O escândalo da Logo Caruaruense, revelado pelo portal Metrópoles, na semana passada, trouxe à tona um emaranhado de conexões familiares que lançou Raquel Lyra (PSD) no centro de uma crise política em Pernambuco. Além de a empresa ter como sócios os pais e as irmãs da governadora, outros parentes ocupam cargos estratégicos na companhia e em estruturas do governo estadual que poderiam ter inibido as irregularidades. O caso vem sendo repercutido por deputados estaduais de oposição e, ontem, motivou a apresentação de um pedido de impeachment contra a governadora.
Uma peça-chave do caso é André Teixeira, primo da governadora. Desde junho, ele está à frente da Secretaria de Mobilidade e Infraestrutura, pasta à qual está vinculada a Empresa Pernambucana de Transporte Intermunicipal (EPTI). Como o Metrópoles revelou, o próprio órgão formalizou, em documentos internos, que a frota da Logo Caruaruense opera desde 2023 sem vistorias, com taxas atrasadas e com idade quase três vezes acima da permitida. Apesar de um decreto estadual determinar que a operação de veículos nessas condições seja suspensa, os ônibus da empresa seguem circulando.
Um processo administrativo da EPTI contra a Logo Caruaruense está paralisado desde fevereiro de 2025 e não avançou após Teixeira assumir o cargo. A atuação dele também está na mira da oposição devido a outro vínculo familiar. Lígia Teixeira, mãe do secretário, ocupa uma gerência na empresa de ônibus. A própria governadora foi sócia da companhia até 2018. Atualmente, o pai dela, o ex-governador João Lyra Neto (PSD), a mãe, Mércia Lyra, e as irmãs, Paula Teixeira Lyra e Nara Lyra, compõem a sociedade. Após as denúncias, a empresa anunciou que encerrará suas atividades na próxima sexta (23).
Dentro do governo, outra prima de Raquel Lyra tinha, até a semana passada, poder decisório sobre medidas que poderiam influenciar os negócios da família. Procuradora-geral do Estado desde 2023, Bianca Teixeira estava à frente da estrutura que ficou responsável por opinar sobre a anulação de um processo licitatório referente às linhas intermunicipais do estado. Um dos lotes do certame foi arrematado pela Logo Caruaruense em setembro de 2014, quando João Lyra Neto era governador. No ano seguinte, acabou suspenso pelo Tribunal de Contas do Estado em decorrência de supostos vícios na concorrência.
Ao longo dos anos seguintes, a emissão de um parecer sobre o caso ficou retida na Procuradoria-Geral do Estado (PGE). Em 2022, foi o Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) que liberou a assinatura dos contratos. Desde então, já na gestão de Raquel Lyra e com luz verde, o governo estudava uma saída jurídica para o impasse, uma vez que o cenário do setor já não correspondia ao de 2014. Se a opção fosse por manter a licitação – dimensionada, na época, em 20 anos de contrato e R$ 4 bilhões em investimentos –, a Logo Caruaruense passaria de permissionária a concessionária, com mais segurança jurídica para operar. Como a empresa anunciou o encerramento das atividades, ficará fora de uma eventual assinatura de contrato.
















