Por Leiliane Rebouças*
Do Metrópoles
O caso do Brasília Palace Hotel é hoje um dos exemplos mais graves de negligência institucional com o patrimônio moderno brasileiro. Primeiro hotel da capital federal, projetado por Oscar Niemeyer para receber autoridades, técnicos e visitantes durante a construção de Brasília, o edifício não é apenas uma peça de arquitetura: ele é parte constitutiva da memória fundadora da cidade.
No entanto, diante da proposta de duplicação e descaracterização do hotel, promovida pelo empresário Paulo Octávio, o Iphan optou pelo caminho mais cômodo: permitir, silenciar e se omitir — como se a defesa do patrimônio fosse um princípio flexível, aplicável apenas quando não interfere nos interesses econômicos.
Leia maisSegundo a análise técnica do próprio Iphan, a duplicação do tamanho do hotel “não prejudicaria o patrimônio cultural”, uma conclusão que beira o absurdo. Como é possível sustentar que dobrar a volumetria de uma obra moderna, concebida com rigor formal, escala precisa e relação direta com a paisagem, não compromete seus valores arquitetônicos e simbólicos?
Essa posição revela uma compreensão empobrecida do que significa patrimônio: reduzido a fachada, a linguagem estética superficial, e não um sistema integrado de forma, função, proporção, uso, memória e contexto urbano.
O Brasília Palace não é um prédio qualquer. Ele integra o conjunto simbólico da capital, ao lado do Palácio da Alvorada, do Congresso Nacional e da Esplanada dos Ministérios. Foi ali que se hospedaram Juscelino Kubitschek, arquitetos, engenheiros, artistas e jornalistas que acompanharam o nascimento de Brasília.
Sua arquitetura leve, horizontal e integrada à paisagem do Lago Paranoá expressa a utopia modernista de uma cidade pensada como obra coletiva, pública e civilizatória. Alterar esse edifício é interferir diretamente na narrativa histórica da capital — e duplicá-lo é negar sua própria lógica arquitetônica.
O problema é que essa interferência não começou agora. O hotel já sofreu um golpe profundo quando se permitiu a criação de um lote em frente, bloqueando a relação visual direta com o Palácio da Alvorada — um dos eixos simbólicos mais importantes do projeto urbano original.
Em seguida, foi construído um segundo hotel com uma arquitetura completamente alheia ao modernismo, um corpo alienígena de escala desproporcional cravado num dos sítios mais sensíveis da paisagem cultural de Brasília.
Cinismo
Agora, a situação se agrava: o mesmo empresário que, nos anos 1990, explorou intensamente a memória afetiva do Brasília Palace para promover sua restauração e valorização comercial, passa a defender sua duplicação e transformação, sob a lógica do “potencial construtivo” e da rentabilidade imobiliária. É o uso cínico da história: a memória como marketing quando convém, e como obstáculo quando limita o lucro.
Mais grave ainda é o arquivamento do pedido de tombamento do hotel no âmbito do governo local. Trata-se de uma decisão política que revela o desprezo pela dimensão imaterial do patrimônio.
O tombamento não é um capricho burocrático, mas um instrumento de proteção da memória coletiva, de garantia de que certas obras — especialmente aquelas fundadoras — não sejam submetidas à lógica predatória do mercado. Arquivar esse pedido é afirmar, implicitamente, que a história de Brasília é negociável.
O silêncio do Iphan diante desse processo é ensurdecedor. O instituto, criado justamente para proteger o patrimônio nacional, não apenas se omite, como também legitima a descaracterização, ao afirmar que a duplicação não gera impacto.
Trata-se de um precedente perigoso: se dobrar um edifício histórico não é considerado dano, então qualquer intervenção pode ser justificada em nome de uma suposta “compatibilidade formal”. Abandona-se a noção de integridade patrimonial e adota-se uma lógica de maquiagem estética, em que se preserva o nome, mas se destrói o sentido.
O exemplo de Niterói
O contraste com Niterói é revelador e constrangedor. Enquanto o município fluminense, ainda em vida de Oscar Niemeyer, construiu um projeto político e cultural consistente de valorização de seu legado — investindo na criação, preservação e promoção de equipamentos como o Caminho Niemeyer, transformando a arquitetura moderna em política pública de identidade urbana, turismo cultural e educação patrimonial — Brasília, justamente a cidade que concentra a obra mais densa e simbólica do arquiteto, opta pelo silêncio, pela omissão e pela conivência no caso do Brasília Palace.
Em Niterói, o patrimônio é entendido como ativo civilizatório e projeto de futuro; em Brasília, ele é tratado como entrave ao mercado, algo a ser flexibilizado, negociado ou descartado quando interfere nos interesses imobiliários.
A ironia histórica é brutal: a cidade que existe por causa de Niemeyer falha em protegê-lo, enquanto outra, que poderia prescindir dele, constrói em torno de sua obra uma política de Estado. Isso não é apenas negligência institucional — é uma falência simbólica da própria consciência patrimonial de Brasília.
O prejuízo é irreversível. Uma vez alterado, duplicado, inflado e reprogramado, o Brasília Palace deixa de ser documento histórico para se tornar apenas mais um produto imobiliário. Perde-se não só um edifício, mas um pedaço da narrativa de Brasília como projeto de país.
Perde-se a materialidade de um tempo em que arquitetura, política e utopia estavam articuladas. E consolida-se uma lógica perversa: a de que o patrimônio só merece ser defendido enquanto é rentável — e que, quando passa a impor limites, deve ser adaptado, flexibilizado ou simplesmente sacrificado.
*Acadêmica do Instituto Histórico e Geográfico do DF. Bacharel de Relações Internacionais, é especialista em turismo; autora do livro Vizinhos do Poder, História e Memória da Vila Planalto (2022); coautora do livro Café com Europa, Brasília 60, da editora UnB (2020); e coordenadora do Movimento Guardiões de Brasília.
Leia menos














