Por Gilmar Teixeira
Em todo encontro do Cariri Cangaço há figuras que se tornam paisagem afetiva. Não pelo silêncio, mas pela presença. Geraldo Ferraz é assim. Surge sempre com o chapéu elegante de lorde pernambucano, o sorriso aberto e o passo tranquilo de quem sabe exatamente onde pisa. Ao lado da esposa Rosane Ferraz, companheira constante, ele não ocupa espaço – ele cria convivência. E logo se percebe: ali está alguém profundamente querido, não apenas pelo que sabe, mas pelo que é.
Quando Geraldo começa a falar, o Sertão se ajeita para ouvir. Sua voz não traz bravatas nem romantizações fáceis. Vem carregada de estudo, de memória e de responsabilidade histórica. Fala do cangaço, sim, mas sobretudo do outro lado da história: das forças policiais, das volantes, dos homens fardados que enfrentaram um tempo em que a violência era lei nos ermos nordestinos. E fala com autoridade singular, porque sua história pessoal caminha de mãos dadas com a história que pesquisa.
Leia maisNeto do lendário Teófanes Ferraz, destacado policial pernambucano que combateu desde Antônio Silvino até Lampião nos sertões do Pajeú, Geraldo assumiu para si uma missão que poucos encaram com tamanha dignidade: defender a honra, a memória e a verdade histórica desse personagem. Sua literatura não é vingança nem exaltação cega; é justiça histórica. É o esforço paciente de recolocar os fatos em seu lugar, longe das sombras da simplificação.
Nascido no Recife, em 30 de dezembro de 1955, e moldado por várias cidades pernambucanas – Triunfo, Taquaritinga, Gravatá –, Geraldo traz em si a pluralidade do Estado. Formado em Administração, servidor público exemplar, artista plástico por paixão, escritor por vocação e historiador por compromisso, ele construiu uma trajetória que impressiona não pela quantidade de títulos, mas pela coerência do caminho.
Nos livros, nas palestras, nos congressos, nas academias de letras e nos saraus, especialmente no emblemático Quartas às Quatro, Geraldo Ferraz sempre fez da cultura um território de encontro. Nunca se colocou acima, mas sempre à frente, abrindo caminhos, mediando debates, estimulando novas vozes. Seu trabalho atravessou fronteiras, chegou a Portugal, ecoou em academias, universidades e eventos que discutem o Nordeste não como folclore, mas como território histórico complexo.
É impossível falar de Geraldo sem falar de perseverança. Foram décadas de dedicação à pesquisa, à escrita e à articulação cultural, sempre com elegância, generosidade e firmeza de princípios. Recebeu homenagens, comendas, medalhas, prêmios – mas talvez seu maior reconhecimento esteja no respeito silencioso que se instala quando ele se aproxima. Todos sabem: ali está alguém que não brinca com a história.
Geraldo Ferraz não apenas estuda o cangaço. Ele humaniza o debate, amplia o olhar e devolve ao sertão suas múltiplas vozes. Entre cangaceiros e volantes, entre o mito e o fato, ele caminha com equilíbrio raro. E assim segue, chapéu à cabeça, sorriso no rosto, carregando consigo a certeza de que preservar a memória é, antes de tudo, um ato de amor ao Nordeste.
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