Por Osório Borba Neto
Tem dias em que o Diário Oficial parece suplemento de humor.
Abro o jornal do governo esperando alguma epifania administrativa — um hospital novo, médicos contratados, leitos ampliados — e encontro a grande manchete histórica: “Entrega de 48 novas macas”. Quarenta e oito. Confesso: quase procurei o Hino Nacional no Spotify.
Macas. Não remédio. Não cirurgia. Não atendimento. Macas.
Leia maisComo se saúde pública fosse problema de mobiliário. Como se o SUS precisasse menos de médicos e mais de rodinhas. A política virou catálogo hospitalar: hoje macas, amanhã travesseiros, quem sabe depois cortinas combinando com a crise. Imagino a cena no gabinete:
— Governadora, os corredores estão lotados.
— Então providenciem mais… macas.
Porque a maca, em Pernambuco, não transporta paciente. Ela estaciona gente. É o purgatório com rodinha. A sala de espera horizontal. Você não melhora — você aguarda deitado.
Enquanto isso, a mesma gestão que celebra macas como se fossem obras faraônicas grava vídeos posando com pistola importada, sorrindo para a câmera como quem lança um perfume francês. Curioso, não?
Falta hospital, falta equipe, falta investimento, falta prioridade — mas sobra solenidade para anunciar o improviso. No fim, a metáfora se escreve sozinha: em vez de curar o sistema, o governo só acomoda o sofrimento.
Organiza a fila. Deita o problema. E chama isso de gestão.
Se continuar assim, qualquer dia o Diário Oficial vai estampar, orgulhoso: “Estado fortalece educação com entrega de 32 apagadores”.
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