Na entrevista, o ex-líder do PT na Câmara também comenta a disputa pelo governo do estado e enxerga uma ligeira vantagem para Raquel Lyra. Segundo ele, os investimentos realizados pela gestão estadual começam a produzir resultados perceptíveis para a população, enquanto a vantagem inicial do ex-prefeito do Recife João Campos (PSB) teria se pulverizado.
Qual a leitura que o deputado tem sobre o atual cenário político a nível nacional, especialmente no contexto de proximidade ao início das campanhas para as eleições de 2026?
O Brasil está dividido. Ninguém pode, em santa consciência, deixar de reconhecer que há riscos de retrocessos institucionais caso uma candidatura como a de Flávio Bolsonaro venha a ter êxito. A candidatura de Lula não é apenas uma candidatura progressista ou da centro-esquerda. Eu acho que ela é uma candidatura que pode sensibilizar todas aquelas pessoas que têm preocupação democrática, que percebem que o Brasil estava indo numa direção perigosa, com tentativas de golpes, de fechamento das instituições que foram comprovadas no julgamento da ação penal no Supremo. Isso é muito importante, não por qualquer sorte de revanchismo, mas para que novas tentativas de golpe que marcaram a história do Brasil sejam dissolvidas.
Pensando na eleição presidencial, outros nomes como Romeu Zema e Ronaldo Caiado estão com pré-candidaturas em curso. O deputado enxerga alguma possibilidade de alguém furar essa bolha da polarização? São candidaturas viáveis?
Acho pouquíssimo provável. Até o Flávio Bolsonaro não é só o candidato da extrema direita, ele é o candidato a presidente da direita brasileira. O que deveria levar a direita a fazer uma autorreflexão. Eu acho que a direita ainda deve ao Brasil um conjunto programático mais coerente. Quando a direita brasileira vai à candidatura do bolsonarismo, ela mostra que não está preocupada com o debate de ideias. E a população percebe que tanto Romeu Zema, quanto Ronaldo Caiado são crias do mesmo ambiente, do mesmo ecossistema bolsonarista, do mesmo ecossistema não-democrático, do mesmo ecossistema que se envolveu com essa organização criminosa de Daniel Vorcaro.
As lideranças de direita têm travado verdadeira guerra com o Supremo Tribunal Federal. Recentemente, ao lado do professor João Maurício Adeodato, você lançou o livro “O STF entre a relevância e a disfuncionalidade” com reflexões acerca do modus operandi da alta corte. O STF precisa, de fato, de mudanças estruturais?
À luz da Retórica Realista, teoria filosófica do grande Adeodato, a quem aqui presto homenagem, nós fizemos uma análise empírica da jurisdição do Supremo em cada uma das principais áreas da vida nacional. O Supremo Tribunal Federal não pode continuar do jeito que está. Defendemos que o STF possa ter mandatos temporários. A sociedade não aceita mais essa vitaliciedade. Apresentamos, entre outras propostas, a do mandato temporário de 4 anos, com recondução, ou um único mandato de 8 anos.
E como podemos avaliar o cenário em Pernambuco?
Acho que nós teremos uma eleição, como sempre, muito disputada. Mas a opinião pública está tomando consciência do grande volume de realizações da governadora Raquel Lyra. É normal todo governo ter um período de maturação dos investimentos. Ela agora já está apresentando bons resultados na segurança pública, na qualificação e ampliação das estradas, realizou barragens que os governos anteriores não conseguiram concluir. Em cada área, o governo de Raquel, em três anos e meio, tem mais realizações do que o governo do PSB em 8 anos. Arrisco dizer que é uma eleição difícil, mas com viés de favoritismo para a governadora Raquel.
Mas então a sua candidatura é aliada à gestão Raquel e ao mesmo tempo defende a reeleição do presidente Lula?
O voto “Luquel”, como está sendo chamado, em Lula presidente e Raquel governadora, é um voto muito forte e tende a se adensar. As pessoas começam a perceber que a narrativa do PSB não corresponde à verdade. Porque a narrativa do PSB é: “olha, quem vota em Lula tem que votar em João Campos”. Aquela sinalização de que Raquel seria a candidata dos conservadores e João Campos o candidato dos progressistas não é verdade. Há progressistas e conservadores nas duas campanhas. E lembro mais: João Campos, quando foi candidato a prefeito em 2020, teve um amplo apoio do voto de segmentos que se alinhavam com Bolsonaro. Tanto é que ele fez uma eleição dizendo que PT nunca mais, que não queria ninguém do PT no seu governo.
Agora, o deputado se coloca como uma alternativa para a Câmara Federal, depois de três mandatos entre 2003 e 2012? Podemos dizer que Maurício Rands é pré-candidato?
Eu exerci três mandatos de deputado federal que honrosamente me foram concedidos pelo povo de Pernambuco. Fui presidente da Comissão de Constituição e Justiça. Tive a honra de ser líder do Partido dos Trabalhadores, o partido presidente Lula, na Câmara. Eu estou colocando novamente o meu nome como uma pré-candidatura para nós dialogarmos com a sociedade, com os movimentos sociais organizados, com aqueles que querem também a continuidade do governo do presidente Lula e que querem também a continuidade do governo de Raquel.
E qual seria o significado de uma volta à Câmara dos Deputados?
Os três mandatos me permitiram acumular uma experiência de saber como é que se navega em Brasília, porque é um ambiente bastante complexo. Há uma demanda muito grande pela melhoria da qualidade da representação da bancada de Pernambuco na Câmara dos Deputados. Eu sei que eu tenho uma contribuição a dar. Apesar de toda essa experiência na vida pública, eu nunca deixei de ser alguém que quer transformar profundamente esse status quo. Então, nesse sentido, eu sou meio que um outsider na política convencional. Eu tenho, portanto, uma visão muito crítica sobre o atual sistema partidário brasileiro; acho que esse sistema partidário não-democrático e excessivamente concentrado em algumas cúpulas precisa ser implodido.
Esse diálogo tem sido feito com qual partido?
Eu era afiliado ao Rede Sustentabilidade e a Federação PSOL-Rede tem um pré-candidato próprio ao governo do estado. Em comum acordo, todos que queriam apoiar a candidatura de Raquel Lyra migraram para outras siglas. Então esse outro partido, para mim, foi o Avante, um partido de centro que hoje está na base de sustentação do governo Lula. Neste momento, nós queremos um Brasil capaz de dialogar de modo não calcificado. A decisão das chapas vai ser feita nas convenções que podem ser realizadas até 30 de julho. Eu tenho percebido, onde eu vou, que as pessoas querem que o Congresso Nacional melhore de qualidade. Por isso estou sendo estimulado para fazer uma mudança na qualidade da bancada de Pernambuco na Câmara.
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