Vencer a polarização política é o desafio para o Brasil em 2026, na visão do professor, sociólogo e cientista político Antonio Lavareda. Em entrevista ao podcast “Direto de Brasília”, ele projetou um discreto favoritismo do presidente Lula (PT), analisou as postulações da oposição e criticou o sistema político brasileiro, que permite eleger um Congresso Nacional completamente desalinhado em relação ao chefe do Executivo federal. “Está passando da hora de aderirmos a um semipresidencialismo”, disparou.
Professor, entre tantas dúvidas para 2026, qual é sua análise de cenário mais provável para o Brasil?
O maior desafio do Brasil hoje é como enfrentar e vencer essa questão da polarização. Vale lembrar que essa polarização não é simétrica, como será na França, com a extrema-direita enfrentando a extrema-esquerda. No Brasil, temos uma polarização que é de ultradireita versus centro-esquerda. Lula sempre fez governos transversais, que no popular se chama de balaio de gatos, de cores diferentes do ponto de vista ideológico ou frequências. Acredito que para melhorar o clima político do país, precisa ter um conjunto de circunstâncias, como uma economia caminhando bem, o país crescendo. Só o crescimento econômico ajuda a diminuir as tensões numa sociedade. Também precisa fazer um combate eficiente às fake news, enfrentar a necessidade de regulação das redes sociais, que é algo muito difícil no Brasil a preço de hoje. E precisa ter um aperfeiçoamento institucional, uma reforma do sistema eleitoral, além de pequenas reformas em todos os Poderes, haja vista essa crise na qual o Judiciário está mergulhado no momento.
Leia maisO presidente é o favorito para a reeleição?
Lula tem um discreto favoritismo, mas não é um jogo jogado. A eleição 2026 não está resolvida, vai depender de fatores internos da própria campanha, vai depender de escândalos, se a economia vai na direção projetada ou se anda de lado ou até descarrila. Lula começa o ano com um discreto favoritismo. Lembrando que das nove eleições presidenciais que tivemos, quem terminou o ano anterior em primeiro lugar nas pesquisas, que é como o Lula terminou, ganhou a eleição em seis dessas oportunidades.
E o pós-eleição? Como fica 2027, por exemplo?
Vamos ter um ano difícil em 2027, que é desenhado como um ano mais difícil ainda. Os problemas da dívida vão cobrar seu preço, de modo ainda mais forte, segundo os analistas de mercado. E o Brasil continuará com um Congresso Nacional com maior peso da direita. Essa é uma dificuldade do Lula, é uma dificuldade do nosso sistema político, produzir um presidente de esquerda, que embora faça governos e alianças, está em dissonância com a maioria do Congresso. Sou favorável, e o sistema político mostra que eu provavelmente tenha razão nisso, à posição defendida pelo ministro Gilmar Mendes e pelo ex-presidente Michel Temer, de o Brasil evoluir para o semipresidencialismo. Já está passando da hora.
O que é que o Lula tem de mais forte?
Esse apelo, as realizações e o que o governo ofereceu até agora para segmentos que foram estratégicos à sua eleição. Para quem recebe até dois salários mínimos, a política de valorização real do salário mínimo é fundamental. Para o segmento de usuários do SUS, o programa Agora Tem Especialistas, o reforço da atividade do Ministério da Saúde, que chega ao final do ano com uma boa avaliação positiva, aprovação superior a 50 pontos, o que não é pouco. O Programa Pé-de-Meia, vai começar a mostrar resultados, a isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil. Agora, o governo com certeza poderia ter até um melhor desempenho de aprovação.
De que forma?
Se capitalizasse um pouco melhor, e faz isso, o fato de que, a despeito de todos os prognósticos dos economistas, o Brasil cresceu desde 2023 para cá. Mesmo com a projeção reduzida do boletim Focus, o Brasil vai ter crescido praticamente o dobro do que o PIB cresceu no período de Jair Bolsonaro. Um levantamento feito pelo UOL mostrou que os economistas erraram 95% das previsões sobre a economia e a Bolsa de Valores desde 2021. Agora mesmo estamos terminando 2025, e das cinco projeções importantes feitas por economistas sobre inflação, dólar, PIB, Ibovespa e SELIC, quatro não só foram erradas, como ficaram aquém da realidade. Não são erros triviais. O erro da projeção do PIB foi de mais de 10%, no dólar foi de mais de 20%, não são erros triviais.
E isso impacta nas decisões do Banco Central…
Sim, elas são tomadas com base nessas projeções dos economistas do mercado, que eram todas piores do que a realidade. Foi praticamente uma profecia que se auto cumpriu. Eles fizeram previsões negativas, medíocres sobre alguns aspectos do ponto de vista de resultado para a economia, e isso produziu uma taxa de juros elevadíssima, a segunda maior taxa de juros real do mundo. Ou seja, será que nem ninguém percebe que esses erros influenciaram a SELIC, cujo valor não é uma coisa trivial, porque faz explodir a dívida interna, que é toda comprada pelo governo com base nos títulos que o governo oferece o mercado compra? Ou seja, termina nos transformando num país que é paraíso dos rentistas.
Além das projeções, quais os principais problemas para o governo, em sua avaliação?
Uma dívida pública projetada para 84% do PIB, o que é elevadíssimo. O governo também não acertou numa política de segurança pública. O presidente prometeu durante a campanha recriar o Ministério da Segurança Pública e não recriou. Ainda tem tempo, vamos torcer para que seja recriado, porque o país precisa muito de uma política nacional de segurança pública. E obviamente o presidente também tem contra si uma rejeição elevada, de 45%, mas ele é competitivo. E a grande vantagem que o Lula leva é de ser candidato com a caneta na mão. Das quatro eleições em que os chamados incumbentes participaram, em três delas eles foram vitoriosos. Ou seja, 75%.
Essa rejeição é a grande dificuldade para o governo?
A grande dificuldade é o fato de que, pela sua história, pelo número de vezes que Lula já foi candidato, fica cada vez mais difícil despertar novas expectativas, despertar a esperança na população. Lula é um caso singular, ninguém no mundo democrático foi candidato seis vezes para eleições presidenciais. Isso não tem paralelo em nenhum outro país, e obviamente consolida Lula como uma das maiores lideranças eleitorais de todo o mundo, não apenas do Brasil. Mas também esgota em boa medida a capacidade de renovar a cada quatro anos as esperanças da população e dos segmentos de jovens que vão se juntando, se somando ao eleitorado. Eu diria que essa é a maior dificuldade dele. A idade poderia ser também eventualmente uma dificuldade, mas o presidente (dos Estados Unidos) Donald Trump terminou ajudando o Lula a resolver isso, quando fez comentários que o brasileiro estava em excelente forma e tinha praticamente a idade dele. Então Trump retirou da direita brasileira, que tem nele, declaradamente ou não seu maior líder mundial, esse argumento (da idade).
Agora sobre o campo da oposição, como fica, após a definição do nome de Flávio Bolsonaro (PL) representando o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro?
No que concerne à candidatura do Flávio, temos que raciocinar no quadro do ex-presidente Jair Bolsonaro. Por volta de setembro, as manchetes apontavam que, depois da inviabilização do deputado Eduardo Bolsonaro e da superação das questões relativas ao tarifaço dos Estados Unidos, o centrão se preparava para rifar qualquer influência do ex-presidente na condução da montagem da chapa da direita para a eleição presidencial de 2026. Ou seja, de repente se imaginou que Bolsonaro poderia ser um personagem importante do ponto de vista da ligação com o segmento bastante expressivo do eleitorado, mas politicamente teria se tornado irrelevante, sem capacidade de fazer articulação, sobretudo e imprimir sua vontade na dimensão política. Acredito que a candidatura do Flávio responde a isso em boa medida, além de hierarquizar os interlocutores no próprio universo familiar.
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro aparecia nas pesquisas melhor do que o Flávio, o que mudou?
Exato, ela parecia melhor antes do Flávio receber a bênção expressa do pai. Hoje, depois do comunicado de Jair Bolsonaro, talvez a primeira comunicação de uma série que nós devemos esperar, o Flávio assumiu a liderança na maior parte das pesquisas. Ele fica à frente de quaisquer outros candidatos do campo da direita em um enfrentamento com o presidente Lula. Lembro de uma manchete de setembro que dizia que após o desembarque do governo, o centrão preparava um plano para escantear Bolsonaro. Você imagina como foi para o ex-presidente reagir a manchetes desse tipo. Não ia dar certo. Ele de fato lançou essa candidatura para manter o bastão do seu patrimônio eleitoral dentro da dinastia, dentro do universo familiar.
Já que mencionou, para onde vai o centrão?
Essa pergunta é instigante, e a resposta exata vale um milhão de dólares (risos). Nós não temos uma resposta definitiva, como nada no centrão é definitivo. O centrão não é alguma coisa que tenha concretude, materialidade. Como eu digo, o centrão é uma entidade metafísica, é uma maçonaria sem loja. Ninguém jamais ouviu falar de quem é a diretoria do centrão, quem é a comissão dirigente. Não há presidente, não há o maior líder do centrão. As expressões são sempre “líderes” ou “membros do centrão”. O centrão é muito amorfo, não tem uma definição, e obviamente a marca principal dele é o pragmatismo, que por definição é contextual. Ou seja, a racionalidade se adapta às circunstâncias. Se as circunstâncias, as posições mudam também. Mas eu acho que a preço de hoje, se a decisão fosse nesse momento, a posição de boa parte do centrão seria de liberar seus diretórios estaduais para apoiarem os candidatos à Presidência que lhes convierem. Eles hoje não apoiaram nenhum candidato.
Nem o Ronaldo Caiado, que já é do União Brasil?
Teoricamente ele poderia ser candidato da federação do União com o PP, mas até pelos entreveros públicos com Ciro Nogueira (presidente nacional do PP), não tem espaço. Acredito que a Federação União Progressista hoje não iria para qualquer candidatura. E isso é um fato que pode provavelmente estimular outros partidos do centrão, como o MDB, que podem fazer a mesma coisa. Um partido que é colocado na categoria do centrão, mas é um pouco diferenciado, é o PSD. Que, a preço de hoje, tem candidato, que é o governador do Paraná, Ratinho Junior.
Se Flávio tem o carimbo da família Bolsonaro, não seria mais fácil para o centrão apoiar um nome como Tarcísio de Freitas?
Olha, esse era o caminho que o centrão, notadamente a federação, perseguia até setembro, e que despertou arranhões na família Bolsonaro. Era uma chapa sendo montada com Tarcísio e Ciro Nogueira, e os Bolsonaros simplesmente entrando com a chancela do ex-presidente. Ou seja, sem opinar nem colocar um membro da família nessa chapa. A compreensão do centrão é que Bolsonaro se tornou tóxico, e ele reagiu a isso. Bolsonaro pode não ter os votos para ser vitorioso no segundo turno, mas os votos que ele mantém e o seu legado eleitoral tornam seu apoio essencial para uma candidatura da direita. Tarcísio não pode lançar sua candidatura sem ter apoio explícito de Bolsonaro, pela fidelidade que ele tem, pelo temperamento, pela gratidão. Quem o fez governador de São Paulo foi Jair Bolsonaro. Ele tem respeito a isso, e também a memória histórica recente do que ocorreu com João Dória, que se elegeu governador na esteira do bolsonarismo, depois se afastou dele e literalmente desapareceu do cenário político. Tarcísio vê isso, então a estratégia dele é que precisaria ter uma candidatura ungida desde o primeiro momento por Bolsonaro. Já Ratinho pode lançar sua candidatura independente num primeiro momento, pode eventualmente disputar como se fosse uma primária contra Flávio Bolsonaro, e apostar em chegar ao segundo turno, onde inexoravelmente apoio da família contra Lula.
Qual a viabilidade eleitoral do Flávio?
Ele é tão competitivo quanto seria Jair Bolsonaro, se este pudesse participar da eleição. O eleitor que votaria em Jair Bolsonaro provavelmente votará em Flávio, não vejo grandes diferenças. A rejeição ao Flávio diminuirá ao longo do tempo, à medida que ficar mais claro para todo eleitorado que ele é um candidato ungido por seu pai. Não acho que Flávio seria inviável. Na eleição contra um incumbente, a disputa gira em torno do incumbente. O que vai definir a eleição é a rejeição ao Lula. O candidato que o enfrentar no segundo turno vai ser diretamente beneficiado pela rejeição do presidente. Então a aprovação e rejeição do Lula hoje são as variáveis básicas para a elaboração de qualquer prognóstico que queiramos estimar com relação a 2026.
A direita brasileira está desarrumada?
Eu tenho uma perspectiva totalmente diferente dessa opinião. Desde que foi instituído o segundo turno, e olha que pilotei várias campanhas no Brasil todo, um dos piores problemas para quem disputa a eleição na cadeira é uma oposição muito fragmentada. Porque o eleitorado destes se juntam no segundo turno, inexoravelmente, independente do acordo dos líderes. Ou seja, o eleitor se reagrega por adjacência ideológica. E no caso, havendo o segundo turno, eu vou deixar a frase para você: a divisão faz a força.
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