Por Tales Faria – Correio da Manhã
Uma mesma apuração, envolvendo os mesmos personagens e investigadores. Mas, na hora da entrevista coletiva de imprensa, não deu para a equipe do governo federal e a equipe de São Paulo se apresentarem juntas. Por quê? Porque entrou um elemento político bombástico na história.
A Polícia Federal decidiu expor que os criminosos, ligados ao Primeiro Comando da Capital, o PCC, se beneficiaram de uma articulação da oposição bolsonarista para desacreditar o Pix no início do ano.
Leia maisA Secretaria de Segurança de São Paulo não aceitou que se fizesse essa correlação e o impasse levou a serem promovidas entrevistas coletivas separadas – da equipe federal, em Brasília, e da equipe estadual, em São Paulo.
A diferença entre as duas apresentações é que a equipe federal sublinhou que uma fake news sobre a suposta intenção do Ministério da Fazenda de taxar o Pix atrapalhou a fiscalização sobre as fintechs utilizadas no esquema de fraudes operado PCC no setor de combustíveis. Uma das fake news, em janeiro, citava a norma da Receita Federal que tinha como objetivo combater fraudes e ocultação de dinheiro ilícito.
A Receita estava tentando obrigar as fintechs a informar transações de pessoas físicas acima de R$ 5 mil. Só ampliava um serviço de monitoramento que já existia para cartões de crédito e depósitos bancários.
“As fake news foram tão fortes que nós não conseguimos seguir [a origem inicial dessas] mentiras, por conta da força de quem as impulsionava. E as operações de agora revelam quem, de fato, se beneficiou”, afirmou o secretário da Receita Federal, Robson Barreirinhas.
Um vídeo do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) acusou o governo de tratar o pequeno comerciante como grande sonegador. Foi compartilhado por políticos bolsonaristas, inclusive o clã Bolsonaro, e obteve centenas de milhões de visualizações.
Diante da repercussão das fake news, a popularidade do governo despencou e o novo ministro da Comunicação, Sidônio Palmeira, convenceu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a mandar revogar o ato normativo do monitoramento. “A Receita Federal recebeu o maior ataque da história dela”, lamentou Barreirinha.
O esquema do PCC, que inclui lavagem de dinheiro no setor de combustíveis, só foi desmantelado na manhã desta quinta-feira (28), quando foram deflagradas três operações simultâneas – Quasar, Tank e Carbono Oculto. Foram cumpridos mais de 400 mandados judiciais, incluindo 14 de prisão, e centenas de buscas e apreensões em pelo menos oito estados do País.
As investigações apontaram que, com o uso de cerca de 1,6 mil postos de combustíveis, a facção criminosa movimentou aproximadamente R$ 140 bilhões entre 2020 e 2024. As medidas judiciais levaram ao bloqueio e sequestro de mais de R$ 3,2 bilhões em bens e valores.
A Receita informou que o PCC se utilizou de fintechs e de dezenas de fundos de investimentos. Ao todo, 42 alvos estão localizados em cinco endereços na Avenida Faria Lima, em São Paulo, maior centro financeiro do país. Mais de R$ 1 bilhão em bens foram bloqueados.
Resultado: este será mais um capítulo bombástico da novela da disputa eleitoral que o país viverá até outubro do ano que vem.
A disputa das últimas eleições presidenciais não acabou com o fechamento das urnas em outubro de 2022. Varou o ano seguinte, com quebra-quebra na Praça dos Três Poderes e tentativa de golpe de Estado cujo julgamento só deve terminar neste ano.
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