Por Rudolfo Lago – Correio da Manhã
No período de transição entre a eleição de Jair Bolsonaro em 2018 e sua posse, ficou famosa a frase do general Augusto Heleno em uma solenidade quando ele invocou Ary do Cavaco e Bebeto di São João, parodiando o refrão do samba que ficou famoso com Bezerra da Silva: “Se gritar pega Centrão, não fica um, meu irmão”.
Mais tarde, quando bateu a realidade política, com o então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), sentando-se em cima de mais de cem pedidos de impeachment, Bolsonaro tornou-se refém do Centrão. Durante a noite de quarta-feira (27), durante a discussão a respeito da PEC da Blindagem, parte da direita bolsonarista começou a refletir se não estava de novo virando refém do Centrão, defendendo o grupo.
Leia maisAfinal de contas, se a PEC viesse a ser aprovada, seus benefícios iriam para Bolsonaro no julgamento que está em curso? Ou somente beneficiariam futuros processos contra deputados e senadores? O que aconteceria se de novo gritassem “pega Centrão”?
No fundo, a blindagem que se pretende com essa PEC diz respeito mais exatamente à preocupação que há hoje no Congresso com relação às investigações de desvios com emendas ao orçamento, na ação relatada no STF pelo ministro Flávio Dino, com várias ações da PF.
Bolsonaro chegou ao poder surfando em um discurso de defesa da moralidade e de suposta intolerância com a corrupção. O apoio do grupo bolsonarista à PEC da Blindagem desmoraliza totalmente esse discurso. Por maior que seja a dificuldade, Bolsonaro tem conseguido manter sobre seus eleitores fiéis a ideia de que é vítima de perseguição política. Tal ideia se transfere para as dezenas de políticos que hoje já estão sendo investigados por desvios no orçamento? A sociedade, que desconfia da classe política, compreenderia se qualquer operação policial sobre políticos precisasse ser precedida de autorização do Congresso?
Na manhã de quinta-feira (28), o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), já dizia que a PEC da Blindagem já “não será mais prioridade” do partido, que vinha tomando a frente. “Se alguém quiser ficar à frente da proposta, seremos coadjuvantes”, completou ele.
Sóstenes disse que alguns parlamentares preferem “se acovardar” em vez de aprovar algo que beneficiaria a todos. Mas, no fundo, ficou claro que o problema da falta de consenso foi a constatação por parte de muitos do imenso desgaste político que a PEC pode trazer.
É verdade que também houve profunda falta de consenso a respeito do texto da Proposta de Emenda à Constituição. Falta de consenso que chegou a fazer o relator da proposta, Lafayette de Andrada (Republicanos-MG), ameaçar renunciar do cargo durante reunião.
A discussão de alongava e o tempo passava na residência oficial do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Entrar com a votação pela madrugada significaria talvez não obter quórum para aprovar. Diante disso, a PEC definitivamente subiu no telhado.
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