Além de anunciar anistia para presos políticos na Venezuela, a presidente interina Delcy Rodríguez afirmou que o centro de detenção de Helicóide, em Caracas, vai ser transformado em um centro de convivência.
O local abriga maioria dos presos políticos da Venezuela e é onde funciona a sede do serviço de inteligência do país. Na década de 2010, ele foi apontado por opositores do ditador Nicolás Maduro e por organizações de direitos humanos como o principal centro de tortura do país. As informações são do UOL.
Leia maisPrisão deve virar um “centro social, esportivo, cultural e comercial para a família policial e comunidades vizinhas”, disse Delcy. Ela falou sobre a requalificação do prédio na noite de ontem, no mesmo discurso que anunciou a anistia para os presos.
O Helicóide fica no centro de Caracas e foi idealizado como um shopping na década de 1950. Ele nunca funcionou como um centro de compras e passou décadas abandonado até se tornar uma instalação militar.
Desde 8 de janeiro, dias após Maduro ser capturado pelos EUA, cerca de 300 presos políticos foram soltos na Venezuela. A libertação avança lentamente e, segundo levantamento de organizações sociais, cerca de 700 opositores de Maduro seguem detidos pelo governo.
Prédio luxuoso foi abandonado e virou prisão

O edifício Helicóide foi construído nos anos 1950, durante a ditadura de Marcos Pérez Jiménez. Ele foi idealizado para ser o primeiro shopping center drive-thru do mundo, com rampas que levavam às 300 lojas planejadas para o complexo.
Luxuoso centro comercial nunca foi inaugurado e, por anos, permaneceu vazio. Após a queda de Pérez Jiménez, o projeto ambicioso acabou se tornando um imenso elefante branco.
Espaço foi transformado em um quartel-general na década de 1980. Na ocasião, o governo da Venezuela começou a transferir algumas agências para o Helicóide, sendo a mais importante o Sebin (Serviço Bolivariano de Inteligência).
O local foi transformado em prisão anos depois. Com passagens semelhantes a hélices que levam a uma cúpula, o edifício passou a ter espaços projetados para serem lojas, salas comerciais, banheiros e até escadas convertidos em celas.
Os corredores circulares da prisão são longos e sombrios, de acordo com reportagem do jornal “El País”. A sala de visitas é “opaca e hermética”, e os familiares dos presos sofrem abusos frequentemente.
As celas não têm luz ou ventilação natural, contou um estudante detido no local à CNN. Outro preso relatou que, com muita frequência, se escutavam gritos no local devido às sessões de tortura.
O ativista Rosmit Mantilla passou dois anos e meio preso e descreveu o espaço como “um inferno na terra”. Ele relatou ao “The Guardian” que a rotina no prédio era de superlotação, desnutrição, pressão psicológica e refeições escassas.
“Há pelo menos três salas usadas para tortura e não conseguíamos dormir porque ouvíamos gritos a noite toda: pessoas que apareciam e desapareciam”, diz o ativista ao The Guardian.
O espaço se deteriorou com o tempo e, nos anos 2010, ficou marcado por superlotação. Em imagens publicadas pelo jornal “Todo Notícias”, é possível ver o desgaste na estrutura do presídio, que tinha até 12 presos em uma mesma cela. O local não teria serviço de água nem vasos sanitários, o que ajudou na proliferação de ratos e baratas, segundo relatos dos presos.
O papel do edifício como prisão e centro de tortura só se tornou público após protestos em massa em 2014 e 2017. As autoridades venezuelanas, no entanto, seguiam negando os casos de tortura no país.
Relato de testemunhas ajudou organização a criar “passeio virtual” pelo local. Em 2023, o projeto “Realidade Helicoide” coletou depoimentos de 30 pessoas que foram presas na sede do Sebin e ilustrou o local para que visitantes online pudessem viver uma imersão no espaço.
Leia menos















