anos.
Vivíamos eterna primavera.
Éramos alegres, risonhos.
Sonhadores.
Sonhávamos todos os sonhos que cintilavam na tua mágica tela.
Leia maisTeu alcoviteiro escurinho era abrigo cúmplice de ternuras e segredos.
Aconchegante ninho de casais enamorados.
Foste testemunha discreta de corações disparados.
Do primeiro toque de tímidas mãos.
De rostos coladinhos na penumbra…
E do primeiro beijo roubado (com direito ao sabor de hortelã do chiclete recém-mascado).
Cine Bandeirante.
Doces instantes.
Fortes emoções.
Belas recordações que a memória teima em guardar.
Lembro-me dos casais agarradinhos.
Do estalar do amendoim torradinho.
Do cheiro bom da pipoca quentinha.
E do sabor inesquecível do chocolate Sonho de Valsa dado à namorada, e que ela, com delicadeza, repartia conosco.
Apressados para experimentar novos sentimentos e viver inocentes fantasias, sorvíamos todas as emoções que Hollywood fabricava: comédias, dramas, faroestes, aventuras e, sobretudo, romances.
Éramos ingênuos, puros, e assumíamos, com entusiasmo juvenil, todos os papéis dos atores na branca tela: o de galã apaixonado, o de mocinho valente, o de herói justiceiro.
Detestávamos os filmes “cantados” ou que tinham “cantoria” — aqueles em que o artista interrompia a história para entoar longas canções que nossa impaciência recusava escutar.
Mas adorávamos os seriados.
Principalmente o instante decisivo do “perigo da série” — quando a vida da “mocinha” ficava por um fio nas mãos de cruel vilão e dependia da coragem e destreza do “mocinho” para se salvar.
O angustiante suspense ficava suspenso no ar até a semana seguinte, quando o novo episódio da série mostrava o desfecho tão aguardado.
Ao acender as luzes, saíamos do cinema com os olhos ardendo, o coração ainda cheio de emoções e a mente encharcada de sonhos.
E, além da saudade, levávamos nas mãos o delicado aroma do perfume da namorada, a nos servir de silenciosa companhia pelo resto da noite.
Cine Bandeirante, em que canto distante estarão agora largados os quadros com as fotografias das belas atrizes — verdadeiras deusas de nossa juventude e que foram nosso primeiro alumbramento?
Belos rostos que marcaram nossos devaneios e despertavam todos os nossos hormônios juvenis: Ava Gardner, Kim Novak, Elizabeth Taylor, Claudia Cardinale, Sophia Loren…
Onde estará agora o sisudo Seu Otacílio Moraes que, por conhecer nossos pais, sempre nos “barrava” toda vez que tentávamos assistir a filmes “impróprios para menores de 18 anos”?
E por onde andará o malvado lanterninha, com sua indiscreta lanterna, que tantas vezes assustara os casais abraçados na penumbra ou enlaçados em beijos apaixonados?
Por onde andarão meus queridos amigos de infância — Ruyzinho, Humberto, Paulo, Rominho, Hermes — fiéis companheiros nas tuas barulhentas sessões de matinê?
(E que vaiavam, revoltados, o pobre do operador do velho projetor toda vez que a fita se partia e interrompia o momento mais emocionante do filme.)
Cine Bandeirante…
Por um instante, volto à Praça da Bandeira.
Vazia está a calçada onde belas e graciosas meninas passeavam, chamando nossa atenção e despertando olhares e suspiros.
Vazios também estão os bancos onde nos reuníamos para assistir àquele natural e encantador desfile de ingênua beleza.
Agora tudo é silêncio.
Tudo parece embalado numa cinzenta e estranha quietude.
Paira no ar uma atmosfera de tristeza e solidão.
Onde ficou aquele burburinho, aquelas risadas, aquele vozerio, aquela descontraída algazarra que antecedia o início de tuas animadas sessões?
Hoje, à distância, lamento teu cruel destino.
Tuas altas paredes já não acolhem aquela juventude alegre, vibrante e sonhadora.
Agora, apenas frias mercadorias — sem vida, sem alma, sem sonhos, sem nada — habitam teu interior.
Teu destino, velho companheiro, é igual ao meu.
O tempo — esse implacável escultor de ruínas — também roubou a leveza da minha mocidade.
Meus amigos, um a um, se encantaram, abrigados no mistério da eternidade…
Restaram-me, como companhia, somente os desenganos…
E esta profunda e dolorosa saudade de um belo tempo que não volta mais.
*Joel de Hollanda é arcoverdense “da gema”. Nasceu na casa nº 539 da Av. Antônio Japiassú. É o 12º filho de uma família de 13 irmãos, todos nascidos em Arcoverde. É economista, foi secretário de Educação no governo Marco Maciel, deputado estadual, federal e senador
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