Por Zé Américo Silva*
Em Brasília, criou-se uma gramática política: “transparência” virou sinônimo de “perseguição”. Toda vez que a Polícia Federal bate à porta, que o Tribunal de Contas rastreia uma emenda suspeita ou que o Ministério Público pede inquérito, a reação é previsível: discurso inflamado nas redes, ataques à Justiça e à imprensa. O problema nunca é o desvio de dinheiro público, é sempre “o exagero da fiscalização”.
Enquanto isso, os fatos avançam. Em 2025, a PF deflagrou a Operação Transparência para investigar o desvio de recursos de emendas parlamentares, apurando crimes como peculato e corrupção em esquemas que envolvem gabinetes em Brasília e alianças locais. Por decisão do ministro Flávio Dino, a corporação faz um pente-fino em emendas apresentadas por mais de 90 políticos com mandato ou ex-mandato no Congresso, justamente para decidir onde abrir novos inquéritos. Não se trata de boato, mas de investigação formal, com busca e apreensão autorizadas pelo STF.
Leia maisO quadro é ainda mais grave nas chamadas “emendas Pix”, atalho criado para acelerar a transferência de recursos sem plano de trabalho detalhado. Estudo da Transparência Brasil mostrou que, em 2024, 941 emendas desse tipo destinaram R$ 8,2 bilhões, mas menos de 1% informava claramente quem seria beneficiado e para qual finalidade o dinheiro seria usado. Ao mesmo tempo, decisões do STF e do TCU falam em dezenas de milhares de emendas sob suspeita, com indícios de desvio, lavagem de dinheiro e conexão com redes criminosas.
Na Previdência, o roteiro se repete. A CPMI do INSS revelou um esquema de descontos fraudulentos em benefícios de aposentados e pensionistas. Em uma das frentes, a PF aponta que um deputado federal teria recebido mais de R$ 14 milhões em propinas, por meio de empresas de fachada, em troca de proteger o esquema. Enquanto o aposentado perde parte do benefício sem saber por que, há parlamentares transformando o INSS em fonte estável de caixa paralelo.
Diante desse cenário, há dois caminhos. O primeiro é o da política responsável: encarar as investigações, abrir os dados das emendas, divulgar quem recebe quanto e por que, explicar critérios e reforçar controles. O segundo é o da vitimização: gritar “perseguição”, acusar complôs, tentar aprovar PECs da blindagem e tratar qualquer tentativa de transparência como guerra institucional.
Não é por acaso que parte do Congresso escolhe a segunda rota. Emendas parlamentares viraram, para muitos, sinônimo de poder privado sobre o dinheiro público: moeda de troca com prefeitos, combustível de campanhas, ferramenta para construir feudos eleitorais. Quanto menos rastros, melhor. Quando o STF exige plano de trabalho, quando o TCU manda identificar beneficiários ou quando o Ministério da Justiça aciona a PF para investigar milhões em emendas suspeitas, não está “perseguindo” ninguém: está apenas lembrando que orçamento não é balcão de negócios.
Transparência não prende inocente. O que coloca parlamentar na mira da PF, do Ministério Público e dos tribunais são notas frias, empresas de fachada, contratos superfaturados, ambulâncias que nunca chegam, obras que não saem do papel, aposentados saqueados no contracheque. Quem tem emenda limpa, com critério e execução correta, deveria ser o primeiro interessado em que tudo esteja na internet, acessível a qualquer cidadão.
Para muitos, porém, transparência continua sendo sinônimo de perseguição porque expõe o óbvio: há gente que enriquece às custas da miséria alheia, usando o mandato para operar esquemas e não para representar o eleitor. Sem admitir isso, o debate sobre emendas seguirá encenado: investigados posando de mártires, denúncias carimbadas como “ataques à democracia” e o contribuinte, mais uma vez, no papel de figurante enganado pela cortina de fumaça.
*Jornalista e consultor de Marketing Político
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