Por Roberto Freire*
A América do Sul precisa se unir. Não como retórica diplomática, mas como estratégia concreta de sobrevivência política, econômica e geopolítica diante do avanço de doutrinas imperialistas e da reorganização do poder global. O mundo volta a operar pela lógica das áreas de influência e da imposição de interesses.
Essa lógica tem uma referência histórica conhecida no continente. A Doutrina Monroe, formulada no século dezenove, estabeleceu a ideia de tutela hemisférica sobre a América Latina, sob o argumento de proteção externa. O que se observa hoje é a atualização desse princípio, com novas linguagens, novos instrumentos e a mesma concepção de fundo. Sempre que interesses estratégicos das grandes potências são contrariados, a soberania dos países do Sul passa a ser relativizada.
Leia maisNenhuma nação sul americana, isoladamente, terá força suficiente para enfrentar os desafios da defesa continental, da soberania e da inserção competitiva na economia global. A construção de uma Comunidade Sul Americana é hoje uma necessidade objetiva, baseada em cooperação, diálogo e integração progressiva, respeitando diferenças nacionais, mas afirmando interesses comuns.
Nesse processo, Brasil, Argentina, Colômbia e Chile, as quatro maiores economias da região, devem assumir papel de liderança política nesse esforço, com responsabilidade histórica na condução desse movimento. Mais do que coordenadores, esses países precisam atuar como líderes, capazes de induzir consensos e sustentar um projeto regional consistente. A superação de divergências ideológicas entre governos não é concessão política, é imperativo estratégico. A relação entre essas lideranças regionais deve ser entendida como eixo estruturante da integração sul americana, não como refém de disputas circunstanciais.
O mundo atravessa uma transição profunda, marcada pela integração entre o físico e o digital. A chamada era figital, conceito formulado pelo cientista da computação Silvio Meira, redefine produção, comércio, inovação e competitividade. Sem escala regional, a América do Sul tende a permanecer como exportadora de matérias primas, distante dos centros de decisão e de valor.
Diante dessa realidade, o início do processo de integração por uma zona de livre comércio sul americana é uma escolha realista e responsável. Trata se do mínimo denominador comum possível em uma região marcada por economias desiguais, modelos de desenvolvimento distintos e instabilidade política recorrente. Uma zona de livre comércio reduz resistências, permite adesões graduais e não exige, de imediato, grandes cessões de soberania.
É fundamental, porém, que esse passo inicial não seja confundido com ponto de chegada. A zona de livre comércio deve ser o começo de um processo mais amplo, capaz de evoluir para formas mais profundas de integração econômica e política ao longo do tempo.
Nesse contexto, o fortalecimento do Mercosul e a conclusão do acordo entre o bloco e a União Europeia são movimentos estratégicos. Eles ampliam mercados, atraem investimentos, fortalecem cadeias produtivas e ajudam a posicionar melhor a região na economia global. Para isso, as lideranças regionais precisam atuar de forma convergente, com maturidade política e visão de longo prazo.
A união da América do Sul não é abstração nem nostalgia integracionista. Ela precisa estar ancorada, de forma inequívoca, na cláusula democrática como fundamento da Comunidade Sul Americana. Não há integração possível convivendo com regimes autoritários. O caso da Venezuela é um alerta claro de que ditadura e projeto de integração regional são incompatíveis. A democracia não é um detalhe institucional, é condição essencial para a confiança, a cooperação e a legitimidade desse projeto comum.
O Cidadania defende uma integração baseada na democracia, no respeito à soberania e na cooperação prática entre os países da região. Sem união, a América do Sul seguirá vulnerável. Com união, pode afirmar sua voz e seu futuro.
*Presidente Nacional do Cidadania
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