Arcoverde, minha segunda pátria, a 250 km do Recife, se rendeu, ontem, para sempre e definitivamente, ao romantismo. Uma multidão de apaixonados pela boa música invadiu as ruas da cidade para curtir uma noite inesquecível: o primeiro festival de seresta e serenata, puxado pelo grupo Sertão Seresteiro, de Petrolina.
Mas quem roubou a cena, na verdade, foi Lila, a rainha da seresta, que cantou grandes sucessos de Altemar Dutra, Nelson Ned, Nelson Gonçalves, Sílvio Caldas e Roberta Miranda. O público, vestido a caráter, com o chapeuzinho branco de Mário Reis, revolucionário da era do rádio e da bossa nova, dançou madrugada adentro na Praça da Bandeira, em frente ao lendário e romântico coreto.

O evento foi uma iniciativa do presidente da Câmara de Vereadores de Arcoverde, Luciano Pacheco (MDB), com apoio do prefeito Zeca Cavalcanti (Podemos), que mostrou também, ao lado da primeira-dama Nerianny Cavalcanti, secretária de Turismo do município, que é também um grande seresteiro e boêmio.

A seresta homenageou Jairo Pacheco, pai de Luciano, e Beto da Oara, filho ilustre da terra. Aos 93 anos, criador da super orquestra Oara, Beto recebeu a homenagem ao lado do prefeito e do presidente da Câmara, na histórica estação ferroviária, primeira parada dos seresteiros e a legião de participantes, que cantou e dançou ao longo da Avenida Antônio Japiassu.
Estive lá com minha Nayla, minha sogra Ivete Lira e Tayse Lira, prima de Nayla. Foi uma noite memorável, linda e maravilhosa. Os boêmios costumam dizer, em suas tertúlias amorosas, que as estrelas vêm do céu quando escutam uma seresta. Da noite tiram o véu e ficam fazendo festa. Arcoverde e seus seresteiros caminharam por ruas, vielas e calçadas, ontem, cantando à lua, a amada dos boêmios e seresteiros.

O violão chorou na madrugada. Trouxe anjos para perto de nós, tocando os nossos corações no mais profundo sentimento da vida, que é o amor. Nem vimos o tempo passar. Nem vimos girar o mundo.
O seresteiro é um farol no chão vazio. Desnuda o que temos de mais triste e sombrio. No acalanto de sua melodia ilumina a nossa alma em alegria. Minha Arcoverde teve lua, que banha as ruas. Teve toque de nostalgia, que é o toque da saudade, orvalho de felicidade. Cantou a poesia em noite fria, numa madrugada sem fim.
Os que nunca viram uma seresta constataram, sem muito esforço, que ser seresteiro é poder ir aos céus. É trazer a lua. Andar nas estrelas pela rua. Viver os sonhos e a poesia. Acalmar os ventos e a ventania. Para o seresteiro que se preza, as janelas se abrem lentamente, para sonhar docemente com a amada. Sonhar também com um tempo que não volta mais.

















