Por Antonio Magalhães*
Perseguições e prisões injustas por razões políticas e religiosas fazem parte do registro da natureza sombria da humanidade. Mas a punição dos déspotas também ocupa páginas deste livro da infelicidade. A Bíblia relata diversos casos de prisões e condenações injustas sofridas por profetas, apóstolos e até mesmo por Jesus. E também conta o fim do romano Pôncio Pilatos, que se omitiu e deixou Jesus ser condenado à morte. Tempos depois, Pilatos foi levado a Roma, julgado e condenado à morte pelo imperador. Antes da execução, suicidou-se.
Já o escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881) foi vítima da intolerância governamental. Em 1862, publicou um romance em que narra um dos períodos mais difíceis da sua vida: os anos em que passou na prisão. Em 1849, ele foi condenado à morte por debater ideias “revolucionárias”. Porém, minutos antes do fuzilamento, sua pena acabou sendo comutada por quatro anos de prisão e trabalho forçado na Sibéria. Essa fase, de 1850 a 1854, deixaria marcas profundas no escritor, que transformou a dor do confinamento nas Memórias da Casa dos Mortos.
Leia maisA perseguição a Dostoiévski deu-se por seu engajamento na luta da juventude democrática russa pelo combate ao regime autoritário do Tzar Nicolau I. A experiência na prisão abalou profundamente o escritor. Depois de libertado, retornou a São Petersburgo em 1859, dedicando-se integralmente a escrever, produzindo seis longos romances, entre os quais suas obras-primas Crime e Castigo (1866), O Idiota (1869) e Os Irmãos Karamazóv (1880). O perseguidor, juiz e executor Nicolau I, que condenou Dostoiévski, morreu seis anos antes do escritor, em 1855, vítima de pneumonia — talvez um castigo da biologia pelo crime.
Outro caso famoso de perseguição e injustiça no mundo ocidental aconteceu na França, em 1894, com a condenação injusta do capitão Alfred Dreyfus sob a acusação falsa de passar segredos militares para inimigos. Foi destituído da sua patente e enviado para a Ilha do Diabo, a prisão militar francesa na Guiana, onde viveu vários anos até à reabertura do processo, após o escândalo que rebentou junto à opinião pública francesa.
“O que verdadeiramente transformou o assunto num caso nacional foi a forma como os responsáveis do exército francês ocultaram informações e forjaram documentos, agravando a pena de Dreyfus. Rapidamente alastrou pela opinião pública a ideia de que o capitão fora um bode expiatório num processo viciado de início, que fora incriminado por ser judeu e que as autoridades militares procuravam sobretudo salvar a face da instituição militar à custa do sacrifício de um inocente.” Seus acusadores foram severamente punidos.
Só em 1906 Dreyfus foi reabilitado e novamente incorporado ao exército. Serviu a França na I Guerra Mundial e faleceu em 1935. O caso com o seu nome, porém, continua a ser revisitado e estudado como exemplo paradigmático de injustiça de Estado.
Em pleno século 20, depois da Segunda Guerra Mundial, há uma história onde a liberdade cedeu lugar ao autoritarismo com violência e perversão. Ela está no relato do romance Arquipélago Gulag, do escritor russo Aleksandr Solzhenitsyn (1908-2008), que teve sua vida marcada pela experiência em campos de trabalho forçado (Gulags) na Sibéria por criticar o regime comunista soviético. Durante o período Bolchevique, Solzhenitsyn se alinhou ao marxismo. No entanto, a experiência de criticar Stalin em uma carta privada o levou a ser preso e enviado a um campo de concentração, o que o fez questionar o regime e se converter ao cristianismo.
“Durante seus anos de prisão e exílio nos Gulags e no Cazaquistão, ele sofreu com a desumanização do sistema e com o câncer, mas encontrou na adversidade um caminho para a redenção e para a fé. Ele usou seu tempo nos campos para memorizar poemas e histórias, que mais tarde se tornaram a base para suas obras literárias”, diz um resenhista do livro.
Em 1970, o russo foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura por sua obra, que expunha a verdade sobre o sistema comunista soviético e a vida nos campos de concentração. Devido ao seu trabalho, foi exilado em 1974, vivendo nos Estados Unidos, onde continuou a criticar o regime soviético. Seus algozes foram punidos com o fim da União Soviética, o que permitiu o retorno do escritor à Rússia em 1994. Solzhenitsyn é lembrado como um símbolo de resistência intelectual e por ter exposto as atrocidades do regime comunista soviético ao mundo, deixando um legado literário e histórico que transcende fronteiras.
Já em pleno século 21, o Brasil contribui para este livro sombrio da infelicidade com perseguições judiciais e prisões do campo político da direita. Uma verdadeira “caça às bruxas”, como alertou o presidente dos Estados Unidos Donald Trump ao criticar a condenação do ex-presidente Bolsonaro e seus aliados, num julgamento discutível de um suposto golpe de Estado em janeiro de 2023.
É difícil imaginar o que é entrar em um lugar ou um tempo da vida em que não se pode mais ter esperança, como diz Dante Alighieri, na porta do inferno do seu poema épico Divina Comédia: “Deixai toda esperança, vós que entrais”. Mas os que entraram e foram resilientes, saíram com vida e disposição de ajudar quem sempre esteve a seu lado. Força aos esquecidos de Brasília. É isso.
*Jornalista
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