Após declarações feitas pelo pastor Silas Malafaia durante o festival gospel The Send 2026, realizado no último sábado (31) na Arena Pernambuco, a Associação dos Docentes da Universidade Federal de Pernambuco (Adufepe) informou que protocolou uma notícia de fato no Ministério Público de Pernambuco e no Ministério Público Federal pedindo apuração sobre falas que, segundo a entidade, atacam de forma genérica a categoria docente e contribuem para a deslegitimação do trabalho pedagógico.
Confira o comunicado na íntegra:
Leia maisAdufepe aciona o Ministério Público após declarações de Silas Malafaia sobre categoria docente
Não é de hoje que líderes religiosos atacam a educação para sustentar estruturas de poder. A manutenção da bitola se ergue em discursos inflamados sobre doutrinação, marxismo e, claro, agenda de costumes. Tangendo manadas, conduzem fiéis para as urnas pautados num falso moralismo travestido de conservadorismo. Como resultado, assistimos à consolidação da bancada evangélica como uma das mais numerosas e influentes frentes parlamentares do Congresso Nacional. No último fim de semana, o pastor Silas Malafaia destilou sua execrável retórica para, mais uma vez, acusar professores de enganar estudantes e impor a ideologia de gênero. O discurso aconteceu sábado (31), no festival gospel The Send 2026, na Arena Pernambuco, na Região Metropolitana do Recife.
Em resposta, a Associação dos Docentes da Universidade Federal de Pernambuco protocolou uma notícia de fato no Ministério Público de Pernambuco e no Ministério Público Federal com pedido de análise de conduta e adoção de medidas para tutela de direitos coletivos.
Malafaia atribuiu à atuação docente o controle do pensamento de estudantes por meio do marxismo cultural, afirmando sem o menor pudor que os alunos estão sendo manipulados em prol de um projeto político. “Escuta, moçada, existe hoje uma coisa que é séria, é o chamado controle do pensamento pelo marxismo cultural. Se você pensar diferente, você é banido. Se você for contra ideologia de gênero, se você for contra o aborto, se você for contra práticas homossexuais, se você for contra essa cultura, você é ridicularizado, debochado. Vocês têm que estar preparados para esse enfrentamento.”
A notícia de fato protocolada pelo sindicato pode se tornar uma ação civil pública e levá-lo a responder por dano moral coletivo e exigir indenização e retratação pública.
Embora seja uma figura relevante na política brasileira, como influenciador do campo conservador e religioso, Malafaia já afirmou publicamente que não tem interesse em se candidatar. No entanto, é um conhecido cabo eleitoral de partidos à direita, sendo um dos principais aliados e articuladores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado por tentativa de golpe de Estado. É válido pontuar que, durante o Governo Bolsonaro, mesmo sem cargo público, foi um dos conselheiros mais atuantes da gestão e, após 2022, capitaneou a organização dos atos em favor do ex-presidente.
O próprio Malafaia — fundador da Assembleia de Deus Vitória em Cristo — foi incluído no inquérito da Polícia Federal que apura a tentativa de golpe de Estado sob suspeita de coação no curso do processo, organização criminosa e abolição violenta do Estado Democrático. Antes disso, em 2017, foi indiciado por lavagem de dinheiro após receber R$ 100 mil de um escritório de advocacia investigado por desvios em prefeituras. A corrupção acontecia em cobranças judiciais de royalties de exploração mineral.
A ficha policial, contudo, parece não importar aos que creem nas palavras do pastor e lotaram a Arena Pernambuco. Com grande alcance social e midiático, o evento foi palco para declarações sem qualquer base fática concreta. Ao afirmar que estudantes estariam sendo enganados por professores — atribuindo de forma genérica e desabonadora posturas inadequadas e antiéticas à categoria —, a manifestação contribuiu para o descrédito social da atividade docente, afetando a honra coletiva e a imagem dos professores, além da confiança da sociedade na educação formal, especialmente no ambiente escolar e universitário. Tais declarações, proferidas em espaço de ampla visibilidade e dirigidas a um público jovem em processo de formação crítica, possuem potencial de reforçar estigmatizações e deslegitimações do trabalho pedagógico com graves e duradouros reflexos sociais.
Na notícia de fato, a Adufepe solicitou a instauração do procedimento cabível para apuração das declarações; a análise do conteúdo audiovisual e da transcrição da fala para verificar a violação a direitos coletivos; a adoção das providências que o Ministério Público entender pertinentes, inclusive com vistas ao eventual ajuizamento de uma ação civil pública destinada à reparação de danos morais coletivos decorrentes do ataque; e a promoção de outras medidas que se mostrem adequadas à tutela da dignidade da docência e da confiança social na educação.
O professor, antropólogo, etnólogo, escritor e principal idealizador da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), Darcy Ribeiro, há muito denunciava: “A crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto”. Malafaia não é filiado, oficialmente, a partido algum e nunca exerceu cargo político eletivo, no entanto, é porta-voz de um plano devastador de sucateamento do ensino e alienação da população. Em defesa da “moral e dos bons costumes”, usa da fé para anular o pensamento crítico e incitar ódio e segregação.
A Adufepe está em alerta e não deixará de questionar e denunciar quem ataca a educação, a democracia e a soberania de nosso país. Este ano, voltaremos às urnas para eleger um novo presidente, governadores, senadores e deputados. Fique atento!
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